Eu não acreditava nisso. Não havia passado uma semana e ele já estava com ela. Fechei os olhos, respirando fundo, tentando não pensar no que eu acabava de ver. Eles não podiam me ver ali. Olhei por uma última vez. Ele pressionou mais seu quadril no dela, sua mão passou furtivamente em cima do seio enquanto a outra mão estava em sua nuca, a segurando com vigor. Ela deixava baixos sons escaparem da sua garganta e fincava as unhas em seu ombro descoberto. Ele começou a deslizar a blusa por sua cintura e escorrer sua outra mão pela parte traseira da calça jeans dela. Ela arfou mais forte. Eu não podia ficar aqui e simplesmente vê-los fazer sexo na minha frente, eu tinha que sair daqui e era agora.
-Droga! – eu disse quase inaudível.
Eu tropecei e quase caí se não tivesse me segurado na parede. Meus olhos foram parar nas duas pessoas que a pouco eu estava olhando. Ironicamente, eu esperava que nada tivesse mudado da visão que eu tive, mas eu não tinha tanta sorte. Ela já não tinha suas pernas em volta dele e sua blusa estava baixada, mas isso não indicava que eles tinham voltado ao estado normal; Ela arfava consideravelmente, ele nem tanto. Os olhos dele estavam sérios e franzidos, já Minogue esboçava um sorriso. Vadia!
- O que você ta fazendo aqui? – seus olhos baixados e a penumbra que nos cercava davam lhe um ar mais sombrio e furioso.
Eu engoli as palavras que estavam na minha cabeça. Eu queria xingar, bater, espancar, mas eu não tinha esse direito. Eu abri a boca para falar alguma coisa, mas nada veio a minha mente. O que eu estava fazendo aqui era uma boa pergunta, Lucius!
- O que mais essa pirralha podia ta fazendo aqui além de nos atrapalhar Lucius? – Minogue passou as unhas sobre a regata preta de Lucius enquanto me dizia essas palavras - ne, impata-foda?
Essas últimas palavras foram dirigidas a mim. Mesmo com essa frase, Luisa parecia feliz por eu ter visto a pequena agarração deles. Lucius não expressava nada, apenas continuava a me olhar.
- Eu tava no dormitório do Victor – eu disse finalmente.
Tentei falar isso como se o que eu tinha acabado de ver não me afetasse. Eu não tinha mentido, isso fez parecer mais natural do que eu pretendia. Felizmente ele não pareceu notar ou fingiu não notar meu nervosismo. Lucius apenas arqueou a sobrancelha e continuou a me encarar.
- Talvez eu esteja enganada, mas eu acho que é proibida a circulação de alunos depois da meia - noite, principalmente quando isso envolve Victor Lefroy – Minogue balançou a cabeça em negativa enquanto seu sorriso aumentava – A Sura não vai gostar nadinha de saber disso!
Essa frase veio acompanhada com uma risada baixa, não dela, mas sim de um vulto atrás de mim. Eu não precisei me virar para ver quem era. Victor se aproximou, circundou minha cintura com seu braço e ficou do meu lado. Ele já usava aquele sorriso cínico de sempre. Eu agradeci mentalmente por isso.
- Não se preocupe com a Sura, Minogue. Nós estávamos fazendo exatamente a mesma coisa que vocês – Victor pressionou mais sua mão em minha cintura – Nada!
- E quem disse que nós estávamos fazendo nada, Victor?
- Não estavam? – Victor se fingiu surpreso – Então me digam o que estava acontecendo aqui. Eu ficaria muito feliz de relatar isso ao Conselho.
A postura arrogante de Minogue vacilou por um momento. Lucius tinha expressão branca, não me dando a mínima noção do que se passava em sua cabeça. Eu olhei novamente para Minogue e notei que ela se recompunha da ameaça de Victor.
- E a história se repete mais uma vez! – Minogue saiu de perto de Lucius e se aproximou da escada - Sendo mais um passatempo da garota do Conselho, Victor? Eu pensei que uma já era o suficiente.
Senti o corpo ao meu lado tencionar. Eu não sabia ao que Luiza se referia, mas isso pareceu afligir Victor. Mas se Luiza pensava que me usaria pra atingir Victor, ela estava muito enganada. Me movi para frente e desci as escadas. Fiquei cara a cara com Luisa, já que tínhamos praticamente quase a mesma altura.
- Sério, Luisa? Eu não sei se você percebeu ou se você se faz de sonsa, mas o único passatempo de alguém aqui... – eu disse baixando meus olhos sobre ela, menosprezando-a - é você. Certo, Lucius?
Eu olhei diretamente para ele, sem disfarçar. Todo mundo aqui sabia que ele estava usando a Minogue, eu só precisava esfregar isso na cara dela.
- Tira os olhos do que é meu! – ela forçou suas unhas no meu rosto, me fazendo olhar para ela.
- Seu? – eu esbocei um sorriso – Isso foi antes ou depois de eu ter dito a ele que eu amava o Victor? – eu falei sem pensar.
No próximo momento eu me arrependi. Eu não podia ter dito isso, usar o que tanto o machucou para atacar Minogue. Ela ainda tinha a mão no meu rosto, apertando o cada vez mais. O sorriso que ela tanto adorava me mostrar desapareceu. Eu sabia o que ela queria, ela queria uma boa briga, e eu estava disposta a proporcionar isso a ela. Minogue apertava meu rosto com força, podia sentir as unhas pressionarem constantemente minhas bochechas e a dor aumentar cada vez mais. Não sei o que me deu, eu só sei que eu fiz, sem remorsos. Aproximei meu rosto do dela e senti ela me segurar mais ainda, sorri para ela de forma triste e sádica e vi-a repetir o gesto. Ficamos nos encarando por milésimos de segundo e assim eu o fiz, cuspi na cara dela sem culpa. O que procedeu foi rápido. Luisa soltou um som quase animalesco enquanto jogava meu corpo para trás.
- Não! – Lucius gritou.
Ele se aproximou rapidamente, segurou Luisa pela cintura e a afastou de mim. Victor foi veloz ao me deter antes que eu me deparasse com as escadas e me segurou pelas costas. Lucius tentava acalmar Luisa com sussurros e beijos lentos enquanto ela se debatia entre seus braços.
- Sua vadiazinha escrota! Me solta, Lucius!
- Não. Lu, olha pra mim – ela foi cedendo aos poucos – Não faça. Ela é apenas uma criança. Não seja como ela, infantil.
Eu não disse nada ou fiz algo. Meus joelhos pareceram ceder, mas Victor me segurou com vigor. A cena a minha frente pareceu doer mais do que tudo que eu já havia ouvido ou tinha visto. Eu tentei não chorar, segurar o choro. Lucius olhou para mim, ainda com Luiza em seus braços.
- Eu não sei o que você esta fazendo, Claire. Mas se você não tem respeito por si mesma, eu espero que você tenha pela Luisa... – ele fez uma pausa, me olhando de baixo para cima - Eu não te reconheço mais.
Ele me disse com o rosto sério, mas as palavras denotavam decepção e tristeza. Sorri cinicamente para ele. Não me reconhece mais? Então olhe para sua maior obra prima, amor, porque se tem alguém culpado pelo o que eu me tornei é você. Suas mentiras, sua frieza, seus segredos.
- Eu não sei o que vocês estavam fazendo – ele olhou para mim e depois para Victor – e eu não me importo. Eu só espero que vocês nos deixem terminar o que a gente começou.
Ele acariciou a barriga da Luisa, disfarçadamente, como um ato falho. Eu só os encarei, sem dizer nada. Luisa abraçou Lucius pela cintura com seus olhos cheios de fúria, mas em sua boca havia novamente aquele maldito sorriso. Eu tentei não demonstrar nada, eu não podia, eu não devia.
- Eu não sei o que é mais engraçado: você defendendo a vadia da Minogue, fingindo que ela é alguma santa ou você me chamando de infantil. – eu vi Minogue parecer inquieta e Lucius franzir a testa – Eu nunca pensei que você fosse magoar a Luisa desse jeito.Usando ela pra me esquecer, Lucius? Eu pensei que você fosse mais maduro do que isso.
Eu deixei todo o meu veneno escorrer por essas palavras. Eu não seria mais humilhada, por mais que me magoasse dize-las, eu não o deixaria me humilhar. Eu vi a figura a minha frente me fuzilar com olhar, dessa vez foi Luisa que teve que detê-lo para não ir ate a mim.
- Vem, Victor
Eu entrelacei minha mão com a dele e o puxei em direção ao corredor escuro. Eu só queria sair dali.
- Eu acho que não preciso dizer mais nada – Victor disse quando passou do lado do novo casal – Ate mais, Lucius.
Eu andei ate o jardim externo sem dizer nada, apenas sentindo os olhos de Victor em mim. Não olhei para trás, nenhuma vez si quer, eu não queria me machucar mais.
- Olhe pra você! Você me surpreendeu lá - Victor me disse enquanto ainda estava de costa para ele, trancando a porta do dormitório. – Eu não sabia que você era capaz disso.
- Você não sabe nada sobre do que eu sou capaz! – eu disse em um sussurro.
Mas tinha certeza que ele tinha escutado. A raiva borbulhou em mim, do meu sangue ate meu braço. No próximo segundo eu já tinha me virado e metido à mão na cara do Victor. Ele não me evitou, seja de propósito ou por sido pego de surpresa. Eu o encarei sentindo a raiva em mim aumentar.
- Você sabia disso, que eles estariam lá, não sabia? – ele não respondeu, apenas me encarou com os olhos cegos – Não me faça ter raiva de você, Victor!
Eu disse entre dentes. Em um reflexo rápido, ele já pressionava meu corpo contra a parede, de forma ameaçadora.
- O que você pensa que é pra achar que eu me importo sobre o que você sente por mim? – ele correu sua mão do meu braço ate o ombro, me empurrando mais – Eu não sou seu amigo ou mais um idiota apaixonada por você, Claire. Eu espero que você tenha isso em mente.
Ele empurrou meu corpo novamente contra a parede, de forma ate brutal, e se afastou, ficando de costas. Eu não reagi, ainda chocada com a transformação de Victor. Eu nunca me senti tão indefesa como ali, nesse estado. E não só pelo que ele tinha feito, mas por tudo que tinha acontecido essa noite. Eu nunca me senti tão enganada como agora. O choro que eu tentava esconder veio à tona. Eu me sentia acabada, sem esperanças, derrotada. Eu olhei Victor, que me olhava com os olhos sérios e impenetráveis.
- Porque você fez isso? – eu disse com a voz abafada – Você não sabe como isso machuca? Olhar pra pessoa que você ama com outra. Dói. Porque você me fez isso?
Ele não respondeu, passou a mão em seu cabelo loiro e continuou a me olhar.
- Você já amou alguém, Victor? – eu dei um passo em sua direção – Alguém que te fizesse perder o rumo, alguém que te desse os maiores motivos pra te fazer feliz e ao mesmo tempo a única que poderia te fazer sofrer dessa maneira, como se sangrasse?
Ele ainda não disse nada, mas eu continuei a me aproximar, com lágrimas escorrendo, silenciosamente.
- Já amou alguém assim? – eu dei mais um passo, o sentindo mais próximo – Já?
Ele me olhou com olhos mais límpidos e através deles eu pude enxergar o que ele estava sentindo. Pena, dor e culpa. Ele assentiu devagar, sem uma palavra dita. Eu me aproximei mais, e não o vi distanciar, como em um impulso, eu o abracei, tentando sentir o conforto de alguém, mesmo que fosse o dele. Ele não abraçou de volta ou disse algo. Sentia seu peito levantar e baixar, respirando, como se ele precisasse de ar.
- Então porque você fez isso comigo? – eu disse quando minhas lagrimas manchavam sua blusa azul.
Eu o abracei mais forte, vendo o hesitar. Ele não iria me responder, pelo menos não agora. Eu afastei meu rosto do seu colo e o olhei. Seu cabelo estava caído em seu rosto, bagunçado, sua boca em uma linha reta e os seus olhos teimavam a me fitar com frieza. Eu não consegui olhar mais para ele, era como se ele não se importasse. Ele não se importava. Um soluço surdo escapou da minha garganta. Eu me afastei, ainda olhando para o nada, sem vontade de encará-lo. Senti minhas forças esvaírem. Eu só queria esquecer tudo isso.
- Não.
Ele disse antes de segurar meu braço. Eu teria me deixado cair no chão se não fosse por ele. Eu ainda não conseguia olhar para ele.
- Vem, eu vou te levar pro seu quarto.
Eu neguei com a cabeça e tentei tirar meu braço das suas mãos.
- Garota estúpida! – ele disse entre dentes.
Antes que eu percebesse, ele já tinha as mãos nas minhas costas e nas minhas pernas, me segurando em seu colo. Eu não disse mais nada, não me debati ou discute. Ele me levou ate meu quarto, eu ainda com o rosto em seu pescoço, sentindo o cheiro forte e bom que saia dele, enquanto ele me deitava na minha cama. Ele ia me deixar sozinha se não tivesse segurado em seu braço.
- Fica comigo – ele franziu a testa e negou – Por favor... Não me deixa sozinha.
Eu senti minhas lágrimas escorrerem novamente. Ele me olhou por um tempo, sem dizer nada como sempre, medindo as opções. Ele ainda estava perto de mim, por um momento desviou o olhar e sentou de lado perto da cabeceira da minha cama. Passou a mão sobre seu cabelo e prendeu atrás de sua orelha, permitindo me olhar melhor. Olhou-me como se não acreditasse no que via, não com pena ou dó, como ele fazia minutos antes, mas como se me entendesse, sem julgamentos, como se já tivesse se sentido assim. Passou a mão sobre minha cabeça e me puxou para suas pernas, para que eu a encostasse lá. Eu o fiz. Continuou a acariciar meu cabelo de forma lenta e silenciosa enquanto eu me aconchegava em suas pernas. Me senti cansada, cansada de mais. Eu estava com os olhos fechados e podia sentir meu corpo relaxado, quase dormindo.
- Não faça isso comigo, Claire.
Eu ouvi ao longe, não sabendo se ouvi direito ou era apenas minha imaginação, mas eu sabia que Victor não seria capaz de me dizer essas palavras. Ou seria?
Sábado e eu ainda tinha treino à tarde. Eu acabei chegando atrasada a aula da Amélia, estudos avançados sobre luta e autodefesa. Eu sei que parece meio estranho ter aulas teóricas sobre luta, mais ainda aulas avançadas, mas havia técnicas que precisavam ser bem analisadas antes de serem executadas. As outras aulas seguiram normalmente, pelo menos para o restante da sala, não tanto para mim. Minha cabeça ainda estava confusa com tudo que tinha ocorrido na noite anterior e eu ainda me sentia ferida, eu ainda sofria. As meninas pareceram notar, mas não comentaram nada, não na hora dos intervalos. Eu andava com elas ate o refeitório, tentando acompanhar o que elas falavam e rir com qualquer besteira que a Moira dizia, mas não estava adiantando muito.
- Eu acho que vou almoçar no meu dormitório mesmo, meninas – eu disse olhando a fila que se formava.
- A não Claire – Celina me disse com cara de emburrada – você passou a semana inteira dormindo nas aulas e pior, sem conversar com a gente direito. Dessa vez você vai almoçar aqui!
- Concordo plenamente com a Céu – Moira já ia pegando meu braço e nos levando pra fila – Dessa vez você almoça com a gente e nem precisa fazer charme.
- Nem adianta discutir com vocês! – eu disse tentando fingir animo – mas eu to sem fome. Vão pegar a comida enquanto eu arranjo mesa pra gente.
- Vai ficar sem almoçar antes do treino? – Moira cruzou os braços e me olhou.
- Então trás uma salada de frutas pra mim, ta bom?
- Só salada de frutas? – foi a vez da Celina ficar preocupada.
- Eu só vou conseguir comer isso... – eu vi Celina franzir a testa – Por favor, não insistam.
Eu olhei de Celina para Moira, transmitindo todo meu cansaço, elas pareceram entender e não insistiram mais. Enquanto elas pegavam as bandejas, eu tentava encontrar uma mesa para que nós almoçássemos e, coincidência ou não, encontrei Jeremi me olhando, praticamente me analisando. Eu tentei sorrir para ele e acenei. Ele acenou de volta depois de um tempo. Eu sabia que não devia ir ali, principalmente vendo que ele tentava me evitar, mas eu precisa conversar com ele, mesmo que só durante o horário de almoço. Eu fui ate ele rapidamente e sentei a sua frente.
- Hei! - eu sorri para ele.
Eu queria que tudo voltasse ao normal, quando ele era um idiota, engraçado e fofo. Ele não parecia disposto a isso.
- Hei – ele disso sem animo.
Eu o olhei por um momento, sem dizer nada. Ele não me olhava nos olhos, só olhava em direção a fila.
- Você já almoçou? – olhei para sua bandeja vazia.
- Yeh – ele parou de encarar o refeitório e olhou para mim – Você viu o Sam por aí?
- Não. Eu fiquei conversando com as meninas no corredor e acabei não vendo onde ele foi.
- Então... Eu acho que vou procurar ele. – ele ia se levantando.
- Não! - eu disse meio afobada – Fica aqui comigo.
Ele riu debochado – Ok! Eu fico...
- Não finge que não ta me evitando Jeremi.
- Eu não to...
- Eu sei que ta. Desde aquela conversa no jardim. – eu o olhei profundamente, esperando que ele falasse alguma coisa, mas ele não disse, então eu continuei – Eu sei que você me pediu pra ficar longe do Victor, mas eu não posso.
- Você não pode? – ele perguntou confuso.
- É. Pelo menos não por agora. – eu tentei suavizar as coisas.
- Não precisa arranjar desculpas, Claire. Você não precisa me explicar.
- Não é isso!
- Então é o que?
- Sabe quando tem um segredo, um segredo só seu e que enquanto ele não for realizado ou qualquer coisa do tipo, você não pode contar pra ninguém? – eu vi ele acenar – Isso é um segredo e por enquanto eu não posso te falar.
Ele me olhava como se refletisse sobre isso, sério, muito sério. Eu tentei entender todo esse mistério depois que eu contei o porquê de não poder evitar o Victor. Eu tentei falar mais alguma coisa, mas nada vinha a minha mente. Jeremi parecia cada vez mais envolvido, me olhando, com seus olhos castanhos e a expressão fechada.
- Eu entendo, Claire. Não se preocupe com isso.
- Tem certeza?
-Tenho – ele sorriu.
Sorriu de forma pura e eu pude ver as covinhas se formando no canto da sua boca. Então eu me senti contagiar com seu sorriso e sorri de volta. Eu vi, depois de semanas, meu Jeremi de volta pra mim.
- Finalmente eu consegui!
Eu estava tão envolta com o Jeremi que nem vi Sam chegar junto com a Celina e Moira.
- Toma sua salada, sua topeira! – Moira disse quando entregou a salada para mim.
- Hei – eu fiz cara de ofendida.
Moira sentou do meu lado enquanto Celina e Sam sentavam ao lado do Jeremi. Ficamos assim, conversando, rindo e por um momento eu esqueci de me sentir triste.
- Aula conjunta... – Moira dizia enquanto andávamos no corredor – Tudo que eu precisava pra animar meu dia!
- Sério que você gosta de aula conjunta, Moira? – eu a olhei incrédula
- Claro que eu gosto! Irial, Jace e ate mesmo o chato, mas gostoso, do Lucius numa mesma aula. Foi tudo que eu pedi pra Deus!
Eu bufei em desacordo e Celina riu. Os meninos não pareciam tão felizes.
- Esquecendo a melhor parte Moira? – Jeremi disse sorrindo afetado – A gostosa da Minogue também vai ta lá.
Meu estomago revirou só de ouvir o nome dela. Eu queria esquecer, mas imagens ainda estavam muito vivas na minha cabeça. Eu apertei meu passo, indo mais de pressa para quadra, não querendo ouvir mais sobre aquele assunto.
- Você quer dizer a puta da Minogue,né? Porque alem de dar em cima do meu Irial, vive se arrastando pelo o Lucius. Graças a Deus ele tem gosto e não da moral pra ela.
Eu tive que rir desse comentário.
- Ele dá muito mais que moral pra ela – eu disse mais para mim mesma.
