Moira ainda me encarava, com suas mãos na cintura, esperando que eu explicasse o que tinha acabado de acontecer. Eu ainda estava submersa, alheia a situação. Eu não acreditava no que Lucius tinha me dito. Você sabe por quê. E o que isso deveria significar pra mim?
- Então o que aconteceu? E que cara é essa? – Moira me perguntou impaciente.
Eu olhei para ela e me desfiz dos meus pensamentos.
- Vamos pra aula, ta? – eu torci que ela não tocasse mais no assunto, mas aí não seria a Moira que estaria na minha frente.
- Desculpa amiga, mas você vai ter que me explicar o que aconteceu aqui!
Eu revirei os olhos.
- Eu te conto... – peguei minha mochila, andei até ela e segurei seu braço, puxando-a para porta – no caminho. Agora vamos que a gente já ta atrasada.
Eu contei a história bem resumida. A ‘forte amizade’ entre a Luiza e Lucius, a forma como ela me tratou na quadra e como Lucius explicou a relação dos dois. Eu não contei a parte da Bianca e nem a frase do dia “Você sabe por quê”. Ela parecia curiosa, tanto quanto eu, sobre a amizade dos dois, mas eu sabia tanto quanto ela sobre o assunto. Nada.
Chegamos ao pátio. Ele era imenso, o piso era feito de pedras, mas era liso para o treinamento. Ao seu redor havia o lindo jardim. As flores divagavam entre margaridas, rosas, flores do campo e as tulipas. Em algumas partes havia bancos brancos de madeira – isso me lembrou vagamente o parque perto do orfanato. Não pense nisso.
Celina se aproximou de nós, mas dessa vez sem o Sam. Ele estava novamente conversando com Julio. Nós continuamos a conversa, já que Irial ainda não tinha chegado.
- Então temos uma nova vadia na área?! – Moira disse pensativa e calculista.
- Dados aos fatos, acho que sim. – eu disse
- Quem é a nova vadia da vez? – Celina brincou.
- Luiza Minogue – Moira respondeu séria.
- A Minogue?! – Celina perguntou incrédula.
- Você acredita que ela ta dando em cima do Lucius e ainda por cima brigou com a Claire por causa disso. – Moira contou como se fosse a melhor fofoca do ano. Talvez não fosse uma boa idéia ter contado pra ela.
- Brigou!? – Celina perguntou chocada.
Eu olhei para Moira por um instante, mas ela só deu de ombros.
- A Moira ta exagerando, Céu... – eu olhei duramente para Moira novamente e voltei a olhar a Celina – Foi mais uma discussãozinha do que briga.
- Você vai me contar tudo agora! – Celina praticamente soletrou “agora”.
Mas antes que eu tivesse tempo de explicar, Irial chegou. Moira parou de conversar imediatamente e olhou em direção a ele. Um sorriso espontâneo apareceu em seu rosto.
- Agora vocês me dão licença que eu tenho uma coisa muito importante pra fazer – ela sorriu maliciosamente para mim e para Celina e depois foi em direção a Irial.
Eu observei o andar calmo e pretensioso de Moira até Irial. Ela soltou seus cabelos rapidamente, passou os dedos entre eles enquanto caminhava, sorriu genuinamente e parou em frente a ele. Ele tinha a olhado por toda a caminhada, parecendo ter a mesma admiração que ela, mas de maneira disfarçada. Moira sorriu quando começaram a conversar e sorriu ainda mais quando encostou seus dedos no braço dele. Mas Moira tinha todas as razões para fazê-lo. Irial era um dos mais velhos entre as dominações, assim como Sura, mas diferente dela ele tinha as asas brancas. Eram lindas, suas asas estavam estendidas, em plena forma. Se seus olhos não mostravam todo o entusiasmo com a situação, bem, suas asas mostravam. Estavam um pouco agitadas, eu podia ver algumas penas pálidas se desprenderem no processo. Eu ri um pouco do que via. Talvez eu estivesse um pouco errada sobre o fato de Moira levar Irial para a festa de iniciação.
Irial riu de algo que Moira disse e eu pude notar as covinhas em seu rosto. Ele era tão alto quanto Lucius, seu cabelo era castanho escuro e um pouco bagunçado, seus olhos eram tão castanhos quanto seu cabelo. Ele sempre estava com barba para fazer, usava uma calça de poliéster preta e uma regata preta, assim como todos os principados. Sua regata deixava a vista seus braços, que tinha um modesto contorno de músculos, mas que combinava com sua estrutura. E o mais importante, combinava com sua habilidade: espadas.
- Ela nunca desiste. – Celina disse com os braços cruzados e a expressão divertida – Eu vou pegar minha espada Claire. Mas eu vou querer todos os detalhes depois dessa discussão com a Minogue.
Ela me olhou, se fingindo de brava, depois se afastou e foi até o suporte das espadas. Eu voltei a olhar a Moira que parecia ter acabado de conversar com Irial e também estava indo pegar sua espada. Agora era minha vez de conversar com Irial.
Eu caminhei ligeiramente até Irial, querendo não atrapalhá-lo em seu treino. Ele me viu chegar e sorriu um sorriso convidativo e simpático.
- Finalmente você veio treinar! – ele disse animado.
- Eu temo que não – eu disse um pouco envergonhada depois de todo aquele entusiasmo. Ele me olhou um pouco mais e esperou que eu explicasse – Eu não estou me sentindo muito bem hoje e com um pouco de dor de cabeça. Eu queria ser dispensada da aula hoje. Posso?
- Eu vou dispensá-la hoje, mas só porque você é do segundo nível e deveria estar em outro treino e não no meu. – ele cruzou os braços e chegou um pouco mais perto – e também porque você acabou de ter um treino com o Lucius e bem, isso já explica sua dor de cabeça.
Eu não pude segurar a risada espontânea que saiu da minha boca. Eu não podia culpar a Moira de gostar desse cara, ele parecia inteligente e engraçado. Uma combinação atraente demais para uma pessoa só. Eu sorri para ele e agradeci. Ele acariciou rapidamente meu braço, se despedindo e virou para o resto da turma que já estava esperando para começar o treino.
Eu me afastei da turma e me sentei embaixo de uma das grandes árvores que tinha no jardim. Era um pouco distante do pátio, mas ainda assim eu podia ver o treino. Os principados giravam suas espadas no ar, em gestos sincronizados, copiando os mesmos gestos que Irial fazia. Moira parecia a mais empenhada da turma, ela girava e cortava o ar com graciosidade e perfeição. Sam não ficava para trás, enquanto Celina não parecia tão confiante assim, ela sabia fazer a combinação de gestos melhor que a maioria.
Mas eu não prestava tanta atenção assim no que eles estavam fazendo. Minha mente ainda estava no refeitório e nas palavras de Lucius. No momento em que ele as disse a única coisa que veio a minha cabeça era que aquilo era uma forma estranha e indireta de dizer que gostava de mim. Mas sabendo como Lucius era eu sabia que poderia ser outra coisa.
Eu passei praticamente um ano e meio em coma e depois um ano em recuperação e reabilitação. Eu tinha recuperado todos os meus movimentos e conseguido seguir com as aulas, mas eu não tinha recuperado minha memória totalmente. Principalmente as memórias mais próximas ao acidente. Eu não me lembrava de nada do acidente, como eu tinha parado no meio da avenida, quem havia me atraído ate ali ou quem tinha tentado me matar. Mas não envolvia só o acidente. Eu não me lembrava muito do que tinha acontecido entre eu e Lucius um pouco antes do acidente. Às vezes essas lembranças vinham em forma de sonhos ou visões em plena luz do dia, mas eram raras e nem sempre claras. Elas não tinham nenhum contexto ou eram lembranças aleatórias, então eu não as entendia muito bem. E o mais provável era que “Você sabe por que” envolvia isso, o meu passado. Porém, como sempre, Lucius era enigmático demais para falar alguma verdade inteira ou me esclarecer algo. E como sempre eu ficava a deriva da minha própria vida.
A dor de cabeça aumentou e eu me levantei, mantendo minhas costas encostadas no tronco da árvore e observando o treino. Todos continuavam a deslizarem suas espadas no ar, montando lutas imaginárias e carregando o peso da espada e o sonho de uma futura vitória. Eu ri um riso contido. Era a vez de carregar o peso da minha vida e correr atrás das minhas próprias vitórias.
- Você não vai jantar com a gente? – Celina perguntou aborrecida, depois de eu negar pela terceira vez.
- Não Céu. Eu to sem fome e com dor de cabeça, mas amanha eu te conto tudo que você quiser. – Eu sorri para ela. Ela retornou meu sorriso com a promessa que lhe fiz.
- E também eu posso te contar tudo Céu, sem problema algum – Moira disse sorrindo, mas eu sabia que ela estava cansada depois o termino do treino.
- Nem se atreva! – eu disse brincando – Além disso, eu posso contar detalhes que você não sabe.
Eu ri da expressão curiosa de Moira, mas eu me despedi antes que elas fizessem mais perguntas. Eu deixei o refeitório e fui para a quadra. Depois atravessei a área das piscinas e entrei no meu novo dormitório. As luzes estavam apagadas, denunciando que não havia ninguém ali. Andei pela pequena sala e fui para o meu quarto. Peguei minha toalha e fui ao banheiro, tomar banho. Água quente correu minhas costas, relaxando o meu corpo, ensaboei-me lentamente, tentando dissolver todo meu estresse, lavei meus cabelos em um processo lento e demorado. Escovei meus dentes e sai do box. Me enxuguei e fui novamente ao meu quarto. Eu sabia que não era a decisão mais sábia a se tomar, mas eu precisava sentir a água da piscina sob meus pés. Por isso coloquei meu biquíni branco com listras azul marinho e me enrolei na toalha de praia que eu tinha ganhado de Celina um tempo atrás. Ela era maior que as outras e por isso tampava completamente meu corpo. Eu saí do dormitório, percebendo que Lucius ainda não tinha chegado, e cheguei à piscina maior.
Estendi minha toalha sobre a beira da piscina e me sentei ali. A água morna atingiu meus pés quando os coloquei na piscina. Eu poderia sentir toda a minha frustração se esvair com esse pequeno gesto. Era assim que eu me sentia quando eu fazia reabilitação aqui, calma e tranqüila. E desde então, quando eu queria um refugio do mundo real, eu vinha para cá, meu pequeno mundo azul-piscina. Eu fechei meus olhos e arqueei minha cabeça para trás, me apoiando com os meus braços. Eu senti uma pequena brisa se arrastar pelo espaço e com isso uma voz soou perto de mim.
- Claire – uma voz masculina me falou. Eu abri meus olhos e vi a pessoa que me encarava, com ar encantado.
- Jeremi!? – eu me sentei de forma que eu pudesse olhar Jeremi melhor. Ele sorriu e vi covinhas se formarem em seu rosto – Jeremi! Senta aqui.
Eu bati na toalha, em um espaço ao meu lado, o convidando a sentar ao meu lado. Ele não hesitou e sentou no lugar que eu tinha lhe mostrado. Já ao meu lado, ele olhou das pontas dos meus pés até o meu rosto.
- Eu já lhe disse como você fica linda em um biquíni? – eu assenti em resposta, rindo, me lembrando quando ele me fazia esse mesmo elogio quando treinava na piscina com Camille na reabilitação – Então eu vou dizer de novo. Você fica linda de biquíni, menina dos olhos estranhos.
Eu me senti encolher um pouco sobre a toalha, me sentindo envergonhada. Mas Jeremi era assim sempre e com todas. Foi ele que me deu esse apelido “menina dos olhos estranhos” e como um vendaval, tinha se espalhado por todo o Instituto. Claro que nem todos me chamavam assim, mas a maioria sim.
- Então o que você veio fazer aqui? – eu disse tentando trocar o tema do assunto.
- Conversar com você, não posso? – ele fingiu estar ofendido. Eu ri e bati em seu ombro.
- Claro que pode, mas eu te conheço Jeremi. Sempre tem um motivo. – eu arqueei minha sobrancelha, lhe pressionando a dizer a verdade.
- Mas eu sou tão previsível assim? – eu revirei os olhos pelo comentário – Ta bom vou dizer logo. Preparada?
Eu assenti a cabeça um pouco hesitante.
- Você quer ir comigo no baile de iniciação? – seu sorriso quebrou um pouco vendo minha expressão. Eu estava lisonjeada, mas sabia que não era tão fácil assim.
- Jeremi – eu passei uma mexa de cabelo atrás da minha orelha – eu realmente queria ir com você, mas você também é um iniciante e nós não podemos subir no palco juntos. Tem que ir um de cada vez você sabe. E também tem sua família que não ia ficar nem um pouco feliz de ver você trocar um deles por mim.
Ele deu um sorriso turvo e isso me fez por um momento me arrepender de ter dito não.
- Mas é por isso que eu to te chamando para ir comigo. Minha família não vai poder vir, então eu pensei que talvez como você não tem família e como a minha não vai vir, a gente poderia ir junto. – Foi nesse momento que o meu coração se apertou.
- Eu também queria ir com você Jeremi, mas não daria certo com toda aquela disciplina e regras do Conselho, não ia ser muito bom entrarem dois iniciantes de uma vez e estragar toda uma tradição do Instituto – eu pôs minhas mãos sobre a dele – e você poderia ir com a Moira.
- Eu já falei com ela – ele disse todo carrancudo – Mas na cabeça doentia dela, ela vai com Irial no baile. Foi aí que ela me disse que você iria sozinha e que eu deveria ir com você.
Minha culpa amenizou um pouco com o que ele disse.
- Então quer dizer que eu sou sua segunda opção? – eu disse um pouco brava.
Ele me encarou sério – Você sempre será minha primeira opção e só me dizer quando e como que eu farei qualquer coisa para tê-la.
- Cala boca Jeremi – então nós dois rimos enquanto ele tentava me abraçar numa tentativa de pedir desculpas. Eu me afastava, mas eu estava mole com tanto que eu ria.
Nesse instante eu vi um vulto atravessar o vão da parede de vidro, que dividia a área das piscinas do ginásio. O vulto ganhou nome quando se aproximou mais. Lucius.
Ele nós observeu de longe com uma cara séria, mais séria que o normal. Ele passou do nosso lado, enquanto o olhávamos em silêncio. Mesmo com certa distância eu pude ver uma de suas mãos fecharam fortemente, denunciando sua raiva. Ele entrou no corredor lateral e sumiu de nossas vistas. Eu voltei a olhar a Jeremi.
- Eu acho melhor eu ir indo. – eu disse um pouco preocupada.
- Eu entendo – Jeremi simplesmente disse. Ele se levantou e eu o segui, me levantando e pegando minha toalha do chão. Me enrolei nela novamente e olhei Jeremi novamente.