Mas o pessoal pareceu me ouvir e me encarou. Eu fui mais rápida e acabei entrando no ginásio sem dar nenhuma explicação. Todos estavam ali. Desde o primeiro nível ate o quinto nível, o que era difícil, já que o quinto ano costumava treinar fora do Instituto, nos arredores. Eu senti todos os olhares em mim. Não poderia ser diferente. Só o segundo e o quarto ano, que eu tinha mais contato, não me olharam tão fixamente. O quinto ano, onde se encontrava os alunos mais velhos, me olhavam intensamente. Eu era um blind, e se tudo o que Victor tinha me dito era verdade, eu provavelmente deveria ser a coisa mais foda que eles já tinham visto. Único detalhe era que eu era do segundo nível e não do quinto, como eles, mas isso era só um detalhe.
- Vai ficar só olhando? – Moira disse ao passar ao meu lado.
Celina riu, assim como o Sam e o Jeremi. Eu tentei disfarçar e continuei a andar junto a eles. Mesmo com todos os alunos ali, eu não podia não ver, não sentir a presença dele. Lucius estava em um canto junto com os outros treinadores, conversando. Ele e Luisa estavam de costas para turma enquanto Jace e Irial riam abertamente de algo que eles diziam, ele parecia ter se recuperado melhor do que eu. Eu me virei para as meninas. Eu não podia ficar me torturando com o que tinha acontecido antes.
- Meu. Deus. Se eu soubesse que o quinto ano era bom assim eu tinha passado no teste fácil! – Moira sorriu para um dos meninos que ainda olhava para nossa roda.
- Moira, amiga, agora você é uma menina comprometida! – eu a lembrei.
- Sou? Porque se depender do Irial eu continuo casta e sem beijo.
- Então quer dizer que o todo gostosão do Irial ta te evitando? – Jeremi brincou.
Moira acabou contando para o Jeremi e o Sam um dia depois do ocorrido.
- Cala boca Jeremi!
- Qual é, Moira! Você sabe porque o Irial faz isso – Sam o defendeu.
- Eu posso ate entender, mas, Sam, eu não sou o tipo que fica esperando – Moira piscou para Sam e sorriu – Agora olha pra aquele garoto de camisa verde musgo e fala se ele não ta olhando pra cá!
Eu e Celina olhamos diretamente para o garoto. Ele tinha no rosto um sorriso grande, os olhos ao longe pareciam claros, as bochechas altas e o cabelo castanho cheio de cachos. Usava o uniforme de treino preto e um tênis da nike vermelho com preto. Seus braços cruzados e a postura desleixada o deixavam mais lindo que o normal. Ele variava em olhar para o seu amigo e para nós.
- Uau! – Celina disse com a boca meia aberta.
- Ouw! – Sam se afastou de Celina um pouco
- Uau... que tênis bonito.
Todo mundo riu. Que tênis bonito? Celina tentava abraçar Sam e beijar sua bochecha, mas ele não deixava. Aos poucos ele foi cedendo e a abraçando de lado.
- Realmente o tênis dele é muito bonito – eu o avaliei novamente.
- Mas bonito que o meu tênis? – Jeremi fez careta e eu ri.
- Não. O seu é bem mais bonito – eu sorri.
- Sem querer estragar o momento, mas esse papo ta bem estranho! – eu rolei os olhos com o comentaria da Moira – Mas vamos parar de falar de tênis e falar de bundas. Olha aquilo!
- Eu vou é tirar minha namorada daqui, senão ela vai acabar se contagiando com a Moira... – Sam disse abraçando Celina com mais força, a tirando do chão e a levando pro outro lado.
- Sam, não tem como não olhar! – Moira disse rindo.
- Sam - Celina o olhou séria – Sam... é só uma olhadinha!
- É só uma olhadinha, Sam – Jeremi imitou a voz da Celina.
- Não ta contente com a minha? – Sam pegou a mão de Celina e a moldou na sua bunda.
Celina assentiu com um sorriso sapeca e começou a distribuir beijos no seu rosto.
- Agora eu fiquei com vontade de apertar uma também!
- Apertar o que?
Eu e ninguém notamos que Irial tinha se aproximado.
- Apertar uma...
- Nada! Apertar nada, Irial – eu interrompi a Moira – A aula não vai começar não?
- Eu vim aqui justamente pra isso, já que vocês pareciam tão entretidos – ele sorriu de forma tímida e eu pude perceber que seu olhar parava constantemente na Moira.
- A aula vai ser em dupla com treino de espadas, então é melhor vocês se juntarem aos seus parceiros.
Nesse momento eu lembrei que eu não tinha visto meu parceiro desde ontem. Que ótimo! Mais um motivo pro Lucius pegar no meu pé. Eu vi tanto as meninas e os meninos se afastarem a procura de seus parceiros ou procurando um espaço para começar o treino. Eu fiquei parada e Irial me olhou.
- An... Onde ta seu parceiro, Claire?
- Eu não tenho a mínima idéia... Talvez eu possa ir chamar ele.
- Eu acho que os treinadores não vão querer te esperar ate você encontrar o Victor, Claire.
Quando ele diz treinadores, lê-se: Lucius e Luisa.
- Eu sei – eu disse meio cabisbaixa.
- Espera aqui. – Irial olhou para trás e avistou Lucius – Lucius vem cá!
Não. Ele não acabou de gritar o Lucius. Ele não fez isso. Lucius andou em passos lentos, com o olhar sério, olhando somente para Irial.
- Que foi?
- Parece que a Claire ta sem parceiro.
Logo aquele maldito sorriso arrogante apareceu no rosto de Lucius, eu não fazia a menor questão de ver isso.
- Eu acho que posso ir pro meu dormitório, pelo menos nesse treino – eu disse.
- Não é necessário...
- Ela tem razão – Lucius cortou Irial – Eu não posso interromper o treino pra ser o parceiro dela, alem disso,ela que escolhesse melhor o parceiro.
- Tem quatro de nós aqui, Lucius – Irial tentou me ajudar.
- E setenta alunos. Nós não podemos dar atenção só para uma aluna, Irial.
- Não precisa se preocupar, Irial. Eu treino outro dia.
- Irial? – uma voz mais firme soou atrás dele – Talvez eu possa treinar com ela.
Lucius e Irial se viraram para o garoto e eu dei de cara com o garoto do tênis.
- Mas é a Tais, Pv?
- Você conhece ela, ela não curti muito treinar com o pessoal mais novo.
- Se não for problema.
- Não, problema algum. – ele sorriu e de perto eu pude ver que seus olhos eram verdes.
- Você que sabe, Pv – Lucius disse – Mas vai com calma, que ela não é uma das melhores.
- Não liga pro Lucius – eu disse – Ele ainda não se conforma por eu ter conseguido dar uma rasteira nele.
- Você derrubou o Lucius?
O menino do tênis disse quase rindo, mas foi parado pelo olhar mortífero que Lucius lançou.
- É melhor começar o treino – Irial disse se virando e acompanhando Lucius, que já andava na frente.
- Acho que ele ficou realmente nervoso – O menino do tênis disse rindo e passando a mão pelo cabelo.
Assim de perto ele aparentava maior e ate mais velho, com uns 22 anos. Ele sorriu mais ainda e ofereceu a mão.
- Eu sou o Paulo Vitor – apertei sua mão – Mas pode me chamar de Pv.
- Eu sou a Claire.
- Eu sei.
- Sabe?
- Sei. Eu acho que todo mundo sabe sobre a única blind do Instituto – ele sorriu – Acho melhor a gente começar a treinar.
Eu olhei para frente e vi que quase todas as duplas já estavam posicionadas, separadas, apenas esperando as instruções dos professores. Acompanhei Paulo ate um ponto mais afastado e vi de relance que Celina e Moira me olhavam. Moira bateu palmas inaudíveis, brincando comigo e eu dei de ombros, me fazendo de importante.
- Algum problema? – ele me olhou.
- Arr... Nada! – eu tentei disfarçar a careta que eu estava fazendo para Moira.
Paramos enquanto Jace e Irial explicavam o que iria acontecer na aula. Basicamente iríamos testar nossas habilidades em uma luta com espadas contra o nosso parceiro, no meu caso o Paulo Vitor, enquanto os treinadores iriam nos avaliar e ajudar durante o treino. Nada de mal ate aí. Eu vi Lucius e Luisa distribuírem as espadas para os principados. Luisa pareceu pressentir minha presença.
- Não me diga, Pv, que você vai treinar com a Claire? – Luisa disse lhe entregando a espada.
- Você me conhece, Lu... – ele sorriu de lado e pegou a espada – Eu não perco oportunidades.
Ela riu de forma debochada e me olhou com desprezo em seguida.
- Boa sorte – me entregou a espada – Iniciante.
Luisa andou, quer dizer rebolou, em outra direção para pegar mais espadas e distribuir. Eu não consegui dizer nada.
- Você conhece a Luisa?
Que eu soubesse ela só dava aula até o quarto ano.
- É, conheço. Ela é uma das nossas treinadoras.
- Não perde oportunidades? – eu me referi ao que ele tinha acabado de dizer.
- Podem começar o treino! – Jace gritou.
- Você sabe... – ele rodou a espada em sua mão – eu queria ver como o melhor aluno do quinto ano se sai lutando com um Blind.
Eu o olhei meio abismada. Melhor aluno do quinto ano? Talvez ele não fosse tão legal quanto aparentava.
- Melhor aluno do quinto ano? – eu ri um pouco – O mais convencido também?
- Não. Apenas realista! – Ele sorriu, mostrando os dentes brancos e certinhos, e piscou para mim – Agora vai ou não começar a treinar?
Ele apontou para minha espada, que eu sustentava da pior forma possível e eu me senti mal. Se pelo menos fosse uma aula de luta, eu seria melhor, mas com espada? Isso não ia dar certo.
- Certo – eu posicionei a espada da melhor forma possível e encarei.
Ele riu e franziu a testa. Talvez eu não tenha me posicionado bem, mas ele não tinha o direito de rir da minha cara por isso. Eu senti a raiva voltar, assim como eu me senti ontem. Ele avançou sem dizer nada, deslizou a espada sobre a minha e eu me defendi. Ele insistiu no movimento, forçando a para baixo, provavelmente tentando tirá-la da minha mão. Eu segurei com mais força e empurrei com a maior força possível, me desvencilhando dele. No próximo momento ele já estava vindo em minha direção, tão rápido que eu não percebi. Ele desatou sua espada contra minha com força, me forçando para trás, fazendo com que eu caísse.
- Só isso que você consegue fazer? – ele arqueou uma sobrancelha.
Ele ofereceu sua mão, mas eu não aceitei. Levantei e peguei minha espada de novo.
- Certo – ele ergueu a mão.
A luta continuou de forma desigual. Enquanto ele vinha para cima de mim, eu tentava desesperadamente contra atacar, mas ele era mais forte, mas ágil e mais esperto. Minha espada caiu no chão pela terceira vez. Droga!
- Deixa eu te ajudar...
- Não precisa! – eu disse entre dentes.
Luisa me olhou rindo. – Tem certeza? Porque ate agora eu só te vi perder...
- Sério? Nem tinha percebido! – eu disse irônica.
- Vai. Pega a espada logo, deixa eu te ajudar.
Eu peguei a espada e nem reclamei.
- Coloca suas mãos mais para cima...
Eu nem a deixei terminar e já ataquei Paulo. Ele nem pareceu surpreso, apenas revidou. As espadas se cruzavam e se chocavam. Eu o vi regredir, mas foi só no começo. Pouco a pouco ele foi tomando conta da luta, me fazendo ir para trás novamente. Eu bufei e tentei o empurrar.
- Firma as pernas, Claire – ouvi Luisa dizer e obedeci – Agora se abaixa!
Eu abaixei e logo em seguida a espada deslizou no ar sobre minha cabeça. Vendo o espaço e falta de defesa de Paulo, eu aproximei a espada e o acertei com o outro extremo da espada, fazendo o se encolher.
- Certo – ouvi Luiza dizer – Agora vamos ver se você consegue sem mim.
Ela se virou e foi ajudar outra dupla. Eu olhei Paulo, que já tinha se recuperado, e o vi olhar sério e ate um pouco nervoso.
- Dessa vez não vai ter ajuda da Luisa.
Ele veio para mim, cruzou a espada sobre sua cabeça e a deslocou ate a mim. Eu a parei prontamente e forcei para frente com a minha espada. Eu senti a raiva aumentar. Ele sorriu de forma sádica e me empurrou mais, com muita mais força. Eu me virei, rodopiei e me desviei dele. Com tanta força que ele me aplicava, vi seu corpo ser projetado para frente e quase caiu. Eu tive que rir, o que não foi uma boa opção. Ele voltou, ainda de costas, rodou e tentou me acertar, o que passou bem perto do meu rosto, se eu não tivesse andado um pouco para trás. Aproveitando minha falta de atenção, ele virou a espada e acertou o cabo no meu rosto, de forma agressiva, me fazendo cair, de novo.
- Paulo Vitor! – eu ouvi ao longe.
Uma mão tentou me levantar. Percebendo que era Luisa, eu me afastei e levantei sozinha. Limpei o pouco sangue que escorria no canto da minha boca e prossegui.
- Parem de lutar – senti Luisa apertando meu braço novamente.
- Me deixa! – eu gritei no rosto dela e tirou meu braço do seu aperto.
- É isso que você quer mesmo, garota? – vi Paulo sorrir e se preparar para luta novamente.
Deslizei em sua direção, com a espada perto do meu rosto e o vi reagir da maneira que eu imaginava. Ele deslizou a espada em minha direção, imaginando que eu me defenderia, mas ao invés disso eu abaixei. Tentei acertá-lo novamente na barriga, mas ele já tinha aprendido esse truque e se defendeu. Ele segurou minha mão e me virou de costas para ele, com a outra ele prensava a espada contra minha garganta. Eu pisei em seu pé, sem me importar e com o cotovelo tentei acertar sua barriga, mas ele já tinha distanciado. Foi o tempo para eu me virar, para ver que ele já estava vindo.
Direita, costas, rasteira – as palavras surgiram na minha cabeça e se repetiram - Direita, costas, rasteira.
Então eu lembrei sobre o que Victor tinha dito e tudo pareceu ficar mais claro. Não tive tempo de desviar do primeiro golpe, logo ele me acertou, com o cabo da espada, no meu braço direito. Eu me desequilibrei no começo, mas me recompus, já sabendo o que ele iria fazer. Ele me passou, me vendo apenas de costas. Eu sabia que ele tentaria me acertar nas costas, então me abaixei, percebendo que a espada passava novamente acima de mim. Foi tempo suficiente para que eu me baixasse mais no chão e lhe aplicasse uma rasteira. Ele não teve tempo de raciocinar e como eu previa, ele caiu, caiu feio.
Eu o vi deitado com rosto cheio de dor devido a pancada na cabeça e com a espada largada ao seu lado. Eu tive que me conter para não rir. Eu poderia ate acertá-lo, mas derrubar da forma que eu derrubei, nunca. Todos pareceram pensar como eu, já que na maior parte da luta eu estava perdendo. Os alunos do quinto ano pareciam mais chocados, uns olhavam sem entender a situação, outros já riam. Eu me aproximei e baixei meu rosto, podendo o olhar de mais perto.
- E só isso que você consegue fazer? – eu perguntei cínica e sorri.
******
Eu passei a tarde inteira treinando. Só que desta vez, sem Paulo. Ele pareceu não gostar muito do que tinha acontecido e acabou saindo da aula. Mas no fundo eu ate entendi ele. O melhor do quinto ano perdendo pra uma garota do segundo nível? Sinceramente eu não me importava com o que tinha acontecido na aula depois disso. Eu tentei não prestar atenção ou não chamar tanta atenção assim, então acabei não ouvindo mais nenhuma voz na minha cabeça me indicando o que fazer ou ganhando mais uma luta. No fim eu acabei vindo para o dormitório sem falar com ninguém, eu não queria que todos me falassem o que tinha acontecido ou pior me perguntassem o que tinha acontecido. Então aqui estava eu: deitada no sofá, já de banho tomado, tomando soda e assistindo televisão. Eu ouvi alguém bater na porta e logo lembrei de Victor. Eu não tinha falado com ele a tarde inteira, o que já estava me deixando preocupada. Levantei-me do sofá e fui abrir a porta, mas não era exatamente quem eu imaginava.
- O Lucius não esta! – eu disse com desgosto.
Luisa me encarou e sorriu um pouco.
- Eu sei, Claire. Ele ta no meu dormitório... dormindo – ela acrescentou.
Eu bufei e tentei fechar a porta na sua cara, mas ela me impediu. Entrou no quarto e se sentou no exato lugar onde eu tinha estado.
- Agora fecha a porta que eu preciso conversar com você – ela sorriu abertamente e bateu a mão ao seu lado para que me sentasse.
Engoli toda minha raiva e fechei a porta. Eu conhecia a Luisa. Ela não viria aqui por nada, se ela me odiasse tanto como eu a odeio, provavelmente era alguma coisa séria. Sentei um pouco longe dela no sofá e a olhei.
- O que você quer Luisa?
- Me diga o que exatamente você anda fazendo com o Victor?
Eu a olhei incrédula. Ela realmente pensava que eu ia dizer alguma coisa?
- Nada que te interessa! – eu tentei me levantar, mas ela me segurou o braço.
- Me responde! – ela apertou o braço com mais força.
- Eu não preciso te responder isso, mas já que te interessa tanto... a mesma coisa que você anda fazendo com o Lucius.
Ele riu e me fez sentar ao seu lado, forçando-me para perto dela.
- Você pensa que me engana, garota? – disse mais baixo – Talvez você tenha enganado o Lucius com toda aquela historia que ama o Victor, mas não a mim! Agora, o que você anda fazendo no quarto do Victor depois da meia-noite?
- Eu já te disse! – eu meio que gritei pra ela – Agora sai daqui!
- Eu to tentando da forma mais passiva, Claire, não me faça...
- Não me faça o que? Vai me ameaçar agora?
- Não. É só que eu ainda não esqueci o que você fez ontem a noite. E nem pense que vai ficar por isso mesmo.
- Então porque você não começa agora? – me levantei e baixei novamente meu rosto junto ao dela – Ou vou ter que cuspir na sua cara de novo pra ver se você toma coragem?
- Criança, a outras maneiras de te machucar – ela bateu sua mão de leve no meu rosto – E nessa hora o Lucius será meu!
Ela se levantou, o que me fez levantar também e me encarar. Eu queria bater na cara dela e mostrar quem ia machucar quem, mas eu tinha que me manter no jogo. Eu ri abafado.
- Talvez ele seja seu, mas a única que ele ama e vai amar sou eu. Ou você ainda não percebeu?
Ele abriu um sorri morto e saiu da minha frente, indo para porta – Isso é o que vamos ver, Claire.
Ela abriu a porta e se virou de novo pra mim.