- Até mais – eu me aproximei e beijei seu rosto.
Ele me segurou em um abraço rápido e também se despediu. Eu o vi se afastar através do vidro embaçado que separava o ginásio e sair pela porta dupla. Eu fui andando calmamente até o corredor e avistei a porta do dormitório. Ela ainda estava um pouco aberta, em um sinal que ele me esperava. Eu a abri lentamente, entrei no dormitório e a fechei. Eu já tinha visto Lucius, que estava de costas para mim, encarando o chão. Ele se virou para mim e eu pude ver seu rosto fechado e tencionado.
- Você nunca mais vai falar com ele. Não sozinha – sua voz aumentou consideravelmente.
E toda a tranqüilidade que eu tinha conseguido se foi.
- Você ta falando sério? – eu o olhei duramente e pude perceber que ele ainda estava com raiva – Eu vou ter que repetir o que eu te disse mais cedo? Você não manda na minha vida Lucius e não vou parar de falar com um amigo meu por sua causa.
Ele se aproximou perigosamente de mim. – Não mando em você? Você acha que eu to me referindo a você de forma possessiva? Eu to tentando é te proteger, garota! Mas parece que você não entende isso.
- E porque eu deveria entender, an? – eu bati minha mão em seu torço – Você mal me explica as coisas que aconteceram e eu deveria entender?
Ele permaneceu em silêncio, mas eu continuei despejando tudo que eu sentia – Você me fala que eu deveria saber o porquê, mas mal fala comigo. Todo mundo parece saber algo de você menos eu. Me trata como se eu fosse qualquer uma... Pior, como se me odiasse, então de uma hora para outra era como se nada tivesse acontecido, como se ainda estivéssemos no orfanato. Isso por que, me fala, por quê?
Eu gritei para ele. Eu senti as lágrimas escorrerem no meu rosto, quentes e cruéis. Lucius ainda me encarava, com a mesma raiva.
- Pelo menos se você se esforçasse mais, Claire, mas não... – ele parou como se não tivesse coragem de continuar.
- Agora a culpa é minha?! – eu gritei enquanto as lágrimas aumentavam – Claro que é minha. E sempre mais fácil se ausentar do que encarar a verdade, ne Lucius?
Ele segurou meu rosto entre suas mãos e me disse em um sussurro – Você acha que eu me ausento da culpa, Claire? Eu a encaro todos os dias e você não sabe como isso me dói.
Eu não consegui dizer mais nada depois disso. Nós ficamos em silêncio enquanto ele ainda segurava meu rosto. Ele me encarava e eu podia sentir através do seu toque que ele tentava me dizer algo com aquilo. Ele baixou suas mãos e pareceu amaldiçoar tudo que havia acontecido. Ele começou a sair, mas eu o impedi segurando sua mão. Ele me olhou em uma última tentativa de falar comigo.
- Só me fala por quê? – minha voz saiu rouca e baixa.
- Você deveria saber o porque, você já soube um dia. – seus olhos estavam tristes e em sua voz eu pude notar dor e magoa.
Assim ele me deixou na sala, se trancando em seu próprio quarto e me deixando mais frustrada do que antes. Eu encarei a porta de seu quarto. Eu queria gritar, berrar e dizer tudo que ainda estava entalado na minha garganta, mas já era tarde e eu tinha que dormir. Eu andei até o meu quarto, um pouco entorpecida, me deitei sobre o meu lençol, ainda de biquíni e deixei que o sono tomasse conta de mim. Futuramente eu saberia o porquê e seria da forma mais dolorosa.
******
Eu encarava o teto do meu quarto, podia sentir o cheiro amadeirado dele enquanto ele me embalava entre seus braços. Eu me sentia protegida e confortável ali. Ele era o único que me entendia e que eu realmente amava. Ele pegou uma das mexas do meu cabelo e brincou entre seus dedos. Nós estávamos deitados em minha cama, fingindo que acima de nós tinha um imenso céu estrelado submerso em um azul-anil. Era sempre assim quase todas as noites. Ele me protegia dos outros e principalmente de mim mesma. Eu não podia demonstrar meus medos para o orfanato, se não seria considerada louca. Então ele sempre estava ali me afastando dos meus ataques e me mantendo firme. Era só com ele que eu poderia ser eu mesma e alguns momentos ser feliz.
Ele beijou minha têmpora e sussurrou em meu ouvido:
- Eu tenho que ir – ele disse carinhosamente.
- Mas já? – eu disse um pouco emburrada. Eu me sentei e o encarei de volta. Ele sorriu de jeito presunçoso e convencido. Eu bati em sua barriga. Ele se encolheu, fingindo sentir dor.
-Idiota! – eu sibilei para ele.
Ele se sentou na minha frente, pegou uma mexa de cabelo que estava em meu rosto e passou atrás da minha orelha. Ele deixou sua mão assim, acolhendo meu rosto e acariciando minha bochecha com seu polegar.
- Eu sempre vou deixar um pedaço meu com você, menina dos olhos estranhos, sempre. – ele soou calmo e carinhoso.
-Eu sei Lucius. – e como sempre eu encontraria um pedaço dele ao meu lado no outro dia, uma tulipa negra sobre o lençol, perto do meu coração.
Eu abri meus olhos lentamente. Minha cabeça doía e eu podia sentir que meus olhos estavam inchados. Todo mundo perceberia que eu estive chorando, mas eu não me importava. Eu me virei sobre o colchão e senti algo espetar minhas costas. Minhas mãos foram ao encontro dela espontaneamente. Eu já sabia o que era quando a peguei. Meus olhos encaravam novamente a mesma lembrança que Lucius sempre me deixava. Uma tulipa. Ele parecia pedir desculpa de alguma forma, mas eu não o perdoaria tão facilmente. Eu peguei a tulipa, me levantei da cama e fui até minha escrivaninha, abrindo uma de suas gavetas. Eu deu uma última olhada na flor que estava em minhas mãos. Ela era negra, assim como as asas de Lucius fora um dia, mas hoje a única coisa que ela me lembrava era como eu me sentia. Triste, negra por dentro. Eu coloquei a tulipa dentro da gaveta e a fechei. Eu estava atrasada de novo, eu notei ao olhar no relógio e pior, para aula da Luiza. A última coisa que eu queria fazer era encarar aquela vadia, mas eu não tinha muitas escolhas.
Eu entrei na aula tentando não chamar a atenção, mas Minogue não estava disposta a deixar isso acontecer. Ela parou a aula no momento em que eu abri a porta.
- Senhorita Bauer, chegando atrasada de novo? – todos olharam para mim. Eu odeio essa mulher – Eu não vou perdoar todos seus atrasos como a Helena, mas dessa vez eu vou deixar passar. Pode se sentar.
Ela apontou uma cadeira bem próxima a ela. Eu me odiei por chegar atrasada, ela me torturaria até o final da aula. Já não bastava o que eu tinha passado ontem. Ela retomou a aula enquanto em me dirigia a minha mesa.