- Mas só avisando: Eu vou descobrir o que você e o Victor tão fazendo, garota – Minogue disse antes de fechar a porta.
terça-feira, 3 de agosto de 2010
terça-feira, 27 de julho de 2010
Capítulo 21 - Recordações:
Eu não saberia explicar o que tinha acontecido. Eu sabia o que eu tinha feito, eu sabia o que tinha falado, mas a cena do que tinha acontecido não me vinha à mente. Tudo tinha acontecido tão rápido. Foi tudo tão sem nexo. As palavras que saíram de mim, as palavras que saíram dele. Então tudo o que tinha acontecido durante esses sete anos foram resumidos em cinco minutos. Tudo resumido em apenas uma frase. Não se preocupe Claire, eu não vou estar mais na sua vida. Eu vou esquecer você. Pareceu tão simples. Ele não gritou ou apertou meus pulsos, ele não riu cinicamente para mim ou me machucou com suas palavras acidas. Ele simplesmente me deixou ali. Ele simplesmente não lutou por mim. Eu apertei minhas pernas sentindo a náusea aumentar, respirei profundamente tentando não me sentir tão tonta. Mas isso não me machucava tanto. Eu havia provocado isso, era isso que eu tinha esperado, então eu não podia reclamar. Mas o que mais machucava era simples idéia que ele conseguisse cumprir o que tinha me falado, me esquecer. Se ele me esquecesse não teria muita coisa que eu poderia fazer. Ele poderia sair da minha vida, mas nunca da minha cabeça. Desde os noves anos, tudo, tudo se resumia a ele. Eu me lembro de cada momento, cada sorriso, cada abraço, cada beijo, cada sonho, cada olhar, eu lembrava de quase tudo. Ele deixava me deitar entre seus braços na promessa que me acalmaria, que eu estaria segura ali. Agora que eu não o teria mais, não teria mais seus braços, eu não sabia mais o que aconteceria. Só em pensar que não o veria mais sorrir para mim, só para mim, me fazia sentir mal. Se eu sorria era só para vê-lo sorrir de volta, se eu passava meus cabelos atrás da minha orelha era apenas para fazer charme e ele notasse que eu sentia seu efeito sobre mim, se eu me apertava entre seus braços era para que ele visse o quanto eu precisava dele e se eu olhava em seus olhos, por intermináveis minutos, era para que ele soubesse que eu o amava. Mas agora não mais. Agora eu tinha lhe dado à única razão para mantê-lo longe. Eu disse que o que eu pensava sentir por ele era uma ilusão. Eu disse que não o amava mais. Mais que isso. Eu disse que amava outro. A realidade me acertou. As palavras que havia dito não estavam tão longe da verdade. Eu tinha me agarrado a ele como minha única salvação. No orfanato, depois que minha irmã foi levada, eu vivi a fase mais escura da minha vida. Eu tinha cinco anos quando tive minha primeira visão. Sombras. Em quase tudo que eu via tinha sombras. Elas se arrastavam e circundavam pessoas como se fizesse parte delas. O mal existe em qualquer lugar. Então eu comecei a ouvir vozes. Vozes grossas ou angelicais, mas as intenções não eram das melhores. Eu me recusava a obedecer, então eles me ameaçavam. Toda madrugada os barulhos se espalhavam pelo quarto. Gritos de dor, raiva, sons estranhos, desconexos. Ate eu não aquentar mais. Eu tive meu primeiro ataque aos seis. A madre superiora não sabia o que fazer comigo na época, então na maioria das vezes ela me trancava no quarto. Eu nunca fui uma criança normal, as crianças não costumavam a brincar comigo. Quando eu passei a ser trancafiada no meu quarto ninguém sentiu minha falta, o que só fez as coisas piorar. Só um ano mais tarde eu fui levada a médicos e diagnosticada com epilepsia. Os médicos não conseguiram detectar a causa da doença. Os remédios receitados não fizeram os efeitos esperados. As crises diminuíram, mas não como esperado. Logo eu continuei presa no meu quarto. Eu não culpo Julia, a madre superiora, eu vivia em uma cidade pequena, cheia de superstições e crenças, o medo do que aquilo significasse me baniu no orfanato. Só quando eu tinha nove anos eu o vi. Ele era uma parte da minha ilusão que eu queria que se tornasse realidade. E ele se tornou. Eu apenas o vi, na pequena praça em frente a minha janela. A neve, o casaco preto assim como suas asas, os olhos azuis, a pele branca, o sorriso. Ele vinha todas as noites quando eu ameaçava ter outro ataque, me reconfortando. Até que suas visitas se tornaram mais constantes. Ele me contava histórias sobre suas crenças e origem, o que eu era no mundo e minha importância. Ele me convenceu que eu fazia parte de algo importante, algo maior. Então pela segunda vez na minha vida eu me senti no lugar certo, junto a ele. Ele passava a maior parte da noite lendo para mim ate eu adormecer. Eu amava a sua voz, a forma como ele me abraçava ou quando ele beijava a minha testa quando pensava que estava dormindo. Aos doze eu já estava viciada nos livros da Clarisse Lispector. Foi ela que me convenceu que eu tinha o direito de ser quem eu era e amar quem eu amava. Eu disse a ele que não tinha mais ninguém que eu poderia casar alem dele. Ele apenas riu da minha afirmação. E eu? Eu o expulsei do meu quarto aquela noite. Ele voltou apenas dois meses depois, mais distante e frio. Aquilo me fez esquecer minhas pretensões por um tempo. Se amá-lo significava perdê-lo, eu guardaria aquele sentimento só para mim. Foram meses ate ele voltar ao que ele era. E foram anos ate eu voltar a expressar o que eu sentia.
Eu puxei as cobertas sobre meu corpo, me encolhendo mais. Estava mais frio essa noite. Lucius estava em frente da janela, com os braços cruzados, observando a neve se dissipar pela rua. Eu tremi involuntariamente trazendo a atenção de Lucius para mim.
- Ainda com frio? – ele perguntou sério.
Eu apenas balancei a cabeça, confirmando, já que meus dentes batiam sem me deixar responder. Ele andou ate a cama ainda com os braços cruzados e se sentou na beirada da cama. Tirou um sapato de cada vez e se levantou novamente. Ele tirou as cobertas rapidamente e se deitou ao meu lado. Uma brisa leve vindo do piso amadeirado me fez tremer novamente. Ele passou os braços em volta do meu corpo e me puxou mais para ele. Eu juntei meus braços e deixei que seu corpo me aquecesse. Eu fechei meus olhos sem perceber e ri. O contato do seu corpo ao meu me fazia sentir estranha. Esfreguei meus pés aos seus. Eu não precisava abrir os olhos pra saber que ele ria do meu ato. Eu poderia ficar ali, assim, sem me mexer, que viveria feliz. Abri meus olhos lentamente e senti seus braços afrouxarem um pouco. Eu encarei aquela imensidão azul, seus olhos, e percebi como ele estava próximo. Minha mão deslizou sobre sua camisa azul de algodão e parou na sua nuca. Eu o senti hesitar com meu ato e se distanciar um pouco.
- Minha mão ta fria... – eu simplesmente disse, tentando mascarar minha ação.
Ele concordou com a cabeça, com os olhos cerrados, desconfiando.
- Você nunca sente frio? – ele apenas negou, parecendo tão extasiado como eu – Nunca?
Fingi não acreditar. Aconcheguei-me melhor no meu travesseiro, colocando meus olhos na mesma altura dos seus. Movi minha mão ate seu nariz e apertei. Ele me deu um meio sorriso e eu sorri de volta.
- É. Realmente não ta frio e nem um pouco vermelho.
- Eu te disse – ele me disse com um tom como se falasse com uma criança teimosa.
- O meu nariz ta vermelho? – arqueei minha sobrancelha.
- Só um pouco – ele passou as mãos nas minhas costas tentando me esquentar e eu me aproveitei para ficar mais próxima.
- E gelado?
Antes que ele pudesse fazer qualquer coisa, eu me aproximei mais. Passei meu nariz no seu em um processo demorado, como um beijo de esquimó. Percebi que sua respiração quente sobre minha bochecha ficar mais pesada e suas mãos hesitarem sobre meu corpo. Aproveitei esse pequeno momento, quando seus olhos pareciam perdidos entre meus olhos e minha boca, e o beijei. Minha mão esquerda circundava seu rosto enquanto meus lábios se encostavam aos seus. Meu coração batia descontroladamente e minhas mãos estavam suando frio. Eu nunca me senti tão quente como naquele inverno. Eu senti sua boca abrir lentamente sobre a minha e corresponder. Seus braços me apertaram levemente. Eu movi meus lábios sobre seu lábio inferior. Cada momento, cada pedaço do beijo, fazia meu corpo reagir de forma estranha. Um minuto depois eu senti sua língua na minha e me senti nervosa, sem saber o que fazer. Mas ele simplesmente fez com que tudo procedesse naturalmente. O beijo ficou cada vez mais intenso, mas lento ao mesmo tempo. Como se cada um quisesse captar e absolver tudo que acontecia. Eu o beijei por mais um minuto ou por mais meia hora, eu não sei, ate que o beijo se tornou em curtos beijos e depois selinhos. Ele olhou em meus olhos, me reprovando com o olhar, mas em sua boca ele tentava conter um sorriso. Eu fiquei um pouco desconcertada depois, sem saber o que fazer ou para onde olhar. Ele segurou meu queixo entre seus dedos e me fez olhar para ele.
- Nós não podemos fazer isso. Não agora – eu senti um soluço formar em minha garganta e tentei desviar o olhar, mas ele segurou meu queixo – Apenas dê... dê tempo ao tempo, minha pequena.
Eu sorri ligeiramente e deixei que ele me abraçasse. Com a cabeça perto do seu pescoço, ele beijou minha testa e me reconfortou. Eu me senti, pela primeira vez, no lugar certo. Entre seus braços, perto da sua boca e dentro do seu coração.
Eu tinha quinze anos quando eu o beijei pela primeira vez e nada parecia tão certo como aquele beijo.
Eu senti meu corpo ser levantado, mas não tinha forças para ajudar a levantar ou me afastar. Abri meus olhos com certa dificuldade e senti uma pontada na parte direita da minha cabeça. A imagem desfocada foi ganhando forma ate eu reconhecer a Celina a minha frente. Eu tentei sorrir para ela, mas a dor que se espalhava por meu corpo não permitiu. Celina sorriu de volta. Ela me levantou com certa dificuldade enquanto minhas pernas temiam em me obedecer. Desequilibrei-me e vi Celina me segurar pelos braços. Tudo rodou. A náusea foi voltando e meu corpo se reprimindo.
- Respira amiga – Celina disse calmamente olhando para mim.
Eu fiz o que ela me mandou, mas não adiantou muito.
- Vem. eu vou te levar pro banheiro.
Passou o braço pelos meus ombros e me guiou ate o banheiro. Eu pude ver que perto da mesa havia uma poça de vomito e me sentia mais enjoada ainda. Eu entrei no banheiro com ajuda da Celina e vi minha imagem refletida no espelho. Meu sutiã estava manchado, meu short todo amassado, meu cabelo estava todo embolado e tinha imensas marcas roxas envolta dos meus olhos. Eu sorri para imagem a minha frente. Essa nunca fui eu. Mas agora essa garota parecia muito mais com que eu vivia do que eu estava representando normalmente. Tentei segurar o choro, mas as lagrimas já escorriam. Estúpida. Inútil. Mentirosa. Manipuladora. Essa sou eu.
- Deixa eu te dar um banho.
Celina me tirou da frente do espelho e me levou ate o box, embaixo do chuveiro, ajudou-me a tirar minhas roupas e ligou o chuveiro. A água quente escorreu por meus cabelos e depois por minhas costas. Ela me ajudou a me ensaboar e a lavar meu cabelo. Depois de tudo ainda me fez escovar os dentes, me levou ate ao quarto, colocou meu pijama e penteou meu cabelo. Eu me senti cair sobre suas pernas cruzadas numa tentativa que ela me consolasse.
- Eu me sinto... – um soluço escapou de mim – tão... tão perdida, Céu.
Tudo saiu baixo, como se eu tivesse medo de que ela escutasse e não pudesse fazer nada. Ela passou as mãos em minha cabeça e me deixou chorando, sem dizer nada. Aos poucos o choro foi diminuindo e eu me senti melhor por um tempo.
- Você sabe por que eu to aqui?
Eu neguei, não tendo a mínima idéia do que a Celina se referia.
- Eu sonhei com você essa noite. Sonhei com você da mesma maneira que eu te vi deitada na sala – ela afagou minha cabeça – Claire, eu sei que parece bem clichê, mas eu sei como você se senti. Quando meu pai me abandonou, abandonou a mim e a minha mãe, eu me senti assim como você. Perdida. Eu me perguntava se tinha feito algo de errado ou se ele simplesmente não me amava. Eu me culpei, culpei minha mãe. Ele nunca ligou ou mandou uma carta. Eu tive que me virar durante esse tempo. Reconstruir. Graça a Deus eu tive meus amigos e a minha mãe pra me ajudar. – ela levantou minha cabeça e me fez olhar pra ela – Você pode se sentir perdida agora, mas acredite, sempre tem uma saída. Só lute por ela. Você sempre vai ter a mim, a Moira, a Bianca, o Jeremi, o Lucius, a Sura e eu ate acho que você tem o Sam, se precisar.
Eu sorri gratuitamente e me deitei de novo.
- Eu acho que o perdi, Céu.
- Perdeu quem, Claire?
- O Lucius...
Eu ouvi a Celina bufar e rir depois.
- Você acha que perdeu o Lucius? – ela perguntou incrédula.
- Eu tenho quase certeza.
- Eu não sei como você vê as coisas, amiga, mas eu posso te falar o que eu vejo. Eu nunca vi uma pessoa tão devota, tão entregue a você igual o Lucius.
Agora foi a minha vez de rir descrente – Certo!
- Eu sei que ele não costuma demonstrar isso, na verdade ele luta pra não demonstrar isso, mas às vezes, nas raras vezes que ele não consegue disfarçar, a gente pode ver como e quão intenso ele te ama. Por enquanto você não corre esse risco de perdê-lo, pelo menos não agora.
- Eu não acredito tanto nisso...
- Olha em volta Claire. Ele te deixou morar junto a ele, ele te salvou na piscina, dançou com você na noite da iniciação, ele quase enlouquece quando te vê junto com o Jeremi ou com o Victor...
- Sabe – eu a interrompi e me sentei a sua frente – Ele disse que me amava, de uma forma triste e sádica, mas disse. Então ele disse que me deixaria viver minha vida e que iria me esquecer.
- E quantas vezes ele não te disse isso, en Claire? Não com essas palavras, mas é quase a mesma coisa... – eu tentei não sorrir feito uma boba com essa pergunta – Ele sempre volta pra você, sempre.
Apertei as mãos da Celina e sorri para ela. Isso era tudo que eu precisava ouvir agora.
- Brigada, Céu. Agora eu me pergunto como você nunca me disse isso antes?
- Bem amiga, eu não costuma dizer o que é óbvio.
- Ah! Isso era muito óbvio, claro – eu ri da cara indignada que ela fez.
Nós rimos ate ouvir a porta da sala ser aberta. Por um instante eu vi tudo parar. Poderia ser ele. Era ele. Quem mais seria? Os passos foram aumentando e eu pude ouvir que estava próximo a minha porta. Meu coração acelerou só ao ver a maçaneta ser rodada. Não podia ser ele, não agora. Eu não estava preparada para isso.
- ‘Tão’ fazendo reuniãozinha sem mim?
Para minha sorte não era ele. Era a Moira. Por um momento ela me encarou sem disfarçar o espanto.
- Ta tudo bem com você Claire? – ela pareceu realmente preocupada.
Eu previ que minha cara inchada e o vomito que ela encontrou na sala deve ter dado alguma dica para ela.
- Defina bem? – eu tentei não soar tão desesperada como eu fiz com a Celina.
- Deixa eu adivinhar! – ela cruzou a distancia entre nós e sentou ao meu lado da cama – Lucius?
- Mais ou menos – eu tentei não colocar a culpa nele, já que a culpa, dessa vez, era totalmente minha.
- Dica amiga! Se ele ainda não percebeu como ta te fazendo sofrer com todo esse dramazinho ‘eu-não-gosto-de-você-fica-longe-de-mim’ é porque definitivamente ele não te merece, então dá um pé na bunda dele e manda ele se foder.
- E se dessa vez a culpa for minha...?
- Então inferniza a vida dele ate ele implorar pra te ter de volta. Simples assim.
- Sua filosofia de vida, Moira, me choca!
- Também me choca – Celina completou.
- Pelo menos pra mim esse filosofia de vida ta dando MUITO certo!
- E isso por quê? – Celina perguntou um pouco desconfiada.
- Deixa eu adivinhar! – eu imitei o ar presunçoso da Moira – Você obrigou o Irial a entrar no seu dormitório e o violentou sexualmente ate ele te implorar pra continuar?
- Defina obrigar? – foi à vez dela me imitar.
Eu fiz cara de chocada para ela e Celina pareceu querer morrer nessa hora.
- Me diz que você não fez o que eu to pensando, no MEU dormitório, enquanto eu tava dormindo – Celina disse.
- Disse a que fez sexo no jardim do Instituto – Celina corou e fez careta – Mas não... – Moira sorriu maliciosamente – Ainda!
- Ate eu to curiosa. Conta tudo. Agora! – eu disse animada, pela primeira vez no dia.
- Eu sei que vou parecer uma adolescente apaixonadinha, mas o Irial. Meu Deus. O Irial é lindo, perfeito e fodasticamente gostoso.
- Definitivamente você não pareceu uma adolescente apaixonadinha! – eu fui irônica.
- Tanto faz – Moira deu de ombros – Continuando... Depois daquela briga, que eu não entendi nada, entre o Victor e o Jeremi, eu pedi gentilmente que o Irial me levasse pro dormitório, já que a Celina aqui – Moira olhou pra Celina – tinha sumido junto com o namorado dela e o Jeremi.
- Gentilmente? – Celina arqueou a sobrancelha – Você deve ter agarrado o Irial pela gola da camisa dele e ter arrastado ele pro quarto – Celina continuou e imitou o Irial, me fazendo rir ainda mais – “Por favor, Moira, eu não posso, ta tarde, se alguém ver a gente aqui...”.
- Cala Boca! – Moira interrompeu parecendo um pouco incomodada.
- Foi exatamente isso que você disse pra ele e o levou gentilmente pro nosso dormitório.
Eu ria descontroladamente vendo a cara da Moira. Ela não tinha gostado tanto da brincadeira.
- Vocês vão me deixar terminar de contar ou não?
Eu confirmei tentando segurar a risada. Celina fez o mesmo.
- Então... O Irial, como eu ia dizendo, me levou ate o dormitório gentilmente. Pra falar a verdade eu tava tão bêbada que eu fui meio que pendurada no braço dele, mas isso é apenas um detalhe. Eu nem sei se era porque eu tava muito bêbada ou porque eu tava tímida – Moira falou como se não acreditasse no que tinha acabado de fala. Eu tive que me conter pra não rir, olhando pra expressão da Celina ela também estava com vontade de rir. – mas eu não consegui dizer muita coisa ate chegar à porta do quarto.
Moira suspirou e continuou.
- Quando eu cheguei à porta do quarto, eu disse... Bem, eu disse que, mesmo com a briga, eu tinha gostado da noite e principalmente das declarações veladas. Então ele me disse que também tinha gostado – Moira parecia mais animada do que o normal – Agora presta atenção que vou contar detalhadamente o que aconteceu!
Eu e Celina rimos.
- Ele foi na minha direção lentamente, como se tivesse medo que eu falasse não ou sei lá, e foi me pressionando contra a parede. E pela primeira vez na minha vida eu fiquei sem ação. Não consegui falar nada, fazer nada... Eu só sei que ele encostou seu corpo com o meu, me pressionou contra parede e me beijou. E não foi só um beijou. Foi O beijo. Eu senti como se ele pudesse se fundir a mim, suas mãos, tudo, tinha uma sincronia. Perfeito... Só perfeito.
Eu fiquei encarando a Moira enquanto ela parecia ainda estar em transe. Ela realmente gostava do Irial, eu diria ate que amava. Foi a Celina que cortou o silêncio.
- Depois dessa declaração, eu preciso de um momento de silêncio... – eu e Moira encaramos a Celina sem entender – A minha amiga mais devassa de todas ta apaixonada. Isso precisa de um momento de silêncio.
- Cala boca Celina! – Moira disse e bateu na cabeça da Celina.
Eu ria tanto quanto a Céu.
- Realmente se ate a Moira conseguiu o homem que ela queria, eu posso desistir – eu disse fingindo estar séria.
- Como vocês são engraçadas! – Moira cruzou os braços – Mas ainda tem um pequeno problema...
- E seria qual? – eu perguntei.
- Ele me disse pra manter segredo por enquanto, não dizer a ninguém.
- Mas ele tem razão, Moira – Celina disse – Não é como se fosse normal um instrutor se envolver com um principado no Instituto. Por mais que o Instituto diga que não vai se intrometer na nossa vida e deixar a gente fazer a nossas escolhas, existem responsabilidades e regras. E se envolver com um instrutor vai contra todas as regras estabelecidas, principalmente contra o nosso destino de guardar as dominações.
- Destino? Onde você vai com toda essa alegria amiga? Se tem uma coisa que não tem espaço na minha vida é o destino. A única coisa que pode definir minha vida sou eu mesma e minhas escolhas. Nada e nem destino nenhum vai me impedir de ter o que eu quero.
- Eu tenho que concordar com as duas. – Moira me olhou em duvida – Nada vai te impedir de ter o que você quer, mas não precisa ser exatamente agora. Como já me disseram: apenas dê tempo ao tempo. O Irial vai ser seu, amiga.
- Eu sei, Claire – Moira me olhou confiante – Assim como nada vai tirar o Lucius de você.
- Eu espero.
- Como eu senti orgulho de vocês agora – Celina disse rindo – Sério! Pela primeira vez vocês se pareceram centradas, corretas, assim como eu.
- Quer dizer chatas e entediantes, ne Celina? – Moira disse.
Então nós rimos, assim como nós fizemos a tarde inteira. Era só isso que eu precisava. Minhas amigas.
- Qual é Claire? A gente ate limpou o lindo vômito que tinha na sala, não dá pra fazer um esforço e levar eu e a Celina ate o nosso dormitório?
Eu fechei os olhos em exaspero. A última coisa que eu queria fazer era sair e dar de cara com Lucius. As coisas estavam indo bem ate agora. Como eu previ Lucius não voltou ao dormitório a tarde toda tentando me evitar e seria assim durante um longo tempo.
- Vem logo, Claire! Levanta e troca de roupa.
- A não! – eu me recostei no sofá da sala – Eu já to com pijama, já é noite e eu quero dormir, Moira...
- Claire não adianta reclamar. A Moira vai te fazer ir de qualquer jeito.
Eu olhei para Celina e bufei. Não dava pra ela me dar uma força?
- Ta! Eu vou trocar de roupa.
Levantei-me e fui para meu quarto enquanto Moira sorria vitoriosa e Celina rolava os olhos. Vesti o primeiro vestido que encontrei, coloquei minha sandália havaiana roxa e voltei ate a sala.
- Vamos? – eu disse sem ao menos olhar para as meninas e indo abrir a porta.
- Também não precisa ficar tão mal humorada, Claire. O dormitório é bem ali.
- Claro! Bem depois do jardim, lá do outro lado, descendo as escadas... – eu disse emburrada.
Olhei para trás e vi as meninas indo em minha direção, fechei a porta e andei ao lado delas.
- Você pretende continuar com o Irial, como casal eu quero dizer? – olhei para Moira.
- Eu não sei. – ela pareceu frustrada – Tudo que eu mais quero é ele pra mim. Mesmo que eu tenha que quebrar regras ou fingir para os outros que a gente não esta junto.
Eu balancei a cabeça em concordância enquanto continuamos a andar. Celina se pronunciou depois de um momento de silêncio.
- Eu olho para vocês e me pergunto como vai ser para mim. – eu a olhei sem entender – Teve uma parte da minha vida que não tinha nada que eu queria mais do que ser um principado, então eu encontrei o Sam e os meus objetivos meio que mudaram. Eu não sei como vai ser quando tudo isso terminar, os treinos, as aulas e começar a vida real... Vai ser difícil me separar dele.
Eu nunca pensei que a Celina cogitasse a idéia de se separar do Sam, na verdade eu nunca pensei como seria meu futuro fora do Instituto.
- Vocês nunca pensaram em abandonar o Instituto? Sei lá, ter outra vida?
- Não – a Moira foi a primeira a responder – Eu gosto do Irial, eu acho que poderia ate amá-lo, mas abandonar o Instituto? Nunca. Não tem nada que eu faça melhor e é o que eu amo fazer.
- Eu costumava pensar igual a você, Moira, mas as coisas estão tomando outra proporção agora. Eu começo a pensar na minha mãe, eu só não consigo imaginar em deixá-la sozinha enquanto eu possa morrer a qualquer hora e muito menos minha vida sem o Sam. Mas eu também não consigo ver outra coisa que eu possa fazer. Eu vivo isso, eu respiro isso, sabe? E também tem o Sam, ele nunca deixaria o Instituto ou decepcionaria o Conselho por mim. Nunca – Celina disse as últimas palavras como se isso fosse a pior parte de todas.
- Sério? – Moira perguntou.
- É. Mas não se preocupe Moira, eu nunca deixaria de ser sua parceira por causa disso, são só pensamentos...
- Eu penso totalmente diferente de vocês. Eu nunca me imaginei fazendo isso. Matar demônios ou proteger anjos. Meu único sonho era ter minha irmã de volta ou encontrar uma família ou, por mais estúpido que isso pareça, ficar com o Lucius. Agora eu não tenho a mínima idéia do que fazer, mas ser um principado me parece a melhor alternativa. – eu esbocei um sorriso para elas.
Passamos à porta que dava para o jardim e eu pude notar que havia alguém sentado em um dos bancos. As meninas ficaram em silêncio quando também notaram que havia alguém ali. Pelo horário não deveria ter ninguém, amanha teríamos treino, como sempre, e todos tinham que estar dormindo. O que não aplicava muito a nós que ainda estávamos acordadas, então não seria tão difícil alguém fazer o mesmo.
- Sou eu – o estranho gritou vendo que estávamos paradas perto da porta.
- Jeremi? – eu gritei de volta.
- É – ele respondeu.
Eu me virei para meninas, as impedindo de ir ate lá.
- Eu preciso conversar com o Jeremi. Sozinha. Tudo bem?
Celina e Moira se entre olharam, mas não disseram nada.
- Tudo bem Claire – Moira se adiantou – Mas só dessa vez.
Ela piscou e se despediu. Celina fez o mesmo e minutos depois eu me encontrava sozinha com o Jeremi no jardim externo.
- Onde elas foram? – Jeremi me perguntou logo depois que eu sentei ao seu lado.
- Eu disse que queria conversar com você.
- Ah – ele assentiu rapidamente e não disse mais nada.
- Então... – eu puxei assunto – O que você ta fazendo aqui, sozinho, no meio da noite?
- Apenas pensando.
Jeremi não disse nada por um tempo. Eu me encolhi a seu lado e cruzei minhas pernas sobre o banco de madeira. Olhei para Jeremi e vi que ele olhava o céu. A lua estava imensa e clareava toda a dimensão do seu rosto. Agora, o olhando, ele parecia diferente. O rosto sério e fechado o deixava mais velho, seu cabelo estava molhado e penteado para trás, sua boca parecia um pouco ressecada e seus olhos mais triste. Ele sabia por que eu estava ali e parecia não gostar muito disso.
- O que aconteceu ontem?
- Eu acho que não preciso descrever a cena pra você Claire. Você tava lá, você sabe o que aconteceu.
Ouch! Ele deveria estar mesmo chateado. Ele nunca tinha me tratado assim antes, mas eu não desistiria fácil.
- Você sabe ao que eu me refiro Jeremi... – eu virei seu rosto em minha direção com a minha mão – Do que o Victor tava falando?
Ele me olhou como se eu não tivesse perguntado nada. Ficou em silêncio e não me respondeu.
- Não me faça perguntar ao Victor... – ele franziu a testa em reprovação – Então, por favor, me fala o que aconteceu ontem? Do que o Victor tava falando?
- Minha família... Ele tava falando da minha família, Claire – ele ainda tinha um olhar triste e perdido quando falou isso.
- Sua família?
- Foi há muito tempo atrás – ele virou o rosto e fitou o céu novamente – Um grupo de rastreadores me encontrou quando eu era mais novo e quase matou toda a minha família por minha causa. Foi Victor que a salvou na época.
- Rastreadores?
- Faz parte da corte negra. Demônios designados a encontrar principados e aniquilá-los. E eles me encontraram.
- E o que o Victor tem a ver com isso?
- Victor faz muita coisa em nome do Conselho, Claire. Varias coisas. Na época ele caçava os rastreadores. Graças a ele minha família não foi massacrada... – eu vi seu maxilar travar com as próximas palavras – Desde então ele faz questão de jogar isso na minha cara. Como eu fui incapaz de fazer alguma coisa.
- Mas você era a apenas uma criança, Jeremi – eu peguei sua mão e o vi olhar para mim – Não é sua culpa. Não se culpe por isso.
- Eu era apenas uma criança, certo? – ele sorriu sádico.
Eu confirmei e apertei mais sua mão. Eu vi uma lágrima escorrer sobre seu rosto. Antes que ela pudesse chegar a seu queixo, eu limpei com a palma da minha mão. Jeremi a segurou, com a sua mão, e se reconfortou ali. Eu pude sentir a intensidade do seu olhar, a forma como ele me olhava, o desespero por mais. Eu poderia amá-lo, seria mais fácil, tão fácil.
- Você parece ser a única pessoa que me faz esquecer tudo que eu já vivi, mesmo que seja por pouco tempo – eu senti a sua sinceridade refletir em mim.
- Ainda bem que eu tenho as meninas e... e você agora. Parece fazer as coisas ficarem mais fáceis – eu disse.
Ele sorriu e concordou comigo. Sua mão foi da minha ate meu rosto, parou sobre minha bochecha e a acariciou com seus dedos. Baixei minha mão do seu rosto e curti um pouco o seu carinho, ainda com os olhos nele.
- Sabe? Agora eu seu o porquê do Sam e da Celina fazerem isso aqui... – ele sorriu mais mostrando seus dentes brancos.
- Fazer o quê... – eu me calei me lembrando do que a Celina tinha falado ontem na brincadeira. – Imbecil! - Eu tirei sua mão do meu rosto e ri – Só você pra pensar, pior, pra falar uma coisa dessas!
- Me diz que você não pensou nisso? – ele inclinou a cabeça para o lado e riu.
Vi as covinhas no seu rosto e fiquei o olhando por um tempo. Tão lindo.
- Eu sabia! – ele me sorriu vitorioso e eu bati em seu braço.
- Não! Eu não pensei, seu pervertido – me levantei e olhei de novo – Depois dessa eu acho que a única coisa que eu tenho a fazer é ir pro meu dormitório...
Eu tentei ir, mas ele segurou meu pulso.
- Você quer que eu vá com você? – ele sorriu de lado.
- Não Jeremi! – eu tentei não rir, mas não consegui.
Ele se levantou e continuou a segurar meu pulso, o acariciando com o dedo.
- Eu ainda não terminei – ele disse mais sério.
Seu corpo foi se aproximando e por um momento eu não consegui me mover. Seus olhos pareciam querer me engolir. Intenso como eu nunca o vi antes, sério, compenetrado. Sua mão ainda estava no meu pulso. Eu engoli em seco. Ele parou a poucos centímetros de mim.
- Fique longe do Victor, Claire. Ele é ta usando você.
- Eu vou tentar - eu forcei um sorriso - Boa noite, Jeremi.
- Boa noite - ele se aproximou lentamente, movendo sua boca próxima a minha.
No último momento eu virei meu rosto. Eu não podia enganá-lo. Eu não podia me enganar. Ele riu da minha esquiva e beijou minha bochecha. Desvencilhei-me dele e no próximo instante eu já estava praticamente correndo para o meu dormitório, fugindo dele e da realidade que me cercava.
******
- O que você ta fazendo?! – eu disse entre dentes.
- Devolvendo suas roupas, Claire.
- Na frente de todo mundo, Victor!
Todos nos olhavam enquanto ele me dava peça por peça.
- Não fui eu que esqueci essas roupas no meu dormitório... – ele disse enquanto um sorriso maldoso se formava em seu rosto.
- Fala.mais.baixo! – eu peguei minha blusa bege das suas mãos – Da última vez que eu me lembro minhas roupas estavam numa mala!
- E perder seção ‘humilha-Claire’? Nunca! – ele me rodeou com uma velocidade sobre-humana quando tentei pegar a pilha de roupas da sua mão.
Depois de uma noite mal dormida, a única coisa que eu poderia fazer era continuar com a minha vida no Instituto. Agora estava eu, no começo de um treino, tentando pegar minhas roupas que eu tinha esquecido no quarto do Victor no sábado.
Me virei para encontrar ele segurando uma peça muito intima nas mãos e um sorriso maior ainda no seu rosto.
- Minha calcinha?! – eu tentei falar baixo para não chamar a atenção de ninguém, mas sinceramente não adiantou muito. Tudo mundo já olhava a cena.
Eu avancei para ele e tentei pegá-la de sua mão. Ele a levantou ate seu um e noventa e cinco metros de altura me impedindo de pegá-la.
- Se você ta tão obcecado com a minha calcinha, fica com ela... – eu peguei rapidamente a pilha da sua outra mão e sorri – porque é só isso que você vai conseguir de mim!
- Sério? Eu pensei que o que aconteceu sábado no meu quarto vale muito mais que uma calcinha...
Eu sabia a que ele se referia, sobre o beijo, mas do jeito que ele falou e o sorriso presunçoso que veio depois, deu a entender que era muito mais que isso. Ótimo! Agora a turma toda pensava que eu tinha transado com Victor Lefroy, o vampiro. E o pior era que eu não podia desmentir depois de tudo que eu falei para o Lucius. Bufei e revirei os olhos. Esse filho da puta!
- Onde você ta indo? – ele perguntou quando me viu dando as costas.
- Guardar minhas roupas.
- Se eu fosse você não iria por ai, amor...
- Eu não perguntei sua opinião.
Eu pude ver por escanteio que Jeremi assistia a tudo. Seus olhos estavam em mim, frios e letais, bem diferente de quando o encontrei no jardim. Ele nem tinha falado comigo hoje. Tanto faz. Eu já tinha feito minhas escolhas. Eu me aproximei da porta dupla e quando eu fui abrir, ela se abriu sozinha. Eu encarei aqueles olhos azuis inconfundíveis. Ele me olhou da mesma forma que tinha me olhado no primeiro treino, frio e distante. Eu lembrei da humilhação que passei por aquele dia e como ele me tratou. Ele parecia disposto a repetir tudo de novo e dessa vez parecia que ia ser pior, bem pior.
- Onde você pensa que você vai, senhorita Bauer? – ele disse em um tom baixo e grosso.
- Eu... An, eu vou guardar minhas roupas no dormitório, eu tinha esquecido na...
- Eu vou começar o treino agora, senhorita Bauer. - Ele me interrompeu - Se você sair, eu espero que não volte para aula.
Ele desviou e saiu da minha frente, me deixou ali, olhando atônita a porta dupla se fechar a minha frente. Ele me tratou com indiferença, não com raiva ou fúria, apenas como um aluno qualquer. Eu engoli em seco tentando desvencilhar as lagrimas. Se eu quisesse que ele acreditasse em toda a minha mentira, eu teria que fingir bem. Eu não sabia se conseguiria.
- Porque você ta chorando, pequena?
- Por nada! – eu virei meu rosto e me escondi, tampando meu rosto com as mãos. Eu não queria que ele me visse chorar.
- Claire olha pra mim – ele tentou tirar as mãos do meu rosto, mas não consegui – Claire, me diz, o que aconteceu?
Ele disse com a maior paciência do mundo, o que me fez chorar ainda mais – Nada, Lucius, eu já disse que foi nada.
- Você sabe que eu sempre vou saber quando você esta mentindo, não sabe Claire?
Eu balancei a cabeça ainda com as minhas mãos no rosto. Ele me puxou para o seu colo.
- Me diz, pequena, qual é o problema?
Eu funguei, tentando não chorar, e enfiei meu rosto em seu pescoço.
- Você acha que eu sou louca, Lucius? – o som saiu abafado, mas ele conseguiu escutar.
- Temo que sim, Claire. Você esta completamente maluca. Mas eu vou te contar um segredo. As melhores pessoas são malucas.
Eu tirei meu rosto do seu pescoço e o encarei.
- Eu não sou maluca! – eu disse, sem saber na época que ele tinha feito uma referência ao livro ‘Alice’.
Limpei meu nariz que escorria com a manga do meu pijama e fiz bico.
- Eu sei, pequena... – ele sorriu e passou a mão nos meus cabelos – Você sabe que quando uma pessoa é maluca ela nunca sai por ai perguntando se é, não sabe?
- Mas eu disse pra Melissa que eu te via e ela riu de mim e disse que eu te via porque eu era louca – eu cruzei os braços e bufei.
- Eu já te disse que você é diferente, Claire. Você consegue ver muito mais que as outras pessoas, o real mundo a sua volta, mas isso é nosso segredo, lembra?
Eu assenti ainda com os braços cruzados.
- Agora ta na hora de você dormir! – ele se levantou ainda comigo em seu colo.
- Você dorme comigo? – eu perguntei com a voz fanha.
- Durmo, se você prometer não esconder mais nada de mim, promete?
- Prometo – eu disse sorrindo, me esquecendo totalmente porque eu estava chorando.
Ele me levou ate a cama e em seguida deitou ao meu lado.
- O que eu não faço por você, minha menina dos olhos estranhos.
Fui ate o vestiário deixar minhas roupas. Quando voltei a aula estava preste a começar, os alunos já se posicionavam para começar o aquecimento. Victor estava me esperando.
- Comecem a correr! – a voz de Lucius soou por toda quadra.
Victor me acompanhou. Ele ainda era minha dupla.
- Depois disso eu posso dizer que deu tudo certo sábado? – a voz de Victor me tirou dos meus pensamentos.
- Eu acho que sim.
- Então isso significa que hoje à noite...? – Victor me olhou de soslaio.
- Sim, Victor.
Eu tinha trancado a porta do meu quarto como prevenção. Eu sabia que isso não adiantaria muito se ele resolvesse ver como eu estava, mas isso, de certa maneira, me dava segurança. Felizmente todo mundo acreditou quando eu disse que estava com dor de cabeça e que ia comer no meu dormitório mesmo. Depois de tomar banho e esperar o horário de recolher, eu saí. Não vi Lucius em nenhuma hora depois do meu treino. Eu sabia que ele me evitaria o máximo que podia depois da minha declaração. Corri o máximo que eu pude e me esquivei todas as horas que aparecia alguém. Cheguei ao dormitório de Victor e como previsto ele já estava me esperando. Ele nos guiou para fora do Instituto e em questão de minutos já estávamos em cima da sua moto correndo em direção a cidade mais próxima. Desta vez, quando estávamos na floresta, ninguém nós atacou e conseguimos chegar à cachoeira. Ela ficava mais longe do que eu imaginava, mas quando chegamos lá, todo o meu esforço, valeu a pena.
- É lindo!
Eu me perdi olhando toda a imensidão a minha frente. A água caía continuamente e a luz da lua clareava parcialmente a clareira onde ficava a cachoeira. Uma vontade imensa de entrar na água me invadiu. Eu me senti mais tranqüila olhando a paisagem.
- Não temos tempo pra isso, Claire – Victor apareceu a minha frente e chamou minha atenção para ele – Preparada?
- Sim, preparada.
- Feche os olhos.
Por um momento eu hesitei, mas obedeci ao que ele falou.
- Limpe sua mente, escute apenas o som da água, se concentre – eu fiz o que ele pediu – você pode ouvir o barulho do ar nas arvores... o som da água batendo nas pedras?
Eu assenti sem dizer nada, tentando me concentrar mais.
- Agora eu preciso que você se concentre no som da minha voz. Você consegui fazer isso? – nesse instante sua voz soou mais distante de mim.
Eu assenti novamente.
- Então onde eu estou? – sua voz estava distante, mas agora veio de outra direção – Onde eu estou, Claire?!
Ele gritou e eu pressenti que ele tinha mudado de posição novamente.
- Onde? ONDE?
- Eu... eu não sei!
- Resposta errada – a voz soou perto do meu pescoço e no próximo instante eu senti uma coisa acertar meu rosto fortemente.
- Qual é o seu problema, filho de uma...? – eu me afastei de Victor vendo que ele tinha acabado de me acertar um soco.
- Quem te disse que você poderia abrir os olhos? - o olhei com o cenho franzido – Nós não temos tempo pra isso. Se você acha que o Lucius vai demorar pra descobrir sobre isso, você esta enganada. Agora feche os olhos!
Ainda com raiva eu fechei os olhos. Ele estava certo, ele tinha mais experiência e esperava profundamente que ele soubesse o que estava fazendo.
- Então apenas me diga por que de tudo isso? – eu perguntei de olhos fechados.
- Os blinds têm a capacidade de prever o movimento do seu oponente, é só uma questão de concentração – sua voz apareceu distante indicando que ele começou a se mover – Com o tempo você vai perceber que pode prever onde eu vou estar, vai saber quais serão meus movimentos antes mesmo que eu os faça, vai visualizar cada passo meu sem ao menos eu ter dito nada, mas antes disso eu preciso treinar você – sua voz soou a minha direita, bem longe – Agora, onde eu estou?
Eu tentei me concentrar, ver onde ele poderia estar, visualizar, mas nada veio minha mente.