- Como eu dizia, antes de ser interrompida, os Nefilins se dividem em cinco grupos: anjos caídos, demônios, vampiros, djins e elfos. Sendo que todos derivam apenas de um grupo: As dominções ou no termo usado pelos humanos, anjos. Todos já sabem a história original, assim como a Helena já tinha falado, tudo começou com Lúcifer e sua vontade de se tornar tão poderoso como Deus. Devido a isso ele foi expulso dos céus. Mas o que nem todos sabem é que ele não foi mandado ao inferno, que de fato nem existe, e sim para viver entre os humanos como igual. Sem seus poderes ou asas. Ele foi considerado um anjo caído. Mas ele não foi o único a ser expulso do céu. Com o passar do tempo Lúcifer começou a juntar um grupo de anjos caídos e formar uma espécie de batalhão, que alto se denominava “Corte Negra”. A partir daí muitas coisas acontecera. Deus, para punir esse grupo, ordenou que todos os anjos caídos fossem mortos pelos Dominações, anjos que a partir daquele momento viveriam na terra e exterminariam esse perigo. Porém as coisas não foram tão fáceis como se imaginava, muitos conseguiram fugir e se esconder, e pior, usavam os humanos como escudo. Em última tentativa Deus condenou todos os anjos caídos que se associassem a “Corte Negra” a uma pós-vida: ele andaria como os mortos e sua pele seria tão branca como um cadáver, ele não comeria mais e se alimentaria da podridão humana. Foi assim que se originaram os demônios, criaturas que sobrevivem do mau e assombram aqueles que se envolvem com o submundo. Mas o importante é saber que nem todos os anjos caídos se transformam em demônios ou estão associados a “Corte Negra”. Alguns realmente queriam viver entre humanos, por inveja ou curiosidade, e acabavam sendo expulsos por isso. O que mais intriga a todos é que não podemos ver a transformação de um anjo caído em demônio, apenas um tipo de pessoa pode notar essa transformação: os Blinds. – ela olhou para mim e sorriu – Mas isso eu falarei na outra aula. Por agora leiam os próximos capítulos do livro, Nefilins e suas derivações, porque na próxima aula eu falarei de Demônios, vampiros e o livro de Enoque. Agora vocês estão dispensados.
Todos a olhavam um pouco perplexos pela aula e por ela ter nós dispensado tão cedo. Eu nem contestei, me levantei e peguei minha mochila. Alguém cutucou minhas costas. Eu me virei e dei de cara com a Minogue
- Eu posso falar com você Claire? – ela perguntou educadamente.
Eu pude ver que Moira e Celina, que estavam atrás da Luiza, olhavam a cena um pouco chocadas. Moira tentou se sentar na cadeira novamente e escutar a conversa, mas Celina a impediu e a empurrou para porta. Eu ri, mas disfarcei.
- Sim – eu disse não disfarçando meu temperamento.
Ela sentou em sua cadeira, na frente do quadro negro. Eu puxei uma cadeira e me sentei a sua frente.
- Então... –eu disse. Ela parecia tão desconfortável como eu.
- Eu queria te pedir desculpa pelo meu comportamento de antes. – eu encarei novamente tentando digerir suas palavras. Quem era essa mulher na minha frente?
- Pela grande amizade e consideração que eu tenho com o Lucius – ela continuou – ele me pediu para te pedir desculpas...
Eu me levantei subitamente, entendo o porquê das suas desculpas. – Se for assim nem precisa me pedir desculpas, Luiza – eu disse zangadamente.
Ela suspirou e se deixou encostar na cadeira.
- Melhor assim. Então quando o Lucius for falar com você fala para ele que a mal educada é você e não eu.
- Aaah! Claro - eu disse ironicamente. Eu tentei sair, mas ela me impediu.
- E mais uma coisa – ela sorriu abertamente – Se eu não tenho alguma coisa com o Lucius agora não significa que eu não possa ter.
Agora sim a vadia que eu conhecia. Eu pensei seriamente em bater na cara dela, mas eu me contive e continuei a jogar o jogo dela. Eu sorri para ela calmamente e acenei, me despedindo sem dizer nada. Eu deixei que ela ganhasse essa, porque brevemente eu tiraria aquele sorrisinho da cara dela.
segunda-feira, 10 de maio de 2010
sexta-feira, 7 de maio de 2010
Capítulo 10 - *Duelos:
Eu vaguei de um lado para o outro do banheiro, respirando fortemente a cada passo e apertando minhas mãos, tentando me acalmar e dissolver minha raiva. Eu poderia mentir para ele, mas não para mim mesma. Eu estava louca de ciúmes e eu não sou o tipo de pessoa que consegue disfarçar isso. Eu andei até a pia, em frente do espelho e encarei meu reflexo.
Eu tinha tantas perguntas para fazer. O que minha irmã quis dizer com ‘Tome cuidado’? E porque Minogue parecia ter algum tipo de relação com Lucius? Quando isso começou? E porque todo mundo parecia saber dos segredos dele, menos eu?
Eu abri a torneira e vi a água escorrer. Aquele pequeno barulho de água correndo me acalmou parcialmente. A piscina. Eu queria tanto poder ir para piscina e tentar, mesmo que por alguns minutos, esquecer o que tinha ocorrido aqui. Mas eu não poderia esquecer, eu não queria.
Eu levei minhas mãos em cunho até a água e depois molhei meu rosto. Isso melhorou um pouco meu humor. É melhor trocar minha roupa de qualquer forma – eu pensei – Porque por mais perguntas eu tivesse, elas pareciam nunca ter resposta.
Eu peguei minha roupa que estava no banco central do banheiro e troquei minha roupa. Me olhei no espelho. Eu estava usando uma regata preta de lycra e uma calça, também preta, de poliéster. Melhor que o short de malha. Eu ri tentando me distrair dos meus pensamentos.
Eu saí do banheiro com as mochilas na minha costa e descalça. Ele parecia distraído com algo antes de perceber minha presença. Então Lucius olhou em minha direção, me mediu com os olhos de forma fria e dura. Eu expressei um sorriso forçado e irônico por um minuto, depois fingi que nada tinha acontecido.
-Pronta? – sua voz soou um tom mais alto.
- Aham – eu assenti com a cabeça e expressei tanta indiferença como à dele. Era melhor ser uma vadia total do que bancar a mocinha arrependida.
Ele andou até a porta dupla e a abriu. Os principados foram entrando um a um, cada um parecia tão curioso e confuso como eu. Por último Jace entrou. Ele era o treinador mais novo do Instituto. Ele tinha o cabelo louro escuro curto, era um pouco mais baixo que Lucius, mas tinha a mesma quantidade de músculos, aparentava ter uns 25 anos, usava calça branca larga e uma blusa de mesma cor. Seu rosto era quadrado e bem masculino, ele tinha um lindo sorriso e seus olhos eram negros, bem diferente de suas asas. Ele era um anjo de nascimento, assim como Bianca, Sofia e Amélia. Suas asas são longas e brancas. E por ser mais novo que os outros anjos, eu ainda podia ver um delicado aro dourado circundar suas asas. Elas perdiam o brilho com o passar do tempo na terra, eu tinha notado isso. E como todo anjo de nascimento ele irradiava uma fraca luz roxa em torno de si. Eu via dia após dia cada um deles, com suas asas e graciosidade, mas eu parecia nunca me acostumar com isso.
Celina e Moira, que participavam do treinamento de Jace, foram até mim. Elas usavam a mesma roupa minha, elas estavam usando o cabelo prendido assim como o meu e também descalças. O estilo de treinamento era padronizado para facilitar o treinamento e para o treinador.
- O que vocês estão fazendo aqui? – eu perguntei confusa.
- Bem o mesmo que você... – Moira sorriu maliciosamente e olhou para Jace – admirando a vista.