- Onde eu estou, Claire? – a voz veio de mais perto, mas não muito perto.
- A minha esquerda, atrás de mim.
- E agora? – a voz foi quase inaudível, não me dando a menor dica de onde ele estava - aonde?
Continuei em silêncio, tentando me concentrar na sua voz, mas ainda sim não consegui descobrir.
- Um – ele falou ainda longe – dois... – e sim ele estava contando – três – sua voz estava distante, mas veio de outra direção – quatro – ele estava próximo – cinco – mais próximo – Seis!
Eu pude sentir seu corpo próximo ao meu, mas não tive tempo de reagir. Sua mão acertou meu queixo, o que o fez estralar, eu me desequilibrei e fui para trás.
- Merda! Merda! Merda! – eu coloquei as mãos no meu queixo e o toquei levemente – Desse jeito eu vou voltar pro Instituto cheia de hematoma!
- Eu não ligo Claire – ele sumiu da minha frente recomeçando o treinamento – Alem do mais você tem a marca parcial do trisquel, você se recupera mais rápido que os outros, ate o amanhecer essas marcas já desapareceram – ele se mexeu de novo, mas eu não tinha a mínima idéia de onde ele estava.
- Ok. Eu não ligo se você me espancar, desde que você me ensine a lutar.
Eu fechei os olhos sem saber que eu não estava tão longe da realidade do que eu tinha dito.
Foi praticamente uma semana de treino e nenhuma progressão em relação a isso. Eu poderia dizer onde ele estava quando eram lugares mais pertos, mas nunca quando ele se distanciava de mais. Pior ainda quando ele se aproximava de mim, eu só sabia que ele estava perto segundos antes, aí já era tarde. Felizmente Victor estava certo, então as marcas que ele me deixou saíram antes do amanhecer. As aulas duravam só duas horas, mas era o suficiente para me deixaram cansadas. Eu passava maior parte das aulas matinais dormindo e outra boa parte treinando, mas por mais estranho que pareça quando a noite chegava, eu ficava mais ansiosa pela aula e por aprender logo. Victor dizia que era por causa de toda essa animação que eu não conseguia me concentrar, logo, hoje, ele decidiu me liberar da aula.
- Você podia ter me avisado antes de eu ter vindo aqui, não podia?
Eu estava no dormitório de Victor, depois da meia noite, na expectativa que ele me levasse pra treinar.
- Eu só decidi isso agora, Claire. E por favor, pára de fazer drama e vai pro seu dormitório, eu ando meio cansado depois de todos esses treinos.
Ele parecia tão frustrado quanto eu em relação aos treinos. Depois de uma semana eu não o culpava de estar entediado também.
- Semana que vem nos recomeçamos o treino, ta bom? – ele ainda estava sentando em sua cadeira com o olhar arrogante.
- Tudo bem, Victor – eu saí do seu dormitório em passos duros e não me importei de sair sem me esconder.
Esse filho da puta arrogante me paga. Eu andei no corredor escuro ainda com raiva pelo que Victor tinha dito. Eu não via a hora de começar a lidar com a minha força, já ele não parecia tão entusiasmado. Um barulho a minha frente me fez parar. Logo depois da escada, mais a baixo, na parte do dormitório feminino havia alguém. Na verdade havia duas pessoas. Pela pouca luz que tinha eu mal pude ver quem era. Me esgueirei perto da parede e me aproximei, sem que eles percebessem. Eles tinham os corpos colados, um pressionado no outro, a perna da garota estava na cintura dele e as mãos do rapaz corriam livremente sobre o corpo dela, sem pudor. Eles se beijavam, um beijo profundo, que os faziam não prestar atenção em mais nada a seu redor, nem em mim. Forcei mais meus olhos tentando focar a cena a minha frente. A pele dela era morena e usava uma calça jeans bem justa junto com uma blusa branca, seu cabelo negro era comprido e estava sem sapato. Ele era bem mais alto que ela, usava calça preta e uma regata preta, seu cabelo era raspado bem curto e ... Deus! O ar fugiu dos meus pulmões, meu coração começou a bater dolorosamente no peito, eu tentei não soluçar ou gritar com o que eu via. Era ele. Era o Lucius e a Luiza.
Eu puxei as cobertas sobre meu corpo, me encolhendo mais. Estava mais frio essa noite. Lucius estava em frente da janela, com os braços cruzados, observando a neve se dissipar pela rua. Eu tremi involuntariamente trazendo a atenção de Lucius para mim.
- Ainda com frio? – ele perguntou sério.
Eu apenas balancei a cabeça, confirmando, já que meus dentes batiam sem me deixar responder. Ele andou ate a cama ainda com os braços cruzados e se sentou na beirada da cama. Tirou um sapato de cada vez e se levantou novamente. Ele tirou as cobertas rapidamente e se deitou ao meu lado. Uma brisa leve vindo do piso amadeirado me fez tremer novamente. Ele passou os braços em volta do meu corpo e me puxou mais para ele. Eu juntei meus braços e deixei que seu corpo me aquecesse. Eu fechei meus olhos sem perceber e ri. O contato do seu corpo ao meu me fazia sentir estranha. Esfreguei meus pés aos seus. Eu não precisava abrir os olhos pra saber que ele ria do meu ato. Eu poderia ficar ali, assim, sem me mexer, que viveria feliz. Abri meus olhos lentamente e senti seus braços afrouxarem um pouco. Eu encarei aquela imensidão azul, seus olhos, e percebi como ele estava próximo. Minha mão deslizou sobre sua camisa azul de algodão e parou na sua nuca. Eu o senti hesitar com meu ato e se distanciar um pouco.
- Minha mão ta fria... – eu simplesmente disse, tentando mascarar minha ação.
Ele concordou com a cabeça, com os olhos cerrados, desconfiando.
- Você nunca sente frio? – ele apenas negou, parecendo tão extasiado como eu – Nunca?
Fingi não acreditar. Aconcheguei-me melhor no meu travesseiro, colocando meus olhos na mesma altura dos seus. Movi minha mão ate seu nariz e apertei. Ele me deu um meio sorriso e eu sorri de volta.
- É. Realmente não ta frio e nem um pouco vermelho.
- Eu te disse – ele me disse com um tom como se falasse com uma criança teimosa.
- O meu nariz ta vermelho? – arqueei minha sobrancelha.
- Só um pouco – ele passou as mãos nas minhas costas tentando me esquentar e eu me aproveitei para ficar mais próxima.
- E gelado?
Antes que ele pudesse fazer qualquer coisa, eu me aproximei mais. Passei meu nariz no seu em um processo demorado, como um beijo de esquimó. Percebi que sua respiração quente sobre minha bochecha ficar mais pesada e suas mãos hesitarem sobre meu corpo. Aproveitei esse pequeno momento, quando seus olhos pareciam perdidos entre meus olhos e minha boca, e o beijei. Minha mão esquerda circundava seu rosto enquanto meus lábios se encostavam aos seus. Meu coração batia descontroladamente e minhas mãos estavam suando frio. Eu nunca me senti tão quente como naquele inverno. Eu senti sua boca abrir lentamente sobre a minha e corresponder. Seus braços me apertaram levemente. Eu movi meus lábios sobre seu lábio inferior. Cada momento, cada pedaço do beijo, fazia meu corpo reagir de forma estranha. Um minuto depois eu senti sua língua na minha e me senti nervosa, sem saber o que fazer. Mas ele simplesmente fez com que tudo procedesse naturalmente. O beijo ficou cada vez mais intenso, mas lento ao mesmo tempo. Como se cada um quisesse captar e absolver tudo que acontecia. Eu o beijei por mais um minuto ou por mais meia hora, eu não sei, ate que o beijo se tornou em curtos beijos e depois selinhos. Ele olhou em meus olhos, me reprovando com o olhar, mas em sua boca ele tentava conter um sorriso. Eu fiquei um pouco desconcertada depois, sem saber o que fazer ou para onde olhar. Ele segurou meu queixo entre seus dedos e me fez olhar para ele.
- Nós não podemos fazer isso. Não agora – eu senti um soluço formar em minha garganta e tentei desviar o olhar, mas ele segurou meu queixo – Apenas dê... dê tempo ao tempo, minha pequena.
Eu sorri ligeiramente e deixei que ele me abraçasse. Com a cabeça perto do seu pescoço, ele beijou minha testa e me reconfortou. Eu me senti, pela primeira vez, no lugar certo. Entre seus braços, perto da sua boca e dentro do seu coração.
Eu tinha quinze anos quando eu o beijei pela primeira vez e nada parecia tão certo como aquele beijo.
Eu senti meu corpo ser levantado, mas não tinha forças para ajudar a levantar ou me afastar. Abri meus olhos com certa dificuldade e senti uma pontada na parte direita da minha cabeça. A imagem desfocada foi ganhando forma ate eu reconhecer a Celina a minha frente. Eu tentei sorrir para ela, mas a dor que se espalhava por meu corpo não permitiu. Celina sorriu de volta. Ela me levantou com certa dificuldade enquanto minhas pernas temiam em me obedecer. Desequilibrei-me e vi Celina me segurar pelos braços. Tudo rodou. A náusea foi voltando e meu corpo se reprimindo.
- Respira amiga – Celina disse calmamente olhando para mim.
Eu fiz o que ela me mandou, mas não adiantou muito.
- Vem. eu vou te levar pro banheiro.
Passou o braço pelos meus ombros e me guiou ate o banheiro. Eu pude ver que perto da mesa havia uma poça de vomito e me sentia mais enjoada ainda. Eu entrei no banheiro com ajuda da Celina e vi minha imagem refletida no espelho. Meu sutiã estava manchado, meu short todo amassado, meu cabelo estava todo embolado e tinha imensas marcas roxas envolta dos meus olhos. Eu sorri para imagem a minha frente. Essa nunca fui eu. Mas agora essa garota parecia muito mais com que eu vivia do que eu estava representando normalmente. Tentei segurar o choro, mas as lagrimas já escorriam. Estúpida. Inútil. Mentirosa. Manipuladora. Essa sou eu.
- Deixa eu te dar um banho.
Celina me tirou da frente do espelho e me levou ate o box, embaixo do chuveiro, ajudou-me a tirar minhas roupas e ligou o chuveiro. A água quente escorreu por meus cabelos e depois por minhas costas. Ela me ajudou a me ensaboar e a lavar meu cabelo. Depois de tudo ainda me fez escovar os dentes, me levou ate ao quarto, colocou meu pijama e penteou meu cabelo. Eu me senti cair sobre suas pernas cruzadas numa tentativa que ela me consolasse.
- Eu me sinto... – um soluço escapou de mim – tão... tão perdida, Céu.
Tudo saiu baixo, como se eu tivesse medo de que ela escutasse e não pudesse fazer nada. Ela passou as mãos em minha cabeça e me deixou chorando, sem dizer nada. Aos poucos o choro foi diminuindo e eu me senti melhor por um tempo.
- Você sabe por que eu to aqui?
Eu neguei, não tendo a mínima idéia do que a Celina se referia.
- Eu sonhei com você essa noite. Sonhei com você da mesma maneira que eu te vi deitada na sala – ela afagou minha cabeça – Claire, eu sei que parece bem clichê, mas eu sei como você se senti. Quando meu pai me abandonou, abandonou a mim e a minha mãe, eu me senti assim como você. Perdida. Eu me perguntava se tinha feito algo de errado ou se ele simplesmente não me amava. Eu me culpei, culpei minha mãe. Ele nunca ligou ou mandou uma carta. Eu tive que me virar durante esse tempo. Reconstruir. Graça a Deus eu tive meus amigos e a minha mãe pra me ajudar. – ela levantou minha cabeça e me fez olhar pra ela – Você pode se sentir perdida agora, mas acredite, sempre tem uma saída. Só lute por ela. Você sempre vai ter a mim, a Moira, a Bianca, o Jeremi, o Lucius, a Sura e eu ate acho que você tem o Sam, se precisar.
Eu sorri gratuitamente e me deitei de novo.
- Eu acho que o perdi, Céu.
- Perdeu quem, Claire?
- O Lucius...
Eu ouvi a Celina bufar e rir depois.
- Você acha que perdeu o Lucius? – ela perguntou incrédula.
- Eu tenho quase certeza.
- Eu não sei como você vê as coisas, amiga, mas eu posso te falar o que eu vejo. Eu nunca vi uma pessoa tão devota, tão entregue a você igual o Lucius.
Agora foi a minha vez de rir descrente – Certo!
- Eu sei que ele não costuma demonstrar isso, na verdade ele luta pra não demonstrar isso, mas às vezes, nas raras vezes que ele não consegue disfarçar, a gente pode ver como e quão intenso ele te ama. Por enquanto você não corre esse risco de perdê-lo, pelo menos não agora.
- Eu não acredito tanto nisso...
- Olha em volta Claire. Ele te deixou morar junto a ele, ele te salvou na piscina, dançou com você na noite da iniciação, ele quase enlouquece quando te vê junto com o Jeremi ou com o Victor...
- Sabe – eu a interrompi e me sentei a sua frente – Ele disse que me amava, de uma forma triste e sádica, mas disse. Então ele disse que me deixaria viver minha vida e que iria me esquecer.
- E quantas vezes ele não te disse isso, en Claire? Não com essas palavras, mas é quase a mesma coisa... – eu tentei não sorrir feito uma boba com essa pergunta – Ele sempre volta pra você, sempre.
Apertei as mãos da Celina e sorri para ela. Isso era tudo que eu precisava ouvir agora.
- Brigada, Céu. Agora eu me pergunto como você nunca me disse isso antes?
- Bem amiga, eu não costuma dizer o que é óbvio.
- Ah! Isso era muito óbvio, claro – eu ri da cara indignada que ela fez.
Nós rimos ate ouvir a porta da sala ser aberta. Por um instante eu vi tudo parar. Poderia ser ele. Era ele. Quem mais seria? Os passos foram aumentando e eu pude ouvir que estava próximo a minha porta. Meu coração acelerou só ao ver a maçaneta ser rodada. Não podia ser ele, não agora. Eu não estava preparada para isso.
- ‘Tão’ fazendo reuniãozinha sem mim?
Para minha sorte não era ele. Era a Moira. Por um momento ela me encarou sem disfarçar o espanto.
- Ta tudo bem com você Claire? – ela pareceu realmente preocupada.
Eu previ que minha cara inchada e o vomito que ela encontrou na sala deve ter dado alguma dica para ela.
- Defina bem? – eu tentei não soar tão desesperada como eu fiz com a Celina.
- Deixa eu adivinhar! – ela cruzou a distancia entre nós e sentou ao meu lado da cama – Lucius?
- Mais ou menos – eu tentei não colocar a culpa nele, já que a culpa, dessa vez, era totalmente minha.
- Dica amiga! Se ele ainda não percebeu como ta te fazendo sofrer com todo esse dramazinho ‘eu-não-gosto-de-você-fica-longe-de-mim’ é porque definitivamente ele não te merece, então dá um pé na bunda dele e manda ele se foder.
- E se dessa vez a culpa for minha...?
- Então inferniza a vida dele ate ele implorar pra te ter de volta. Simples assim.
- Sua filosofia de vida, Moira, me choca!
- Também me choca – Celina completou.
- Pelo menos pra mim esse filosofia de vida ta dando MUITO certo!
- E isso por quê? – Celina perguntou um pouco desconfiada.
- Deixa eu adivinhar! – eu imitei o ar presunçoso da Moira – Você obrigou o Irial a entrar no seu dormitório e o violentou sexualmente ate ele te implorar pra continuar?
- Defina obrigar? – foi à vez dela me imitar.
Eu fiz cara de chocada para ela e Celina pareceu querer morrer nessa hora.
- Me diz que você não fez o que eu to pensando, no MEU dormitório, enquanto eu tava dormindo – Celina disse.
- Disse a que fez sexo no jardim do Instituto – Celina corou e fez careta – Mas não... – Moira sorriu maliciosamente – Ainda!
- Ate eu to curiosa. Conta tudo. Agora! – eu disse animada, pela primeira vez no dia.
- Eu sei que vou parecer uma adolescente apaixonadinha, mas o Irial. Meu Deus. O Irial é lindo, perfeito e fodasticamente gostoso.
- Definitivamente você não pareceu uma adolescente apaixonadinha! – eu fui irônica.
- Tanto faz – Moira deu de ombros – Continuando... Depois daquela briga, que eu não entendi nada, entre o Victor e o Jeremi, eu pedi gentilmente que o Irial me levasse pro dormitório, já que a Celina aqui – Moira olhou pra Celina – tinha sumido junto com o namorado dela e o Jeremi.
- Gentilmente? – Celina arqueou a sobrancelha – Você deve ter agarrado o Irial pela gola da camisa dele e ter arrastado ele pro quarto – Celina continuou e imitou o Irial, me fazendo rir ainda mais – “Por favor, Moira, eu não posso, ta tarde, se alguém ver a gente aqui...”.
- Cala Boca! – Moira interrompeu parecendo um pouco incomodada.
- Foi exatamente isso que você disse pra ele e o levou gentilmente pro nosso dormitório.
Eu ria descontroladamente vendo a cara da Moira. Ela não tinha gostado tanto da brincadeira.
- Vocês vão me deixar terminar de contar ou não?
Eu confirmei tentando segurar a risada. Celina fez o mesmo.
- Então... O Irial, como eu ia dizendo, me levou ate o dormitório gentilmente. Pra falar a verdade eu tava tão bêbada que eu fui meio que pendurada no braço dele, mas isso é apenas um detalhe. Eu nem sei se era porque eu tava muito bêbada ou porque eu tava tímida – Moira falou como se não acreditasse no que tinha acabado de fala. Eu tive que me conter pra não rir, olhando pra expressão da Celina ela também estava com vontade de rir. – mas eu não consegui dizer muita coisa ate chegar à porta do quarto.
Moira suspirou e continuou.
- Quando eu cheguei à porta do quarto, eu disse... Bem, eu disse que, mesmo com a briga, eu tinha gostado da noite e principalmente das declarações veladas. Então ele me disse que também tinha gostado – Moira parecia mais animada do que o normal – Agora presta atenção que vou contar detalhadamente o que aconteceu!
Eu e Celina rimos.
- Ele foi na minha direção lentamente, como se tivesse medo que eu falasse não ou sei lá, e foi me pressionando contra a parede. E pela primeira vez na minha vida eu fiquei sem ação. Não consegui falar nada, fazer nada... Eu só sei que ele encostou seu corpo com o meu, me pressionou contra parede e me beijou. E não foi só um beijou. Foi O beijo. Eu senti como se ele pudesse se fundir a mim, suas mãos, tudo, tinha uma sincronia. Perfeito... Só perfeito.
Eu fiquei encarando a Moira enquanto ela parecia ainda estar em transe. Ela realmente gostava do Irial, eu diria ate que amava. Foi a Celina que cortou o silêncio.
- Depois dessa declaração, eu preciso de um momento de silêncio... – eu e Moira encaramos a Celina sem entender – A minha amiga mais devassa de todas ta apaixonada. Isso precisa de um momento de silêncio.
- Cala boca Celina! – Moira disse e bateu na cabeça da Celina.
Eu ria tanto quanto a Céu.
- Realmente se ate a Moira conseguiu o homem que ela queria, eu posso desistir – eu disse fingindo estar séria.
- Como vocês são engraçadas! – Moira cruzou os braços – Mas ainda tem um pequeno problema...
- E seria qual? – eu perguntei.
- Ele me disse pra manter segredo por enquanto, não dizer a ninguém.
- Mas ele tem razão, Moira – Celina disse – Não é como se fosse normal um instrutor se envolver com um principado no Instituto. Por mais que o Instituto diga que não vai se intrometer na nossa vida e deixar a gente fazer a nossas escolhas, existem responsabilidades e regras. E se envolver com um instrutor vai contra todas as regras estabelecidas, principalmente contra o nosso destino de guardar as dominações.
- Destino? Onde você vai com toda essa alegria amiga? Se tem uma coisa que não tem espaço na minha vida é o destino. A única coisa que pode definir minha vida sou eu mesma e minhas escolhas. Nada e nem destino nenhum vai me impedir de ter o que eu quero.
- Eu tenho que concordar com as duas. – Moira me olhou em duvida – Nada vai te impedir de ter o que você quer, mas não precisa ser exatamente agora. Como já me disseram: apenas dê tempo ao tempo. O Irial vai ser seu, amiga.
- Eu sei, Claire – Moira me olhou confiante – Assim como nada vai tirar o Lucius de você.
- Eu espero.
- Como eu senti orgulho de vocês agora – Celina disse rindo – Sério! Pela primeira vez vocês se pareceram centradas, corretas, assim como eu.
- Quer dizer chatas e entediantes, ne Celina? – Moira disse.
Então nós rimos, assim como nós fizemos a tarde inteira. Era só isso que eu precisava. Minhas amigas.
- Qual é Claire? A gente ate limpou o lindo vômito que tinha na sala, não dá pra fazer um esforço e levar eu e a Celina ate o nosso dormitório?
Eu fechei os olhos em exaspero. A última coisa que eu queria fazer era sair e dar de cara com Lucius. As coisas estavam indo bem ate agora. Como eu previ Lucius não voltou ao dormitório a tarde toda tentando me evitar e seria assim durante um longo tempo.
- Vem logo, Claire! Levanta e troca de roupa.
- A não! – eu me recostei no sofá da sala – Eu já to com pijama, já é noite e eu quero dormir, Moira...
- Claire não adianta reclamar. A Moira vai te fazer ir de qualquer jeito.
Eu olhei para Celina e bufei. Não dava pra ela me dar uma força?
- Ta! Eu vou trocar de roupa.
Levantei-me e fui para meu quarto enquanto Moira sorria vitoriosa e Celina rolava os olhos. Vesti o primeiro vestido que encontrei, coloquei minha sandália havaiana roxa e voltei ate a sala.
- Vamos? – eu disse sem ao menos olhar para as meninas e indo abrir a porta.
- Também não precisa ficar tão mal humorada, Claire. O dormitório é bem ali.
- Claro! Bem depois do jardim, lá do outro lado, descendo as escadas... – eu disse emburrada.
Olhei para trás e vi as meninas indo em minha direção, fechei a porta e andei ao lado delas.
- Você pretende continuar com o Irial, como casal eu quero dizer? – olhei para Moira.
- Eu não sei. – ela pareceu frustrada – Tudo que eu mais quero é ele pra mim. Mesmo que eu tenha que quebrar regras ou fingir para os outros que a gente não esta junto.
Eu balancei a cabeça em concordância enquanto continuamos a andar. Celina se pronunciou depois de um momento de silêncio.
- Eu olho para vocês e me pergunto como vai ser para mim. – eu a olhei sem entender – Teve uma parte da minha vida que não tinha nada que eu queria mais do que ser um principado, então eu encontrei o Sam e os meus objetivos meio que mudaram. Eu não sei como vai ser quando tudo isso terminar, os treinos, as aulas e começar a vida real... Vai ser difícil me separar dele.
Eu nunca pensei que a Celina cogitasse a idéia de se separar do Sam, na verdade eu nunca pensei como seria meu futuro fora do Instituto.
- Vocês nunca pensaram em abandonar o Instituto? Sei lá, ter outra vida?
- Não – a Moira foi a primeira a responder – Eu gosto do Irial, eu acho que poderia ate amá-lo, mas abandonar o Instituto? Nunca. Não tem nada que eu faça melhor e é o que eu amo fazer.
- Eu costumava pensar igual a você, Moira, mas as coisas estão tomando outra proporção agora. Eu começo a pensar na minha mãe, eu só não consigo imaginar em deixá-la sozinha enquanto eu possa morrer a qualquer hora e muito menos minha vida sem o Sam. Mas eu também não consigo ver outra coisa que eu possa fazer. Eu vivo isso, eu respiro isso, sabe? E também tem o Sam, ele nunca deixaria o Instituto ou decepcionaria o Conselho por mim. Nunca – Celina disse as últimas palavras como se isso fosse a pior parte de todas.
- Sério? – Moira perguntou.
- É. Mas não se preocupe Moira, eu nunca deixaria de ser sua parceira por causa disso, são só pensamentos...
- Eu penso totalmente diferente de vocês. Eu nunca me imaginei fazendo isso. Matar demônios ou proteger anjos. Meu único sonho era ter minha irmã de volta ou encontrar uma família ou, por mais estúpido que isso pareça, ficar com o Lucius. Agora eu não tenho a mínima idéia do que fazer, mas ser um principado me parece a melhor alternativa. – eu esbocei um sorriso para elas.
Passamos à porta que dava para o jardim e eu pude notar que havia alguém sentado em um dos bancos. As meninas ficaram em silêncio quando também notaram que havia alguém ali. Pelo horário não deveria ter ninguém, amanha teríamos treino, como sempre, e todos tinham que estar dormindo. O que não aplicava muito a nós que ainda estávamos acordadas, então não seria tão difícil alguém fazer o mesmo.
- Sou eu – o estranho gritou vendo que estávamos paradas perto da porta.
- Jeremi? – eu gritei de volta.
- É – ele respondeu.
Eu me virei para meninas, as impedindo de ir ate lá.
- Eu preciso conversar com o Jeremi. Sozinha. Tudo bem?
Celina e Moira se entre olharam, mas não disseram nada.
- Tudo bem Claire – Moira se adiantou – Mas só dessa vez.
Ela piscou e se despediu. Celina fez o mesmo e minutos depois eu me encontrava sozinha com o Jeremi no jardim externo.
- Onde elas foram? – Jeremi me perguntou logo depois que eu sentei ao seu lado.
- Eu disse que queria conversar com você.
- Ah – ele assentiu rapidamente e não disse mais nada.
- Então... – eu puxei assunto – O que você ta fazendo aqui, sozinho, no meio da noite?
- Apenas pensando.
Jeremi não disse nada por um tempo. Eu me encolhi a seu lado e cruzei minhas pernas sobre o banco de madeira. Olhei para Jeremi e vi que ele olhava o céu. A lua estava imensa e clareava toda a dimensão do seu rosto. Agora, o olhando, ele parecia diferente. O rosto sério e fechado o deixava mais velho, seu cabelo estava molhado e penteado para trás, sua boca parecia um pouco ressecada e seus olhos mais triste. Ele sabia por que eu estava ali e parecia não gostar muito disso.
- O que aconteceu ontem?
- Eu acho que não preciso descrever a cena pra você Claire. Você tava lá, você sabe o que aconteceu.
Ouch! Ele deveria estar mesmo chateado. Ele nunca tinha me tratado assim antes, mas eu não desistiria fácil.
- Você sabe ao que eu me refiro Jeremi... – eu virei seu rosto em minha direção com a minha mão – Do que o Victor tava falando?
Ele me olhou como se eu não tivesse perguntado nada. Ficou em silêncio e não me respondeu.
- Não me faça perguntar ao Victor... – ele franziu a testa em reprovação – Então, por favor, me fala o que aconteceu ontem? Do que o Victor tava falando?
- Minha família... Ele tava falando da minha família, Claire – ele ainda tinha um olhar triste e perdido quando falou isso.
- Sua família?
- Foi há muito tempo atrás – ele virou o rosto e fitou o céu novamente – Um grupo de rastreadores me encontrou quando eu era mais novo e quase matou toda a minha família por minha causa. Foi Victor que a salvou na época.
- Rastreadores?
- Faz parte da corte negra. Demônios designados a encontrar principados e aniquilá-los. E eles me encontraram.
- E o que o Victor tem a ver com isso?
- Victor faz muita coisa em nome do Conselho, Claire. Varias coisas. Na época ele caçava os rastreadores. Graças a ele minha família não foi massacrada... – eu vi seu maxilar travar com as próximas palavras – Desde então ele faz questão de jogar isso na minha cara. Como eu fui incapaz de fazer alguma coisa.
- Mas você era a apenas uma criança, Jeremi – eu peguei sua mão e o vi olhar para mim – Não é sua culpa. Não se culpe por isso.
- Eu era apenas uma criança, certo? – ele sorriu sádico.
Eu confirmei e apertei mais sua mão. Eu vi uma lágrima escorrer sobre seu rosto. Antes que ela pudesse chegar a seu queixo, eu limpei com a palma da minha mão. Jeremi a segurou, com a sua mão, e se reconfortou ali. Eu pude sentir a intensidade do seu olhar, a forma como ele me olhava, o desespero por mais. Eu poderia amá-lo, seria mais fácil, tão fácil.
- Você parece ser a única pessoa que me faz esquecer tudo que eu já vivi, mesmo que seja por pouco tempo – eu senti a sua sinceridade refletir em mim.
- Ainda bem que eu tenho as meninas e... e você agora. Parece fazer as coisas ficarem mais fáceis – eu disse.
Ele sorriu e concordou comigo. Sua mão foi da minha ate meu rosto, parou sobre minha bochecha e a acariciou com seus dedos. Baixei minha mão do seu rosto e curti um pouco o seu carinho, ainda com os olhos nele.
- Sabe? Agora eu seu o porquê do Sam e da Celina fazerem isso aqui... – ele sorriu mais mostrando seus dentes brancos.
- Fazer o quê... – eu me calei me lembrando do que a Celina tinha falado ontem na brincadeira. – Imbecil! - Eu tirei sua mão do meu rosto e ri – Só você pra pensar, pior, pra falar uma coisa dessas!
- Me diz que você não pensou nisso? – ele inclinou a cabeça para o lado e riu.
Vi as covinhas no seu rosto e fiquei o olhando por um tempo. Tão lindo.
- Eu sabia! – ele me sorriu vitorioso e eu bati em seu braço.
- Não! Eu não pensei, seu pervertido – me levantei e olhei de novo – Depois dessa eu acho que a única coisa que eu tenho a fazer é ir pro meu dormitório...
Eu tentei ir, mas ele segurou meu pulso.
- Você quer que eu vá com você? – ele sorriu de lado.
- Não Jeremi! – eu tentei não rir, mas não consegui.
Ele se levantou e continuou a segurar meu pulso, o acariciando com o dedo.
- Eu ainda não terminei – ele disse mais sério.
Seu corpo foi se aproximando e por um momento eu não consegui me mover. Seus olhos pareciam querer me engolir. Intenso como eu nunca o vi antes, sério, compenetrado. Sua mão ainda estava no meu pulso. Eu engoli em seco. Ele parou a poucos centímetros de mim.
- Fique longe do Victor, Claire. Ele é ta usando você.
- Eu vou tentar - eu forcei um sorriso - Boa noite, Jeremi.
- Boa noite - ele se aproximou lentamente, movendo sua boca próxima a minha.
No último momento eu virei meu rosto. Eu não podia enganá-lo. Eu não podia me enganar. Ele riu da minha esquiva e beijou minha bochecha. Desvencilhei-me dele e no próximo instante eu já estava praticamente correndo para o meu dormitório, fugindo dele e da realidade que me cercava.
******
- O que você ta fazendo?! – eu disse entre dentes.
- Devolvendo suas roupas, Claire.
- Na frente de todo mundo, Victor!
Todos nos olhavam enquanto ele me dava peça por peça.
- Não fui eu que esqueci essas roupas no meu dormitório... – ele disse enquanto um sorriso maldoso se formava em seu rosto.
- Fala.mais.baixo! – eu peguei minha blusa bege das suas mãos – Da última vez que eu me lembro minhas roupas estavam numa mala!
- E perder seção ‘humilha-Claire’? Nunca! – ele me rodeou com uma velocidade sobre-humana quando tentei pegar a pilha de roupas da sua mão.
Depois de uma noite mal dormida, a única coisa que eu poderia fazer era continuar com a minha vida no Instituto. Agora estava eu, no começo de um treino, tentando pegar minhas roupas que eu tinha esquecido no quarto do Victor no sábado.
Me virei para encontrar ele segurando uma peça muito intima nas mãos e um sorriso maior ainda no seu rosto.
- Minha calcinha?! – eu tentei falar baixo para não chamar a atenção de ninguém, mas sinceramente não adiantou muito. Tudo mundo já olhava a cena.
Eu avancei para ele e tentei pegá-la de sua mão. Ele a levantou ate seu um e noventa e cinco metros de altura me impedindo de pegá-la.
- Se você ta tão obcecado com a minha calcinha, fica com ela... – eu peguei rapidamente a pilha da sua outra mão e sorri – porque é só isso que você vai conseguir de mim!
- Sério? Eu pensei que o que aconteceu sábado no meu quarto vale muito mais que uma calcinha...
Eu sabia a que ele se referia, sobre o beijo, mas do jeito que ele falou e o sorriso presunçoso que veio depois, deu a entender que era muito mais que isso. Ótimo! Agora a turma toda pensava que eu tinha transado com Victor Lefroy, o vampiro. E o pior era que eu não podia desmentir depois de tudo que eu falei para o Lucius. Bufei e revirei os olhos. Esse filho da puta!
- Onde você ta indo? – ele perguntou quando me viu dando as costas.
- Guardar minhas roupas.
- Se eu fosse você não iria por ai, amor...
- Eu não perguntei sua opinião.
Eu pude ver por escanteio que Jeremi assistia a tudo. Seus olhos estavam em mim, frios e letais, bem diferente de quando o encontrei no jardim. Ele nem tinha falado comigo hoje. Tanto faz. Eu já tinha feito minhas escolhas. Eu me aproximei da porta dupla e quando eu fui abrir, ela se abriu sozinha. Eu encarei aqueles olhos azuis inconfundíveis. Ele me olhou da mesma forma que tinha me olhado no primeiro treino, frio e distante. Eu lembrei da humilhação que passei por aquele dia e como ele me tratou. Ele parecia disposto a repetir tudo de novo e dessa vez parecia que ia ser pior, bem pior.
- Onde você pensa que você vai, senhorita Bauer? – ele disse em um tom baixo e grosso.
- Eu... An, eu vou guardar minhas roupas no dormitório, eu tinha esquecido na...
- Eu vou começar o treino agora, senhorita Bauer. - Ele me interrompeu - Se você sair, eu espero que não volte para aula.
Ele desviou e saiu da minha frente, me deixou ali, olhando atônita a porta dupla se fechar a minha frente. Ele me tratou com indiferença, não com raiva ou fúria, apenas como um aluno qualquer. Eu engoli em seco tentando desvencilhar as lagrimas. Se eu quisesse que ele acreditasse em toda a minha mentira, eu teria que fingir bem. Eu não sabia se conseguiria.
- Porque você ta chorando, pequena?
- Por nada! – eu virei meu rosto e me escondi, tampando meu rosto com as mãos. Eu não queria que ele me visse chorar.
- Claire olha pra mim – ele tentou tirar as mãos do meu rosto, mas não consegui – Claire, me diz, o que aconteceu?
Ele disse com a maior paciência do mundo, o que me fez chorar ainda mais – Nada, Lucius, eu já disse que foi nada.
- Você sabe que eu sempre vou saber quando você esta mentindo, não sabe Claire?
Eu balancei a cabeça ainda com as minhas mãos no rosto. Ele me puxou para o seu colo.
- Me diz, pequena, qual é o problema?
Eu funguei, tentando não chorar, e enfiei meu rosto em seu pescoço.
- Você acha que eu sou louca, Lucius? – o som saiu abafado, mas ele conseguiu escutar.
- Temo que sim, Claire. Você esta completamente maluca. Mas eu vou te contar um segredo. As melhores pessoas são malucas.
Eu tirei meu rosto do seu pescoço e o encarei.
- Eu não sou maluca! – eu disse, sem saber na época que ele tinha feito uma referência ao livro ‘Alice’.
Limpei meu nariz que escorria com a manga do meu pijama e fiz bico.
- Eu sei, pequena... – ele sorriu e passou a mão nos meus cabelos – Você sabe que quando uma pessoa é maluca ela nunca sai por ai perguntando se é, não sabe?
- Mas eu disse pra Melissa que eu te via e ela riu de mim e disse que eu te via porque eu era louca – eu cruzei os braços e bufei.
- Eu já te disse que você é diferente, Claire. Você consegue ver muito mais que as outras pessoas, o real mundo a sua volta, mas isso é nosso segredo, lembra?
Eu assenti ainda com os braços cruzados.
- Agora ta na hora de você dormir! – ele se levantou ainda comigo em seu colo.
- Você dorme comigo? – eu perguntei com a voz fanha.
- Durmo, se você prometer não esconder mais nada de mim, promete?
- Prometo – eu disse sorrindo, me esquecendo totalmente porque eu estava chorando.
Ele me levou ate a cama e em seguida deitou ao meu lado.
- O que eu não faço por você, minha menina dos olhos estranhos.
Fui ate o vestiário deixar minhas roupas. Quando voltei a aula estava preste a começar, os alunos já se posicionavam para começar o aquecimento. Victor estava me esperando.
- Comecem a correr! – a voz de Lucius soou por toda quadra.
Victor me acompanhou. Ele ainda era minha dupla.
- Depois disso eu posso dizer que deu tudo certo sábado? – a voz de Victor me tirou dos meus pensamentos.
- Eu acho que sim.
- Então isso significa que hoje à noite...? – Victor me olhou de soslaio.
- Sim, Victor.
Eu tinha trancado a porta do meu quarto como prevenção. Eu sabia que isso não adiantaria muito se ele resolvesse ver como eu estava, mas isso, de certa maneira, me dava segurança. Felizmente todo mundo acreditou quando eu disse que estava com dor de cabeça e que ia comer no meu dormitório mesmo. Depois de tomar banho e esperar o horário de recolher, eu saí. Não vi Lucius em nenhuma hora depois do meu treino. Eu sabia que ele me evitaria o máximo que podia depois da minha declaração. Corri o máximo que eu pude e me esquivei todas as horas que aparecia alguém. Cheguei ao dormitório de Victor e como previsto ele já estava me esperando. Ele nos guiou para fora do Instituto e em questão de minutos já estávamos em cima da sua moto correndo em direção a cidade mais próxima. Desta vez, quando estávamos na floresta, ninguém nós atacou e conseguimos chegar à cachoeira. Ela ficava mais longe do que eu imaginava, mas quando chegamos lá, todo o meu esforço, valeu a pena.
- É lindo!
Eu me perdi olhando toda a imensidão a minha frente. A água caía continuamente e a luz da lua clareava parcialmente a clareira onde ficava a cachoeira. Uma vontade imensa de entrar na água me invadiu. Eu me senti mais tranqüila olhando a paisagem.
- Não temos tempo pra isso, Claire – Victor apareceu a minha frente e chamou minha atenção para ele – Preparada?
- Sim, preparada.
- Feche os olhos.
Por um momento eu hesitei, mas obedeci ao que ele falou.
- Limpe sua mente, escute apenas o som da água, se concentre – eu fiz o que ele pediu – você pode ouvir o barulho do ar nas arvores... o som da água batendo nas pedras?
Eu assenti sem dizer nada, tentando me concentrar mais.
- Agora eu preciso que você se concentre no som da minha voz. Você consegui fazer isso? – nesse instante sua voz soou mais distante de mim.
Eu assenti novamente.
- Então onde eu estou? – sua voz estava distante, mas agora veio de outra direção – Onde eu estou, Claire?!
Ele gritou e eu pressenti que ele tinha mudado de posição novamente.
- Onde? ONDE?
- Eu... eu não sei!
- Resposta errada – a voz soou perto do meu pescoço e no próximo instante eu senti uma coisa acertar meu rosto fortemente.
- Qual é o seu problema, filho de uma...? – eu me afastei de Victor vendo que ele tinha acabado de me acertar um soco.
- Quem te disse que você poderia abrir os olhos? - o olhei com o cenho franzido – Nós não temos tempo pra isso. Se você acha que o Lucius vai demorar pra descobrir sobre isso, você esta enganada. Agora feche os olhos!
Ainda com raiva eu fechei os olhos. Ele estava certo, ele tinha mais experiência e esperava profundamente que ele soubesse o que estava fazendo.
- Então apenas me diga por que de tudo isso? – eu perguntei de olhos fechados.
- Os blinds têm a capacidade de prever o movimento do seu oponente, é só uma questão de concentração – sua voz apareceu distante indicando que ele começou a se mover – Com o tempo você vai perceber que pode prever onde eu vou estar, vai saber quais serão meus movimentos antes mesmo que eu os faça, vai visualizar cada passo meu sem ao menos eu ter dito nada, mas antes disso eu preciso treinar você – sua voz soou a minha direita, bem longe – Agora, onde eu estou?