Eu ri espontaneamente. Isso é tão Moira
- Além disso. – eu disse ainda olhando em direção a Jace. Pra falar a verdade eu, Celina e Moira o olhávamos.
- Será que o boato de ele ta pegando a Helena é verdade? – Moira perguntou fazendo biquinho.
Celina lançou um olhar reprovador para Moira contestando o termo ‘pegando’. Moira revirou os olhos.
- Pegando, fazendo amor, tanto faz...
- Não sei, não é contra regra ou nada disso. – eu respondi divagando sobre o assunto – Mas vocês ainda não me responderam, o que vocês estão fazendo aqui?
- Parece que o Lucius pediu pro Jace treinar aqui com o nível quatro, mas o Jace não disse nada além disso – Celina finalmente respondeu minha pergunta.
- Mudando de assunto – Moira nos interrompeu, que até uns momentos antes parecia mais interessada no Jace do que no nosso assunto. Ela voltou a olhar para mim. – Eu tenho umas perguntinhas pra você Claire.
Meu estomago se retorceu. Ela perguntaria sobre o Lucius e dessa vez eu não sabia se conseguiria mentir por muito tempo.
- Eu já disse que nada aconteceu Moira – eu mudei de tática, não ficando mais na defensiva.
Ela olhou divertida para mim. Um sorriso apareceu e eu sabia que ela estava preste a me crucificar.
- Eu não vou te perguntar sobre o Lucius... Ainda. Não com ele aqui. – ela apontou para Lucius inclinando a cabeça. Ele parecia ocupado conversando alguma coisa com Jace. – Mas conta aí: porque você brigou com a Bianca?
- Mas como você sabe...
- Meio obvio. Primeiro Claire se levanta revoltada da mesa e segundo saí sem almoçar. – Celina respondeu no lugar da Moira.
Isso eu poderia contar. Na verdade eu estava louca pra contar pra elas, assim eu poderia compartilhar meus problemas e falar mau da minha irmã sem me sentir culpada.
- Bem parece que pra ela é mais importante apresentar a festa de iniciação do que me acompanhar na hora da minha apresentação ao conselho.
- Também não é o fim do mundo Claire! – Moira fez parecer que meus problemas eram apenas mais uma birra minha.
- É claro, se eu fosse só mais uma, mas não, eu sou uma Blind e por isso todo o conselho vai estar aqui.
- Você sabe como isso é importante, menina dos olhos estranhos – Celina disse carinhosamente, tentando me acalmar. Pelo jeito hoje não seria o dia de falar mau da minha irmã.
- Além disso, você poderia ir com o Jeremi. - Moira tentou me animar.
- Ele também é um iniciante, Moira, se você esqueceu. Ele também vai estar no palco.
- Então você vai com o Sam! – Celina disse animada, sem pensar nas conseqüências.
Eu e Moira lançamos um olhar questionador para Celina. Ela estava cedendo o namorado dela, no dia da festa, só para amiga ter acompanhante. Eu poderia estar triste e com raiva, mas eu tinha um pouco de senso.
- Ta. É melhor não. – Celina parecia aborrecida por eu ter ‘recusado’, mas eu e Moira a ignoramos, sabendo que essa não era melhor solução.
- Já sei! – Moira praticamente gritou – Você poderia ir com Lucius e eu, para não deixar você envergonhada de estar acompanhada com um treinador, iria com o Irial.
Dessa vez foi à vez de eu e Celina olharmos para Moira. Essa última parte parecia à coisa mais sem sentindo que Moira já tinha dito, mas ela parecia convencida do que tinha dito. Eu bufei.
- É mais fácil eu formar um trio com o Jace e a Helena do que ir com o Lucius. – eu disse desgostosa.
- Ta, você que sabe. Mas eu não vou desistir do meu plano. – Moira disse toda sorridente.
- Você já tem um plano? – eu perguntei surpresa.
- É claro que já. Ou você acha que eu vou com qualquer um?!
Nesse momento, Sam, que pouco tempo atrás estava conversando com um amigo, apareceu e abraçou Celina pro trás. Celina riu baixo enquanto Sam beijava a base do seu pescoço. Ela parecia entretida com algo que ele disse em seu ouvido, como uma jura que só os dois poderiam saber e compartilhar. Eu, por um momento, invejei essa cumplicidade, mas uma inveja boa, sem amarguras. Eu queria amar assim, ser amada dessa forma.
Moira se inclinou e fingiu estar com enjôo.
- Acho que vou vomitar – ela disse brevemente. Eu a bati no ombro repreendendo-a, mas acabamos rindo da situação constrangedora que se formava. Sam e Celina perceberam e pararam de trocar segredinhos, mas continuaram abraçados.
- Quem vai aonde com qualquer um? – Sam perguntou curioso.
- A Moira no baile de iniciação. – Celina respondeu.
- Mas não é com qualquer um! – Moira disse indignada – Eu vou com Irial... – Moira viu o olhar perturbado que Sam lhe lançou e completou – Isso é um fato, sem discussões.
Eu segurei o riso para não demonstrar minha falta de fé nesse assunto, mas não teve muito tempo pra Moira perceber isso.
- Pessoal... – Jace gritou e sua voz soou alta em toda quadra, prendendo a atenção de todos. Ele riu brevemente de sua forma de ‘persuasão’ – Hora de treinar!
Uma grande roda foi formada e as duplas se juntaram. Moira riu e disse algo como “adoro treino com competição” e se virou para a roda, se juntando com Celina. Sam já estava na outra borda da roda com sua dupla, Julio. E eu estava no mesmo lugar, só observando a todos. Eu ainda não tinha dupla e não sabia o porquê de estar em um treino do quarto nível. Lucius que estava em um canto da quadra, me viu sozinha e caminhou ate a mim.
- Vem comigo. – ele simplesmente disse.
Nós andamos ate a roda e alguns alunos nos deram espaço.
- Bem normalmente as aulas de competição acontecem entre as duplas, mas hoje, por um pedido do Lucius... – Jace olhou para Lucius rapidamente e todos repetiram o gesto – cada dupla terá que me enfrentar.
Jace sorriu abertamente, demonstrando que ele não facilitaria e que, alem disso, estava adorando o desafio. Alguns sussurros e olhadas depois, Jace andou até o meio da quadra e olhou diretamente para Moira e Celina. Eu pude ouvir Moira xingar alguma coisa entre os dentes e Celina respirar lentamente.
- Nos podemos começar com vocês meninas, Celina e Moira.
Poderia ser até um pouco difícil para elas, mas eu sempre quis vê-las lutando. Moira foi a primeira a ir ao centro, depois Celina. Moira ficou frente a frente com Jace enquanto Celina se encontrava em suas costas, as duas se entreolharam, trocando informações que só as duas sabiam. Eu sabia que a luta seria desigual, por isso os alunos eram divididos em dupla, para equilibrar a luta. Jace era mais rápido, mais forte e mais experiente que elas, mas era para isso que o treinamento servia, testar suas habilidades. E por um momento eu pude perceber que não seria apenas um treino e sim uma luta, uma puta de uma luta.
Lucius se inclinou em minha direção e sussurrou:
- Observe cada movimento.
Então a luta começou.
Jace se movimentou rapidamente em direção a Moira, ela desviou do seu caminho e chutou fortemente, mas Jace praticamente voou sobre sua perna. Segundos depois Jace já estava atrás de Moira e chutou suas costas. Ela caiu, mas se levantou rapidamente se juntando a Celina.