Eu tentei me concentrar, ver onde ele poderia estar, visualizar, mas nada veio minha mente.
- Onde eu estou, Claire? – a voz veio de mais perto, mas não muito perto.
- A minha esquerda, atrás de mim.
- E agora? – a voz foi quase inaudível, não me dando a menor dica de onde ele estava - aonde?
Continuei em silêncio, tentando me concentrar na sua voz, mas ainda sim não consegui descobrir.
- Um – ele falou ainda longe – dois... – e sim ele estava contando – três – sua voz estava distante, mas veio de outra direção – quatro – ele estava próximo – cinco – mais próximo – Seis!
Eu pude sentir seu corpo próximo ao meu, mas não tive tempo de reagir. Sua mão acertou meu queixo, o que o fez estralar, eu me desequilibrei e fui para trás.
- Merda! Merda! Merda! – eu coloquei as mãos no meu queixo e o toquei levemente – Desse jeito eu vou voltar pro Instituto cheia de hematoma!
- Eu não ligo Claire – ele sumiu da minha frente recomeçando o treinamento – Alem do mais você tem a marca parcial do trisquel, você se recupera mais rápido que os outros, ate o amanhecer essas marcas já desapareceram – ele se mexeu de novo, mas eu não tinha a mínima idéia de onde ele estava.
- Ok. Eu não ligo se você me espancar, desde que você me ensine a lutar.
Eu fechei os olhos sem saber que eu não estava tão longe da realidade do que eu tinha dito.
Foi praticamente uma semana de treino e nenhuma progressão em relação a isso. Eu poderia dizer onde ele estava quando eram lugares mais pertos, mas nunca quando ele se distanciava de mais. Pior ainda quando ele se aproximava de mim, eu só sabia que ele estava perto segundos antes, aí já era tarde. Felizmente Victor estava certo, então as marcas que ele me deixou saíram antes do amanhecer. As aulas duravam só duas horas, mas era o suficiente para me deixaram cansadas. Eu passava maior parte das aulas matinais dormindo e outra boa parte treinando, mas por mais estranho que pareça quando a noite chegava, eu ficava mais ansiosa pela aula e por aprender logo. Victor dizia que era por causa de toda essa animação que eu não conseguia me concentrar, logo, hoje, ele decidiu me liberar da aula.
- Você podia ter me avisado antes de eu ter vindo aqui, não podia?
Eu estava no dormitório de Victor, depois da meia noite, na expectativa que ele me levasse pra treinar.
- Eu só decidi isso agora, Claire. E por favor, pára de fazer drama e vai pro seu dormitório, eu ando meio cansado depois de todos esses treinos.
Ele parecia tão frustrado quanto eu em relação aos treinos. Depois de uma semana eu não o culpava de estar entediado também.
- Semana que vem nos recomeçamos o treino, ta bom? – ele ainda estava sentando em sua cadeira com o olhar arrogante.
- Tudo bem, Victor – eu saí do seu dormitório em passos duros e não me importei de sair sem me esconder.
Esse filho da puta arrogante me paga. Eu andei no corredor escuro ainda com raiva pelo que Victor tinha dito. Eu não via a hora de começar a lidar com a minha força, já ele não parecia tão entusiasmado. Um barulho a minha frente me fez parar. Logo depois da escada, mais a baixo, na parte do dormitório feminino havia alguém. Na verdade havia duas pessoas. Pela pouca luz que tinha eu mal pude ver quem era. Me esgueirei perto da parede e me aproximei, sem que eles percebessem. Eles tinham os corpos colados, um pressionado no outro, a perna da garota estava na cintura dele e as mãos do rapaz corriam livremente sobre o corpo dela, sem pudor. Eles se beijavam, um beijo profundo, que os faziam não prestar atenção em mais nada a seu redor, nem em mim. Forcei mais meus olhos tentando focar a cena a minha frente. A pele dela era morena e usava uma calça jeans bem justa junto com uma blusa branca, seu cabelo negro era comprido e estava sem sapato. Ele era bem mais alto que ela, usava calça preta e uma regata preta, seu cabelo era raspado bem curto e ... Deus! O ar fugiu dos meus pulmões, meu coração começou a bater dolorosamente no peito, eu tentei não soluçar ou gritar com o que eu via. Era ele. Era o Lucius e a Luiza.
quarta-feira, 23 de junho de 2010
Capítulo 20 - * Dor, Arrependimentos e Rancores:
Eu avistei o corredor escuro e me senti encolher ao encará-lo. O efeito da tequila ainda estava em mim. Meus pés tropeçaram durante meu caminho ate o dormitório e minha visão não era das melhores também. Eu tive que me apoiar algumas vezes até que tudo parasse de rodar e me sentir segura para continuar. Meus lábios ainda continuavam inchados devido ao beijo que Victor tinha me dado. Eu me peguei sorrindo ao lembrar o que tinha acontecido. Eu ainda me sentia com raiva e frustrada por ele me esconder coisas, mas ele não era o maior culpado dessa história. Olhei a caixa na minha mão e pensei sobre o que ela continha. A adaga. Isso me trouxe a imagem de Lucius e Luisa. Eu não tinha visto nada. Nem ao menos ouvido nada. Apenas o simples fato de ver suas pernas trançadas, os pés suspensos e o silêncio repentino. Ele tinha se perdido por alguns minutos na boca dela e eu o assisti se afastar um pouco mais. Então eu o empurrei mais um pouco no abismo que nossa relação tinha se tornado. Eu não sei o que vai acontecer quando disser minhas palavras. Eu nem sei o que vou dizer. As conseqüências delas eram menos previsíveis ainda. Eu conhecia Lucius. Eu o conhecia bem de mais. Ele se escondia sob uma casca grossa e funda de arrependimentos, culpas, rancores, dor, presunção, arrogância, soberba e orgulho. Ele aparenta ser forte. Ele é forte. Mas de perto, as poucas pessoas que ele permitia chegar perto, poderia ver as pequenas rachaduras, as frestas que se poderia ver o quão profundo ele era. Os medos que ele tinha, as virtudes, seus sonhos, sua proteção, sua felicidade rara, seus acertos, seus erros, seu carinho exacerbado e o mais importante, o amor que ele cultivava pelos poucos amigos que o cercavam. Foi por esse homem que eu me apaixonei. Mas ocorreu algo, que eu não me lembro, que mudou tudo isso. Ele se fechou novamente para mim. Não me via como a garotinha inocente do orfanato. Ele me via como mais alguém que poderia o machucar de novo, direta ou indiretamente, através da casca invisível que ele projetou. Diferente dele, eu era uma pessoa aberta. Eu me entregava ao que sentia sem medo do que aconteceria a mim. Então quando algum sentimento me atingia, ele me engolia por inteiro. Mas dessa vez eu estava sofrendo mais do que sendo feliz. Antigamente as feridas cicatrizavam, agora elas se repetiam, me machucam, não me dando tempo de curá-las. Eu tinha duas opções. Ou as deixavam me engoliram ou fingia para mim mesma que isso não importava. Eu escolhi a última opção. Meus pensamentos me levaram até a porta do dormitório, sem ao menos perceber. Senti lágrimas em meus olhos e me xinguei mentalmente. Enxuguei meus olhos com as costas da minha mão e encarei a porta, que parecia meio nublada. Eu seria mais uma pessoa que o encheria de dor, arrependimentos e rancores. Com essa certeza em mente eu abri a porta. A luz da sala estava acesa, revelando bem as feições de Lucius. Ele estava no sofá preto, deitado, os olhos atentos ao livro a sua frente, uma mão o segurava e o outro braço estendido relaxadamente sobre sua barriga, sem camisa, enquanto uma perna se encolhia no sofá pequeno, a outra estava dobrada, franzindo sua calça branca de algodão. Ele parecia realmente prestar atenção no livro. Não me notou nem quando adentrei a sala. Fechei a porta e ele continuou a ler. Olhei novamente para ele. A pele clara, algumas pequenas cicatrizes em seu abdômen, as pernas grossas sob o tecido folgado, o nariz afilado, seus olhos azuis na penumbra, as mãos grandes, sua boca mediana. Flashes da semana interior vieram a minha mente.
Ele me olhou com olhos furiosos. Eu senti medo, um medo que eu não poderia descrever. Não dele, mas de mim. Medo do que poderia fazer com ele tão perto, medo do que poderia falar. As palavras estavam ali. Todo esse tempo. Eu poderia falar para ele que eu sabia... Sabia que ele tinha caído por mim. Meu medo aumentou. Ele confirmaria. É claro que ele confirmaria! É tudo minha culpa. Então tudo desmoronaria. Eu saberia que tudo era minha culpa. Que ele era infeliz assim por minha causa. Que ele tinha desistido das suas crenças na única esperança de me ter. E que nesses últimos meses a única coisa que eu fiz foi culpá-lo pelos meus próprios erros. Ele ajoelhou na minha frente com olhos em agonia, espelhando os meus. Seus braços foram lentamente me envolvendo, me acolhendo. A pouca coragem que eu tinha se foi. Eu não falaria para ele agora, não agora. Deixei-me ser guiada por suas mãos e afagos. Ele moldou meu corpo ao seu e eu me deixei ir. Deitada sobre seu torço era como se tudo tivesse desaparecido. Um único sentimento prevaleceu. Culpa*.
- Desculpa. Desculpa Lucius – foram as únicas coisas que eu consegui falar - É tudo minha culpa. Eu não deveria estar aqui.
Ele apertou os fios dos meus cabelos como se compartilhasse a dor. Uma de suas mãos me apertou mais contra ele e me vi deitar mais sobre ele. Eu ouvia nitidamente seu coração bater, forte e acelerado. Ele passou sua mão sobre meu rosto, limpando as lágrimas, deixando um caminho terno no processo. Isso me consolou. Fechei meus olhos. Sua mão deslizou do meu ombro ate meu rosto, me segurando. Senti seus lábios sobre minha testa e me agarrei mais a ele. Beijou a ponta do meu nariz. Uma nostalgia morna me envolveu. Ele fazia isso ainda quando era pequena. Sorri involuntariamente ainda com os olhos fechados. A mão sobre minhas costas desceu mais e me puxou mais ao seu encontro. Minha mão espalmou sobre seu peito. Senti algo quente irradiar onde o tocava e me invadir. Beijou minha bochecha. Minhas unhas o arranharam lentamente pedindo por mais. Passou sua mão sobre meu rosto tirando as lágrimas que ainda estavam ali. Beijou meu queixo, o que me deixou um pouco desconcertada, percebendo o caminho que sua boca trilhava. Beijou calmamente meu pescoço, um leve chupão. Senti uma estranha necessidade se alastrar por mim, me fazendo arrepiar. Sua mão ajustou sobre meu ombro me trazendo mais para ele. Sua boca encontrou a volta do meu seio, deixando que sua língua deslizasse pelo local. Apertei sua nuca, afundando minhas unhas, implorando que continuasse. Como se brincasse comigo ele parou, deslizou sua língua até o vão do meu pescoço, abriu a boca e o sugou. Senti todas as barreiras sendo derrubadas. Deslizou sua boca sob minha pele e chegou a minha orelha. Ele soprou o ar quente e arrítmico da sua boca em minha pele. Senti sua aproximação e senti meu coração bater mais rápido. Mordeu, como uma tortura lenta, o lóbulo da minha orelha, fazendo todo o meu corpo se retesar de prazer. Eu preciso de mais... “Lucius”. Eu deixei seu nome escapar entre meus lábios. Ele se afastou repentinamente me fazendo imaginar o que ele faria em seguida. Mas não fez. Abri meus olhos para encontrar os seus me encarando. Eu nunca me acostumaria com aquele tom azul. Ele desceu sua boca a minha em um processo lento, ainda me olhando nos olhos. Eu senti todo aquele sentimento, todo o meu amor por ele, me invadir apenas com seu olhar. Ainda o olhava quando beijou o canto da minha boca, me provocando. Fechei meus olhos quando senti sua língua passar sobre meu lábio inferior e o morder. Abri minha boca ligeiramente e senti sua lingua me invadir. Um beijo lento. Ele não aquentou tanto quanto eu. Passou sua mão dos meus ombros para meu cabelo e forçou minha cabeça para trás fazendo minha boca se abrir mais. Sua língua invadiu mais minha boca e colidiu com a minha. Transformando o beijo mais profundo e sagaz. Enquanto isso, com a mesma mão que tinha puxado meu cabelo, ele a deslizou sobre minha blusa chegando ao ponto em que minha barriga não estava coberta. Passou seus dedos sobre minha pele, enquanto ainda me beijava, e a deslizou ate o pequeno espaço que minha calça jeans permitia. Senti meu corpo reagir, me arqueei querendo mais. Arrepios me dominaram. Sua mão vagou mais um pouco perto agora do zíper, mas por baixo do tecido. Tirei minha boca da dele involuntariamente e sussurrei o ar. Ele se aproveitou e baixou sua boca em meu pescoço, o chupando lentamente enquanto sua mão voltava para minha cintura. Apertei em reprovação com que ele acabara de fazer e em resposta subiu sua mão passando por toda a extensão da minha blusa até chegar a meu seio. Sugou meu pescoço ao mesmo tempo em que apertava meu seio. Os arrepios voltaram, dessa vez mais forte. Foi descendo delicadamente sua boca ate o meu colo e o beijou. Foi ate meus ombros e beijou a ferida que fora deixada a mostra pela blusa. Apertei seu pescoço querendo que voltasse a me beijar. Tentei guiá-lo novamente ate minha boca, mas ele não o fez. Eu podia sentir seus olhos em mim, me averiguando, mas eu me neguei a abrir os olhos. Subiu a tecido da minha blusa vagarosamente, apreciando cada momento. Espalmou sua mão contra minha barriga e deixou que ela se perdesse ali. Quando percebi que sua mão aproximava do meu sutiã senti meu corpo sofrer espasmos. Soltei todo ar que prendia em meus pulmões e senti a boca de Lucius voltar a minha. O beijo foi mais lento enquanto ele ainda passava a mão em minha cintura, aproveitando a pequena vantagem de eu estar quase seminua. Mas eu não deixaria essa pequena desvantagem para mim. Parei o beijo. Minhas mãos foram ate a barra da sua blusa, ainda de joelhos a sua frente, e comecei a subi-la. Seus olhos estavam em mim em todo processo. Ele me ajudou a tirá-la de seu ombro e a jogou ao seu lado. Ele me olhou com duvida e medo, eu já não raciocinava mais. Coloquei minhas mãos em seu pescoço e o puxei para mim. O beijei. Com paixão. Desejo. Amor. Louca por mais. Senti meu lábio inchar ainda sob os seus devido à força do beijo. Com uma mão ainda sobre seu pescoço, eu deslizei a outra em seu torço. O beijei, mas sem perder a concentração com que fazia com minha mão. Deixei que ela apertasse levemente o seu peito, o sentindo arfar entre nossos beijos. Desci mais sentindo meus dedos moldar seu abdômen definido. Por último arrastei minhas unhas sobre sua pele ate o fim, chegando a sua calça. Ele se encolheu demonstrando também seu desejo. Isso me incentivou mais. Parei de beijá-lo e subitamente comecei a descer minha boca ate seu pescoço, me permitindo cravar meus dentes levemente. Ele sussurrou baixo como se gostasse. Minha mão segurava o começo da sua calça enquanto a outra ainda estava em seu pescoço. Desci beijos sobre seu colo e continuei a descer. Beijei demoradamente seu tórax. Desci mais e deslizei minha língua sobre seu corpo quente, o fazendo tremer. Mordisquei levemente ate chegar próximo a sua cintura. Mantive o contato da minha boca ate chegar próximo à calça. Chupei acima a sua virilha, onde a calça não cobria e o vi fechar os olhos. Sorri para mim mesma orgulhosa e feliz. Voltei minha boca, fazendo o caminho inverso, fazendo que minha mão fizesse o mesmo em suas costas. Senti as cicatrizes ganharem espaço em minhas mãos, deslizei meu dedo sobre a cicatriz maior e vi tudo voltar em minha mente. A primeira vez que as vi, na cozinha, ele tinha gritado comigo. Eu não deveria estar aqui. Então ele caiu. Eu não sei por que você ainda se importa. Desculpa Lucius. Você não sabe o que eu seria capaz de fazer para te ter? Caiu por mim. Eu me lembrei o porquê de estar aqui. Minha culpa. Minha culpa. Eu não deveria fazer isso com ele. Não se eu ainda tenho duvidas. Soltei-me dele, ainda vendo seus olhos avaliativos. Senti minhas pernas tremerem ao me levantar do chão. Ele me olhou como eu nunca o tinha visto. Perdido. Confuso. As lágrimas voltaram. Arrumei minha blusa tentando evitar o choro. Ele estava ali em minha frente, ajoelhado, sem camisa, sem muros, me correspondendo. E eu estava fugindo. Eu não poderia dizer nada, a não ser...
-Des... Desculpa. Isso não vai acontecer mais.
Desculpa por te fazer isso. Me aproximei. Abri a caixa branca e tirei a adaga de lá. Dei uma última olhada e a joguei sobre a pequena mesa de centro. Ela deslizou até atingir o meio da mesa.
- Obrigada pelo presente Lucius – as palavras saíram mais amargas do que eu queria.
Ele desviou seus olhos do seu livro e olhou para mim. Seus olhos diziam que ele estava tão feliz quanto eu. Voltou a olhar a mesa e encontrou a adaga ali, mas não reagiu da maneira que eu esperava. Ele voltou a ler seu livro como se nada tivesse acontecido. Mordi o interior da minha boca contendo minha raiva. Ele não renderia tão fácil as minhas provocações. Dei as costas à sala e fui para cozinha fingir fazer alguma coisa. Abri a porta da geladeira e fiquei ali fitando a garrafa de água.
- Porque você não foi ao dormitório do Victor? – eu soei calma.
Não me respondeu. Mal olhou para mim. Peguei a garrafa e fechei a geladeira. Servi uma boa quantidade de água em um copo e bebi. Ainda me sentia tonta, mas estava passando. Eu não tinha comido nada a noite, o que piorava a situação. Dei um último gole na água, coloquei o copo sobre a pia e devolvi a garrafa à geladeira. Fechei os olhos e suspirei, cansada e me sentindo estúpida. Encostei a testa sobre a superfície gelada da geladeira e tentei reunir coragem. Eu tinha começado isso, eu terminaria. Descolei minha testa da geladeira e andei ate Lucius com passos lentos e contados. Ele ainda prestava atenção no maldito livro. Parei a seu lado, próxima a sua cabeça e olhei para seu livro. Era mais um do Stephen King. Ele adorava livros do Stephen da mesma maneira que gostava dos poemas de Augusto dos Anjos. Respirei profundamente tirando as imagens dele lendo para mim quando ainda tinha dez anos. Não era hora de lembrar da minha infância. Cruzei os braços sobre minha bata e comecei a tirá-la em um processo lento. Fechei meus olhos para não poder olhar para ele. O tecido leve da blusa escorreu dos meus dedos. Percebendo que ele não fez nada continuei. Levei minha mão para trás para alcançar o feixe do meu sutiã. Senti uma mão moldar meu pulso que ainda estava em minhas costas. Abri meus olhos e o encontrei sentado, com pernas abertas ao meu redor, próximo para poder segurar minha mão. Seus olhos próximos a minha boca, mas seu olhar estava perfurando os meus.
- O que você esta fazendo? – sua voz saiu dura*.
- Terminando o que começou na piscina. Não é só isso que você quer de mim?
Destravei um colchete e senti o sutiã folgar um pouco do meu corpo. Ele apertou mais meus pulsos e se levantou. Ele era mais alto, o que me obrigou a olhar para cima. Nossos corpos se encostaram e me senti exalar. Com uma mão me prendendo em minhas costas, eu tentei me controlar.
- Claire... Você sabe que não é isso – ele disse mais ameno.
- Eu sei? – tirei as mãos do feixe e soltei meu braço ente meu corpo, mas ele continuou a me segurar – A única coisa que eu seu é que eu quero você e suas mentiras longe da minha vida!
Eu disse cada palavra em uma fúria cega e seca. Ele se adiantou e se abaixou. Passou seu nariz sobre meu rosto e chegou a meu pescoço.
- Eu minto? – cheirou a curva do meu pescoço – Não sou eu que uso pessoas, Claire. Dormindo com o Victor agora?