- Nunca dê as costas a seu adversário, só se souber o que esta fazendo – Lucius me disse avaliando a luta – Observe como elas tentam afastar uma da outra, deslocando o foco do adversário.
Celina e Moira se afastaram rapidamente, assim como Lucius havia dito. Moira foi pro ataque, correu em direção a Jace que se deslocou para direita, mas Moira previu o movimento e aplicou uma rasteira, formando um circulo em torno de si. Jace pulou sua perna, mas foi aí que Celina entrou em ação. Ela tem o dom psíquico, ela pode torturar alguém mentalmente ou prever um movimento, seu dom é o mais foda, mas em compensação o mais difícil de lidar e desenvolver. Antes que Jace pudesse encostar seus pés no chão, Celina o atingiu na região do tórax com um chute depois o socou no rosto enquanto ele se agachava. Ele tentou se levantar, mas parecia que uma força invisível o impedia. Celina.
- E o mais importante: trabalho em equipe. Saber o que seu parceiro esta pensando é a melhor estratégia pra derrotar o adversário. Tentá-lo sozinho seria um erro.
E como se adivinhasse os pensamentos de Moira, o erro foi cometido. Moira, assim como a maioria dos principados, tem o dom da força, e ela tentou usá-la em Jace. Mas ela não deu nenhum sinal a Celina, que ainda tentava controlar sua mente em relação à Jace. Moira tentou socar Jace, tentando nocauteá-lo, porem Celina não o segurava fortemente ainda. Então o movimento só fez com que Celina se distraísse e perdesse o controle sobre Jace. Jace aproveitando da situação, se levantou e derrubou Celina.
- É importante deter o mais forte e desequilibrar a dupla. – Lucius disse antes do golpe final.
Jace deteve Celina sobre seus braços e pernas, em um movimento perigoso e ameaçador. E uma vez que seu parceiro fosse derrubado, não havia muito o que se poderia fazer. Uma vez que seu parceiro era derrotado, haveria só duas alternativas: fugir, ação que era a mais recomendada, ou se entregar a derrota e morrer, a que a maioria dos principados acabavam fazendo. Carregar a culpa da morte de seu parceiro era pior que a morte.
- Finalmente, nunca enfrente seu adversário sozinho. Saber reconhecer uma derrota é um passo para sua vitória – Lucius falou para mim, divagando sobre a luta.
Jace se levantou e ajudou Celina também a se levantar. Moira parecia brava consigo mesma, ela era do tipo que se culpava e se tortura por cada erro que cometia.
- Boa luta, meninas – Jace sinalizou com a cabeça, fazendo uma reverencia – Agora, que são os próximos?
******
Foram no total oito duplas e em cada luta, Lucius fazia uma observação ou comentário sobre os erros de cada um, me mostrando como lutar e como não errar, eventualmente.
Mesmo com toda raiva que eu senti por ele mais cedo, eu poderia dizer que ele era um ótimo professor e que aula foi muito boa. Mas eu ainda estava com fome e pior ainda tinha aula com Irial no pátio externo.
- É melhor eu ir indo – eu disse para Lucius, apontando para as meninas que já estavam indo para outra aula.
- Eu posso conversar com você agora? – e pela primeira vez ele não me intimou e realmente me perguntou.
- Claro – eu respondi um pouco confusa.
Ele andou na minha frente enquanto eu ainda estava um pouco distante dele, o acompanhando. Andamos ate a porta que dava para o corredor e em seguida chegamos ao refeitório. O refeitório ainda não estava totalmente escuro, as janelas nas laterais ainda deixavam à luz do pôr-do-sol entrar e iluminar parcialmente as mesas de granito. Eu andei até uma mesa e me sentei. Eu esperei que Lucius fizesse o mesmo, mas ele andou mais a frente e me disse:
- Me espere aqui. – ele disse sem me olhar, andando em direção a cozinha que ficava ao lado, perto do suporte onde ficava a comida.
Alguns minutos se passaram e eu me distraia mexendo na alça da minha mochila. Mesmo não tendo lutado, eu estava cansada. Talvez pelo estresse ou pela fome. Um barulho se fez a minha frente e eu vi a porta da cozinha ser aberta, mesmo com a penumbra eu pude ver que Lucius carregava algo. Na verdade era um prato e um copo. No prato tinha um sanduíche, que parecia ser natural pelo tanto de alface e molho rosa que tinha, e no copo um soco meio esverdeado. Se ele me conhecesse tão bem como eu imaginava, eu tinha certeza que o suco era de abacaxi com hortelã.
Ele sentou na cadeira a minha frente e me ofereceu o suco e o sanduíche. Eu o olhei questionando como ele sabia que estava com fome, ele sorriu, mas um sorriso cansado e contido.
- Eu ouvi a Celina falando com você. – ele disse.
Se ele tinha ouvido isso provavelmente ele tinha ouvido o resto, mas eu estava agradecida demais para brigar com ele.
- Obrigada – eu sibilei para ele. Mesmo me humilhando diariamente, ele ainda sabia me fazer sentir culpada.
O tempo passou enquanto eu comia o sanduíche e tomava o suco. Nenhum de nós dois disse nada. Eu tentei não me sentir desconfortável com a situação, mas não estava funcionando. Então eu tentei comer o mais rapidamente possível e sair dali. Na terceira mordida Lucius disse algo.
- Ela é apenas uma amiga – ele simplesmente disse.
Eu não precisava perguntar pra saber de quem ele estava falando. Em compensação, eu lancei um olhar que dizia “Não vou cair nessa”. Eu mordi mais uma vez meu sanduíche, sem falar nada.
Ele sorriu um sorriso puro, verdadeiro, divertido com a minha reação. Eu simplesmente dei de ombros.
- Você não é a única que eu treinei individualmente, Claire.
- Não sou? – uma nota de magoa ressoou na minha voz.
- Não – ele balançou a cabeça levemente e se inclinou em minha direção, cruzando as mãos sobre a mesa. – Praticamente todos os principados ou dominações que tiveram um desenvolvimento melhor ou precisava melhorar eu treinei, ajudei de alguma forma.
- E eles também dormiram no seu dormitório? – as palavras simplesmente saíram da minha boca, marcando meus ciúmes.
Ele deu um meio sorriso e franziu a testa.
- Esquece... Só esquece. – eu disse envergonhada.
- Não, ninguém nunca dormiu no meu dormitório, além de você – ele me olhou intensamente. Eu senti um repentino frio se espalhar no meu corpo, me fazendo arrepiar. Droga! Isso não ta funcionando.
- Então porque ela agiu daquela forma comigo? – eu perguntei um pouco alterada.
- Ela é um pouco ciumenta e possessiva - Pouco?
- E ela tem ciúmes de mim... Por quê? – as palavras não foram ditas, mas ele tinha entendido. Como ela tem ciúmes de mim se você mal se importa comigo?
Lucius olhou fixamente a porta que dava para o corredor. Eu me perguntei se essa era mais uma forma dele fugir das minhas perguntas. Mas então a porta lateral se abriu e Moira apareceu. Ele tinha a ouvido chegar.
- Você não vem pra aula? – seu tom de voz foi abaixando pouco a pouco, quando percebeu com que eu estava.
Eu olhei para ela e fechei minha cara. Olhei para Lucius e me despedi com um aceno de cabeça. Mas uma vez eu ficaria sem minhas respostas. Mas antes que eu pudesse sair da mesa, Lucius se levantou da mesa e me olhou.
- Você sabe por quê. – ele baixou seu olhar se despedindo de mim e depois se virou para Moira.