Aquilo calou fundo dentro de mim. Eu esperava isso dele. Voltou a me olhar e soltou os meus pulsos.
- Ele é tão diferente de você – eu não respondi sua pergunta – Ele me trata de igual pra igual. Sincero comigo. É diferente com ele...
- Eu sei como ele é diferente de mim... – ele cuspiu as palavras em minha cara.
- Hoje eu vi como eu me sinto com ele, quando ele me toca, quando ele me beija...
Lucius apertou meus ombros – Não ouse me falar como ele te toca – as palavras saíram entre seus dentes trincados.
- Não é só isso Lucius – as palavras saíram mais calmas do que a situação que me rodeava – Eu sinto que com ele é algo real, não é ilusório como eu me sinto com você. Essa obsessão que eu sinto por você não é amor. Eu vivi praticamente sete anos da minha vida me segurando em você, tendo você como espelho. Sentir algo por você era praticamente obrigatório pra mim. Agora eu sinto que você foi só uma pessoa que fez parte do meu passado, importante pra mim, mas não amor. Victor me mostrou que o mundo não é apenas minhas lembranças. É o presente também.
- Obrigatório? – ele disse como se não acreditasse nas palavras que eu disse – Então quer dizer que no dia na piscina também foi obrigatório?
- Eu tava confusa Lucius... – comecei um choro silencioso.
- Confusa? – ele apertou mais meus ombros – Você tava brincando comigo Claire? Era isso? - fiquei em silêncio, zonza com suas palavras – RESPONDE!
Ele gritou enquanto me balançava fortemente. As lágrimas verteram sobre meu rosto.
- Não Lucius. Eu só estava confusa. Cansada – as palavras saiam rápidas – Eu tinha fugido da enfermaria pra ver o Victor. A gente se beijou como eu nunca tinha o beijado. Então eu senti os sentimentos virem. Eu nunca pensei que poderia amá-lo, então, aquela noite quando eu te vi, eu tentei me agarrar ao que eu sentia no passado. Aquilo que eu realmente pensava que sentia. Mas não adiantou. A única coisa que vinha a minha mente era Victor – ele continuou me olhando como se não entendesse o que eu acabará de falar - Desculpa Lucius.
- Você o ama? – ele relaxou seus dedos em volta dos meus ombros – Você ama o Victor?
Ele soletrou cada palavra para mim fazendo meu coração se apertar dentro de mim.
- S... Sim. Eu o amo – eu menti.
E ele acreditou. Eu pude ver em seus olhos que ele acreditou. Eu ainda tinha aquela idiota esperança que ele soubesse que eu nunca poderia amar outra pessoa. Ele já fazia parte de mim. Eu nunca poderia amar outro. Mas ele acreditou nas minhas amargas mentiras. Ele tirou uma mão dos meus ombros e pousou em meu rosto. Colocou sua testa sobre a minha, fechou os olhos e me beijou. Um beijo curto, dura, seco, cheio de sentimentos e seco pelo que ele tinha ouvido. Partiu o beijo e continuou com a testa junta a minha com os olhos fechados.
- Eu vi a humanidade crescer, se construir. Eu vi homens se matarem por quase nada. Carreguei almas para alem da vida. Vim a terra. Conheci grandes homens. Fiz amigos. Os vi morrer. Fiz inimigos. Matei demônios. Quase morri. Eu já perdi tanto. Eu já me feri de formas inimagináveis. Mas nada... Nada se compara com a dor que é amar você.
As palavras cravaram profundamente na minha mente e em meu coração. Um soluço fundo escapou dos meus lábios. Ele se afastou me deixando mais desamparada do que eu já me sentia.
- Não se preocupe Claire, eu não vou estar mais na sua vida. Eu vou esquecer você – ele me disse isso como se não fossem nada.
Ele saiu do dormitório me deixando sozinha. Encolhi-me, me abraçando sobre o sutiã. Sentei no chão frio da sala e encostei minhas costas na mesa. Abracei minhas pernas e deixei aquela imensa dor me engolir. Eu senti como se algo, uma perna, um braço, o coração tivesse sido arrancado. Eu o perdi.
Ele me olhou com olhos furiosos. Eu senti medo, um medo que eu não poderia descrever. Não dele, mas de mim. Medo do que poderia fazer com ele tão perto, medo do que poderia falar. As palavras estavam ali. Todo esse tempo. Eu poderia falar para ele que eu sabia... Sabia que ele tinha caído por mim. Meu medo aumentou. Ele confirmaria. É claro que ele confirmaria! É tudo minha culpa. Então tudo desmoronaria. Eu saberia que tudo era minha culpa. Que ele era infeliz assim por minha causa. Que ele tinha desistido das suas crenças na única esperança de me ter. E que nesses últimos meses a única coisa que eu fiz foi culpá-lo pelos meus próprios erros. Ele ajoelhou na minha frente com olhos em agonia, espelhando os meus. Seus braços foram lentamente me envolvendo, me acolhendo. A pouca coragem que eu tinha se foi. Eu não falaria para ele agora, não agora. Deixei-me ser guiada por suas mãos e afagos. Ele moldou meu corpo ao seu e eu me deixei ir. Deitada sobre seu torço era como se tudo tivesse desaparecido. Um único sentimento prevaleceu. Culpa*.
- Desculpa. Desculpa Lucius – foram as únicas coisas que eu consegui falar - É tudo minha culpa. Eu não deveria estar aqui.
Ele apertou os fios dos meus cabelos como se compartilhasse a dor. Uma de suas mãos me apertou mais contra ele e me vi deitar mais sobre ele. Eu ouvia nitidamente seu coração bater, forte e acelerado. Ele passou sua mão sobre meu rosto, limpando as lágrimas, deixando um caminho terno no processo. Isso me consolou. Fechei meus olhos. Sua mão deslizou do meu ombro ate meu rosto, me segurando. Senti seus lábios sobre minha testa e me agarrei mais a ele. Beijou a ponta do meu nariz. Uma nostalgia morna me envolveu. Ele fazia isso ainda quando era pequena. Sorri involuntariamente ainda com os olhos fechados. A mão sobre minhas costas desceu mais e me puxou mais ao seu encontro. Minha mão espalmou sobre seu peito. Senti algo quente irradiar onde o tocava e me invadir. Beijou minha bochecha. Minhas unhas o arranharam lentamente pedindo por mais. Passou sua mão sobre meu rosto tirando as lágrimas que ainda estavam ali. Beijou meu queixo, o que me deixou um pouco desconcertada, percebendo o caminho que sua boca trilhava. Beijou calmamente meu pescoço, um leve chupão. Senti uma estranha necessidade se alastrar por mim, me fazendo arrepiar. Sua mão ajustou sobre meu ombro me trazendo mais para ele. Sua boca encontrou a volta do meu seio, deixando que sua língua deslizasse pelo local. Apertei sua nuca, afundando minhas unhas, implorando que continuasse. Como se brincasse comigo ele parou, deslizou sua língua até o vão do meu pescoço, abriu a boca e o sugou. Senti todas as barreiras sendo derrubadas. Deslizou sua boca sob minha pele e chegou a minha orelha. Ele soprou o ar quente e arrítmico da sua boca em minha pele. Senti sua aproximação e senti meu coração bater mais rápido. Mordeu, como uma tortura lenta, o lóbulo da minha orelha, fazendo todo o meu corpo se retesar de prazer. Eu preciso de mais... “Lucius”. Eu deixei seu nome escapar entre meus lábios. Ele se afastou repentinamente me fazendo imaginar o que ele faria em seguida. Mas não fez. Abri meus olhos para encontrar os seus me encarando. Eu nunca me acostumaria com aquele tom azul. Ele desceu sua boca a minha em um processo lento, ainda me olhando nos olhos. Eu senti todo aquele sentimento, todo o meu amor por ele, me invadir apenas com seu olhar. Ainda o olhava quando beijou o canto da minha boca, me provocando. Fechei meus olhos quando senti sua língua passar sobre meu lábio inferior e o morder. Abri minha boca ligeiramente e senti sua lingua me invadir. Um beijo lento. Ele não aquentou tanto quanto eu. Passou sua mão dos meus ombros para meu cabelo e forçou minha cabeça para trás fazendo minha boca se abrir mais. Sua língua invadiu mais minha boca e colidiu com a minha. Transformando o beijo mais profundo e sagaz. Enquanto isso, com a mesma mão que tinha puxado meu cabelo, ele a deslizou sobre minha blusa chegando ao ponto em que minha barriga não estava coberta. Passou seus dedos sobre minha pele, enquanto ainda me beijava, e a deslizou ate o pequeno espaço que minha calça jeans permitia. Senti meu corpo reagir, me arqueei querendo mais. Arrepios me dominaram. Sua mão vagou mais um pouco perto agora do zíper, mas por baixo do tecido. Tirei minha boca da dele involuntariamente e sussurrei o ar. Ele se aproveitou e baixou sua boca em meu pescoço, o chupando lentamente enquanto sua mão voltava para minha cintura. Apertei em reprovação com que ele acabara de fazer e em resposta subiu sua mão passando por toda a extensão da minha blusa até chegar a meu seio. Sugou meu pescoço ao mesmo tempo em que apertava meu seio. Os arrepios voltaram, dessa vez mais forte. Foi descendo delicadamente sua boca ate o meu colo e o beijou. Foi ate meus ombros e beijou a ferida que fora deixada a mostra pela blusa. Apertei seu pescoço querendo que voltasse a me beijar. Tentei guiá-lo novamente ate minha boca, mas ele não o fez. Eu podia sentir seus olhos em mim, me averiguando, mas eu me neguei a abrir os olhos. Subiu a tecido da minha blusa vagarosamente, apreciando cada momento. Espalmou sua mão contra minha barriga e deixou que ela se perdesse ali. Quando percebi que sua mão aproximava do meu sutiã senti meu corpo sofrer espasmos. Soltei todo ar que prendia em meus pulmões e senti a boca de Lucius voltar a minha. O beijo foi mais lento enquanto ele ainda passava a mão em minha cintura, aproveitando a pequena vantagem de eu estar quase seminua. Mas eu não deixaria essa pequena desvantagem para mim. Parei o beijo. Minhas mãos foram ate a barra da sua blusa, ainda de joelhos a sua frente, e comecei a subi-la. Seus olhos estavam em mim em todo processo. Ele me ajudou a tirá-la de seu ombro e a jogou ao seu lado. Ele me olhou com duvida e medo, eu já não raciocinava mais. Coloquei minhas mãos em seu pescoço e o puxei para mim. O beijei. Com paixão. Desejo. Amor. Louca por mais. Senti meu lábio inchar ainda sob os seus devido à força do beijo. Com uma mão ainda sobre seu pescoço, eu deslizei a outra em seu torço. O beijei, mas sem perder a concentração com que fazia com minha mão. Deixei que ela apertasse levemente o seu peito, o sentindo arfar entre nossos beijos. Desci mais sentindo meus dedos moldar seu abdômen definido. Por último arrastei minhas unhas sobre sua pele ate o fim, chegando a sua calça. Ele se encolheu demonstrando também seu desejo. Isso me incentivou mais. Parei de beijá-lo e subitamente comecei a descer minha boca ate seu pescoço, me permitindo cravar meus dentes levemente. Ele sussurrou baixo como se gostasse. Minha mão segurava o começo da sua calça enquanto a outra ainda estava em seu pescoço. Desci beijos sobre seu colo e continuei a descer. Beijei demoradamente seu tórax. Desci mais e deslizei minha língua sobre seu corpo quente, o fazendo tremer. Mordisquei levemente ate chegar próximo a sua cintura. Mantive o contato da minha boca ate chegar próximo à calça. Chupei acima a sua virilha, onde a calça não cobria e o vi fechar os olhos. Sorri para mim mesma orgulhosa e feliz. Voltei minha boca, fazendo o caminho inverso, fazendo que minha mão fizesse o mesmo em suas costas. Senti as cicatrizes ganharem espaço em minhas mãos, deslizei meu dedo sobre a cicatriz maior e vi tudo voltar em minha mente. A primeira vez que as vi, na cozinha, ele tinha gritado comigo. Eu não deveria estar aqui. Então ele caiu. Eu não sei por que você ainda se importa. Desculpa Lucius. Você não sabe o que eu seria capaz de fazer para te ter? Caiu por mim. Eu me lembrei o porquê de estar aqui. Minha culpa. Minha culpa. Eu não deveria fazer isso com ele. Não se eu ainda tenho duvidas. Soltei-me dele, ainda vendo seus olhos avaliativos. Senti minhas pernas tremerem ao me levantar do chão. Ele me olhou como eu nunca o tinha visto. Perdido. Confuso. As lágrimas voltaram. Arrumei minha blusa tentando evitar o choro. Ele estava ali em minha frente, ajoelhado, sem camisa, sem muros, me correspondendo. E eu estava fugindo. Eu não poderia dizer nada, a não ser...
-Des... Desculpa. Isso não vai acontecer mais.
Desculpa por te fazer isso. Me aproximei. Abri a caixa branca e tirei a adaga de lá. Dei uma última olhada e a joguei sobre a pequena mesa de centro. Ela deslizou até atingir o meio da mesa.
- Obrigada pelo presente Lucius – as palavras saíram mais amargas do que eu queria.
Ele desviou seus olhos do seu livro e olhou para mim. Seus olhos diziam que ele estava tão feliz quanto eu. Voltou a olhar a mesa e encontrou a adaga ali, mas não reagiu da maneira que eu esperava. Ele voltou a ler seu livro como se nada tivesse acontecido. Mordi o interior da minha boca contendo minha raiva. Ele não renderia tão fácil as minhas provocações. Dei as costas à sala e fui para cozinha fingir fazer alguma coisa. Abri a porta da geladeira e fiquei ali fitando a garrafa de água.
- Porque você não foi ao dormitório do Victor? – eu soei calma.
Não me respondeu. Mal olhou para mim. Peguei a garrafa e fechei a geladeira. Servi uma boa quantidade de água em um copo e bebi. Ainda me sentia tonta, mas estava passando. Eu não tinha comido nada a noite, o que piorava a situação. Dei um último gole na água, coloquei o copo sobre a pia e devolvi a garrafa à geladeira. Fechei os olhos e suspirei, cansada e me sentindo estúpida. Encostei a testa sobre a superfície gelada da geladeira e tentei reunir coragem. Eu tinha começado isso, eu terminaria. Descolei minha testa da geladeira e andei ate Lucius com passos lentos e contados. Ele ainda prestava atenção no maldito livro. Parei a seu lado, próxima a sua cabeça e olhei para seu livro. Era mais um do Stephen King. Ele adorava livros do Stephen da mesma maneira que gostava dos poemas de Augusto dos Anjos. Respirei profundamente tirando as imagens dele lendo para mim quando ainda tinha dez anos. Não era hora de lembrar da minha infância. Cruzei os braços sobre minha bata e comecei a tirá-la em um processo lento. Fechei meus olhos para não poder olhar para ele. O tecido leve da blusa escorreu dos meus dedos. Percebendo que ele não fez nada continuei. Levei minha mão para trás para alcançar o feixe do meu sutiã. Senti uma mão moldar meu pulso que ainda estava em minhas costas. Abri meus olhos e o encontrei sentado, com pernas abertas ao meu redor, próximo para poder segurar minha mão. Seus olhos próximos a minha boca, mas seu olhar estava perfurando os meus.
- O que você esta fazendo? – sua voz saiu dura*.
- Terminando o que começou na piscina. Não é só isso que você quer de mim?
Destravei um colchete e senti o sutiã folgar um pouco do meu corpo. Ele apertou mais meus pulsos e se levantou. Ele era mais alto, o que me obrigou a olhar para cima. Nossos corpos se encostaram e me senti exalar. Com uma mão me prendendo em minhas costas, eu tentei me controlar.
- Claire... Você sabe que não é isso – ele disse mais ameno.
- Eu sei? – tirei as mãos do feixe e soltei meu braço ente meu corpo, mas ele continuou a me segurar – A única coisa que eu seu é que eu quero você e suas mentiras longe da minha vida!
Eu disse cada palavra em uma fúria cega e seca. Ele se adiantou e se abaixou. Passou seu nariz sobre meu rosto e chegou a meu pescoço.
- Eu minto? – cheirou a curva do meu pescoço – Não sou eu que uso pessoas, Claire. Dormindo com o Victor agora?
Aquilo calou fundo dentro de mim. Eu esperava isso dele. Voltou a me olhar e soltou os meus pulsos.
- Ele é tão diferente de você – eu não respondi sua pergunta – Ele me trata de igual pra igual. Sincero comigo. É diferente com ele...
- Eu sei como ele é diferente de mim... – ele cuspiu as palavras em minha cara.
- Hoje eu vi como eu me sinto com ele, quando ele me toca, quando ele me beija...
Lucius apertou meus ombros – Não ouse me falar como ele te toca – as palavras saíram entre seus dentes trincados.
- Não é só isso Lucius – as palavras saíram mais calmas do que a situação que me rodeava – Eu sinto que com ele é algo real, não é ilusório como eu me sinto com você. Essa obsessão que eu sinto por você não é amor. Eu vivi praticamente sete anos da minha vida me segurando em você, tendo você como espelho. Sentir algo por você era praticamente obrigatório pra mim. Agora eu sinto que você foi só uma pessoa que fez parte do meu passado, importante pra mim, mas não amor. Victor me mostrou que o mundo não é apenas minhas lembranças. É o presente também.
- Obrigatório? – ele disse como se não acreditasse nas palavras que eu disse – Então quer dizer que no dia na piscina também foi obrigatório?
- Eu tava confusa Lucius... – comecei um choro silencioso.
- Confusa? – ele apertou mais meus ombros – Você tava brincando comigo Claire? Era isso? - fiquei em silêncio, zonza com suas palavras – RESPONDE!
Ele gritou enquanto me balançava fortemente. As lágrimas verteram sobre meu rosto.
- Não Lucius. Eu só estava confusa. Cansada – as palavras saiam rápidas – Eu tinha fugido da enfermaria pra ver o Victor. A gente se beijou como eu nunca tinha o beijado. Então eu senti os sentimentos virem. Eu nunca pensei que poderia amá-lo, então, aquela noite quando eu te vi, eu tentei me agarrar ao que eu sentia no passado. Aquilo que eu realmente pensava que sentia. Mas não adiantou. A única coisa que vinha a minha mente era Victor – ele continuou me olhando como se não entendesse o que eu acabará de falar - Desculpa Lucius.
- Você o ama? – ele relaxou seus dedos em volta dos meus ombros – Você ama o Victor?
Ele soletrou cada palavra para mim fazendo meu coração se apertar dentro de mim.
- S... Sim. Eu o amo – eu menti.
E ele acreditou. Eu pude ver em seus olhos que ele acreditou. Eu ainda tinha aquela idiota esperança que ele soubesse que eu nunca poderia amar outra pessoa. Ele já fazia parte de mim. Eu nunca poderia amar outro. Mas ele acreditou nas minhas amargas mentiras. Ele tirou uma mão dos meus ombros e pousou em meu rosto. Colocou sua testa sobre a minha, fechou os olhos e me beijou. Um beijo curto, dura, seco, cheio de sentimentos e seco pelo que ele tinha ouvido. Partiu o beijo e continuou com a testa junta a minha com os olhos fechados.
- Eu vi a humanidade crescer, se construir. Eu vi homens se matarem por quase nada. Carreguei almas para alem da vida. Vim a terra. Conheci grandes homens. Fiz amigos. Os vi morrer. Fiz inimigos. Matei demônios. Quase morri. Eu já perdi tanto. Eu já me feri de formas inimagináveis. Mas nada... Nada se compara com a dor que é amar você.
As palavras cravaram profundamente na minha mente e em meu coração. Um soluço fundo escapou dos meus lábios. Ele se afastou me deixando mais desamparada do que eu já me sentia.
- Não se preocupe Claire, eu não vou estar mais na sua vida. Eu vou esquecer você – ele me disse isso como se não fossem nada.
Ele saiu do dormitório me deixando sozinha. Encolhi-me, me abraçando sobre o sutiã. Sentei no chão frio da sala e encostei minhas costas na mesa. Abracei minhas pernas e deixei aquela imensa dor me engolir. Eu senti como se algo, uma perna, um braço, o coração tivesse sido arrancado. Eu o perdi.
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