- Até mais Moira – Moira não entendeu nada, mas se despediu também com um movimento de cabeça.
Ele foi até a porta e saiu. Moira olhou para mim, surpreendida.
- O que você fez com ele pra ele ficar tão educado? – ela perguntou para mim, olhando da porta para mim.
Mas eu não prestava atenção no que ela dizia. A única coisa que emanava na minha cabeça era que Lucius havia me dito. Você sabe por quê.
Eu tinha tantas perguntas para fazer. O que minha irmã quis dizer com ‘Tome cuidado’? E porque Minogue parecia ter algum tipo de relação com Lucius? Quando isso começou? E porque todo mundo parecia saber dos segredos dele, menos eu?
Eu abri a torneira e vi a água escorrer. Aquele pequeno barulho de água correndo me acalmou parcialmente. A piscina. Eu queria tanto poder ir para piscina e tentar, mesmo que por alguns minutos, esquecer o que tinha ocorrido aqui. Mas eu não poderia esquecer, eu não queria.
Eu levei minhas mãos em cunho até a água e depois molhei meu rosto. Isso melhorou um pouco meu humor. É melhor trocar minha roupa de qualquer forma – eu pensei – Porque por mais perguntas eu tivesse, elas pareciam nunca ter resposta.
Eu peguei minha roupa que estava no banco central do banheiro e troquei minha roupa. Me olhei no espelho. Eu estava usando uma regata preta de lycra e uma calça, também preta, de poliéster. Melhor que o short de malha. Eu ri tentando me distrair dos meus pensamentos.
Eu saí do banheiro com as mochilas na minha costa e descalça. Ele parecia distraído com algo antes de perceber minha presença. Então Lucius olhou em minha direção, me mediu com os olhos de forma fria e dura. Eu expressei um sorriso forçado e irônico por um minuto, depois fingi que nada tinha acontecido.
-Pronta? – sua voz soou um tom mais alto.
- Aham – eu assenti com a cabeça e expressei tanta indiferença como à dele. Era melhor ser uma vadia total do que bancar a mocinha arrependida.
Ele andou até a porta dupla e a abriu. Os principados foram entrando um a um, cada um parecia tão curioso e confuso como eu. Por último Jace entrou. Ele era o treinador mais novo do Instituto. Ele tinha o cabelo louro escuro curto, era um pouco mais baixo que Lucius, mas tinha a mesma quantidade de músculos, aparentava ter uns 25 anos, usava calça branca larga e uma blusa de mesma cor. Seu rosto era quadrado e bem masculino, ele tinha um lindo sorriso e seus olhos eram negros, bem diferente de suas asas. Ele era um anjo de nascimento, assim como Bianca, Sofia e Amélia. Suas asas são longas e brancas. E por ser mais novo que os outros anjos, eu ainda podia ver um delicado aro dourado circundar suas asas. Elas perdiam o brilho com o passar do tempo na terra, eu tinha notado isso. E como todo anjo de nascimento ele irradiava uma fraca luz roxa em torno de si. Eu via dia após dia cada um deles, com suas asas e graciosidade, mas eu parecia nunca me acostumar com isso.
Celina e Moira, que participavam do treinamento de Jace, foram até mim. Elas usavam a mesma roupa minha, elas estavam usando o cabelo prendido assim como o meu e também descalças. O estilo de treinamento era padronizado para facilitar o treinamento e para o treinador.
- O que vocês estão fazendo aqui? – eu perguntei confusa.
- Bem o mesmo que você... – Moira sorriu maliciosamente e olhou para Jace – admirando a vista.
Eu ri espontaneamente. Isso é tão Moira
- Além disso. – eu disse ainda olhando em direção a Jace. Pra falar a verdade eu, Celina e Moira o olhávamos.
- Será que o boato de ele ta pegando a Helena é verdade? – Moira perguntou fazendo biquinho.
Celina lançou um olhar reprovador para Moira contestando o termo ‘pegando’. Moira revirou os olhos.
- Pegando, fazendo amor, tanto faz...
- Não sei, não é contra regra ou nada disso. – eu respondi divagando sobre o assunto – Mas vocês ainda não me responderam, o que vocês estão fazendo aqui?
- Parece que o Lucius pediu pro Jace treinar aqui com o nível quatro, mas o Jace não disse nada além disso – Celina finalmente respondeu minha pergunta.
- Mudando de assunto – Moira nos interrompeu, que até uns momentos antes parecia mais interessada no Jace do que no nosso assunto. Ela voltou a olhar para mim. – Eu tenho umas perguntinhas pra você Claire.
Meu estomago se retorceu. Ela perguntaria sobre o Lucius e dessa vez eu não sabia se conseguiria mentir por muito tempo.
- Eu já disse que nada aconteceu Moira – eu mudei de tática, não ficando mais na defensiva.
Ela olhou divertida para mim. Um sorriso apareceu e eu sabia que ela estava preste a me crucificar.
- Eu não vou te perguntar sobre o Lucius... Ainda. Não com ele aqui. – ela apontou para Lucius inclinando a cabeça. Ele parecia ocupado conversando alguma coisa com Jace. – Mas conta aí: porque você brigou com a Bianca?
- Mas como você sabe...
- Meio obvio. Primeiro Claire se levanta revoltada da mesa e segundo saí sem almoçar. – Celina respondeu no lugar da Moira.
Isso eu poderia contar. Na verdade eu estava louca pra contar pra elas, assim eu poderia compartilhar meus problemas e falar mau da minha irmã sem me sentir culpada.
- Bem parece que pra ela é mais importante apresentar a festa de iniciação do que me acompanhar na hora da minha apresentação ao conselho.
- Também não é o fim do mundo Claire! – Moira fez parecer que meus problemas eram apenas mais uma birra minha.
- É claro, se eu fosse só mais uma, mas não, eu sou uma Blind e por isso todo o conselho vai estar aqui.
- Você sabe como isso é importante, menina dos olhos estranhos – Celina disse carinhosamente, tentando me acalmar. Pelo jeito hoje não seria o dia de falar mau da minha irmã.
- Além disso, você poderia ir com o Jeremi. - Moira tentou me animar.
- Ele também é um iniciante, Moira, se você esqueceu. Ele também vai estar no palco.
- Então você vai com o Sam! – Celina disse animada, sem pensar nas conseqüências.
Eu e Moira lançamos um olhar questionador para Celina. Ela estava cedendo o namorado dela, no dia da festa, só para amiga ter acompanhante. Eu poderia estar triste e com raiva, mas eu tinha um pouco de senso.
- Ta. É melhor não. – Celina parecia aborrecida por eu ter ‘recusado’, mas eu e Moira a ignoramos, sabendo que essa não era melhor solução.
- Já sei! – Moira praticamente gritou – Você poderia ir com Lucius e eu, para não deixar você envergonhada de estar acompanhada com um treinador, iria com o Irial.
Dessa vez foi à vez de eu e Celina olharmos para Moira. Essa última parte parecia à coisa mais sem sentindo que Moira já tinha dito, mas ela parecia convencida do que tinha dito. Eu bufei.
- É mais fácil eu formar um trio com o Jace e a Helena do que ir com o Lucius. – eu disse desgostosa.
- Ta, você que sabe. Mas eu não vou desistir do meu plano. – Moira disse toda sorridente.
- Você já tem um plano? – eu perguntei surpresa.
- É claro que já. Ou você acha que eu vou com qualquer um?!
Nesse momento, Sam, que pouco tempo atrás estava conversando com um amigo, apareceu e abraçou Celina pro trás. Celina riu baixo enquanto Sam beijava a base do seu pescoço. Ela parecia entretida com algo que ele disse em seu ouvido, como uma jura que só os dois poderiam saber e compartilhar. Eu, por um momento, invejei essa cumplicidade, mas uma inveja boa, sem amarguras. Eu queria amar assim, ser amada dessa forma.
Moira se inclinou e fingiu estar com enjôo.
- Acho que vou vomitar – ela disse brevemente. Eu a bati no ombro repreendendo-a, mas acabamos rindo da situação constrangedora que se formava. Sam e Celina perceberam e pararam de trocar segredinhos, mas continuaram abraçados.
- Quem vai aonde com qualquer um? – Sam perguntou curioso.
- A Moira no baile de iniciação. – Celina respondeu.
- Mas não é com qualquer um! – Moira disse indignada – Eu vou com Irial... – Moira viu o olhar perturbado que Sam lhe lançou e completou – Isso é um fato, sem discussões.
Eu segurei o riso para não demonstrar minha falta de fé nesse assunto, mas não teve muito tempo pra Moira perceber isso.
- Pessoal... – Jace gritou e sua voz soou alta em toda quadra, prendendo a atenção de todos. Ele riu brevemente de sua forma de ‘persuasão’ – Hora de treinar!
Uma grande roda foi formada e as duplas se juntaram. Moira riu e disse algo como “adoro treino com competição” e se virou para a roda, se juntando com Celina. Sam já estava na outra borda da roda com sua dupla, Julio. E eu estava no mesmo lugar, só observando a todos. Eu ainda não tinha dupla e não sabia o porquê de estar em um treino do quarto nível. Lucius que estava em um canto da quadra, me viu sozinha e caminhou ate a mim.
- Vem comigo. – ele simplesmente disse.
Nós andamos ate a roda e alguns alunos nos deram espaço.
- Bem normalmente as aulas de competição acontecem entre as duplas, mas hoje, por um pedido do Lucius... – Jace olhou para Lucius rapidamente e todos repetiram o gesto – cada dupla terá que me enfrentar.
Jace sorriu abertamente, demonstrando que ele não facilitaria e que, alem disso, estava adorando o desafio. Alguns sussurros e olhadas depois, Jace andou até o meio da quadra e olhou diretamente para Moira e Celina. Eu pude ouvir Moira xingar alguma coisa entre os dentes e Celina respirar lentamente.
- Nos podemos começar com vocês meninas, Celina e Moira.
Poderia ser até um pouco difícil para elas, mas eu sempre quis vê-las lutando. Moira foi a primeira a ir ao centro, depois Celina. Moira ficou frente a frente com Jace enquanto Celina se encontrava em suas costas, as duas se entreolharam, trocando informações que só as duas sabiam. Eu sabia que a luta seria desigual, por isso os alunos eram divididos em dupla, para equilibrar a luta. Jace era mais rápido, mais forte e mais experiente que elas, mas era para isso que o treinamento servia, testar suas habilidades. E por um momento eu pude perceber que não seria apenas um treino e sim uma luta, uma puta de uma luta.
Lucius se inclinou em minha direção e sussurrou:
- Observe cada movimento.
Então a luta começou.
Jace se movimentou rapidamente em direção a Moira, ela desviou do seu caminho e chutou fortemente, mas Jace praticamente voou sobre sua perna. Segundos depois Jace já estava atrás de Moira e chutou suas costas. Ela caiu, mas se levantou rapidamente se juntando a Celina.
- Nunca dê as costas a seu adversário, só se souber o que esta fazendo – Lucius me disse avaliando a luta – Observe como elas tentam afastar uma da outra, deslocando o foco do adversário.
Celina e Moira se afastaram rapidamente, assim como Lucius havia dito. Moira foi pro ataque, correu em direção a Jace que se deslocou para direita, mas Moira previu o movimento e aplicou uma rasteira, formando um circulo em torno de si. Jace pulou sua perna, mas foi aí que Celina entrou em ação. Ela tem o dom psíquico, ela pode torturar alguém mentalmente ou prever um movimento, seu dom é o mais foda, mas em compensação o mais difícil de lidar e desenvolver. Antes que Jace pudesse encostar seus pés no chão, Celina o atingiu na região do tórax com um chute depois o socou no rosto enquanto ele se agachava. Ele tentou se levantar, mas parecia que uma força invisível o impedia. Celina.
- E o mais importante: trabalho em equipe. Saber o que seu parceiro esta pensando é a melhor estratégia pra derrotar o adversário. Tentá-lo sozinho seria um erro.
E como se adivinhasse os pensamentos de Moira, o erro foi cometido. Moira, assim como a maioria dos principados, tem o dom da força, e ela tentou usá-la em Jace. Mas ela não deu nenhum sinal a Celina, que ainda tentava controlar sua mente em relação à Jace. Moira tentou socar Jace, tentando nocauteá-lo, porem Celina não o segurava fortemente ainda. Então o movimento só fez com que Celina se distraísse e perdesse o controle sobre Jace. Jace aproveitando da situação, se levantou e derrubou Celina.
- É importante deter o mais forte e desequilibrar a dupla. – Lucius disse antes do golpe final.
Jace deteve Celina sobre seus braços e pernas, em um movimento perigoso e ameaçador. E uma vez que seu parceiro fosse derrubado, não havia muito o que se poderia fazer. Uma vez que seu parceiro era derrotado, haveria só duas alternativas: fugir, ação que era a mais recomendada, ou se entregar a derrota e morrer, a que a maioria dos principados acabavam fazendo. Carregar a culpa da morte de seu parceiro era pior que a morte.
- Finalmente, nunca enfrente seu adversário sozinho. Saber reconhecer uma derrota é um passo para sua vitória – Lucius falou para mim, divagando sobre a luta.
Jace se levantou e ajudou Celina também a se levantar. Moira parecia brava consigo mesma, ela era do tipo que se culpava e se tortura por cada erro que cometia.
- Boa luta, meninas – Jace sinalizou com a cabeça, fazendo uma reverencia – Agora, que são os próximos?
******
Foram no total oito duplas e em cada luta, Lucius fazia uma observação ou comentário sobre os erros de cada um, me mostrando como lutar e como não errar, eventualmente.
Mesmo com toda raiva que eu senti por ele mais cedo, eu poderia dizer que ele era um ótimo professor e que aula foi muito boa. Mas eu ainda estava com fome e pior ainda tinha aula com Irial no pátio externo.
- É melhor eu ir indo – eu disse para Lucius, apontando para as meninas que já estavam indo para outra aula.
- Eu posso conversar com você agora? – e pela primeira vez ele não me intimou e realmente me perguntou.
- Claro – eu respondi um pouco confusa.
Ele andou na minha frente enquanto eu ainda estava um pouco distante dele, o acompanhando. Andamos ate a porta que dava para o corredor e em seguida chegamos ao refeitório. O refeitório ainda não estava totalmente escuro, as janelas nas laterais ainda deixavam à luz do pôr-do-sol entrar e iluminar parcialmente as mesas de granito. Eu andei até uma mesa e me sentei. Eu esperei que Lucius fizesse o mesmo, mas ele andou mais a frente e me disse:
- Me espere aqui. – ele disse sem me olhar, andando em direção a cozinha que ficava ao lado, perto do suporte onde ficava a comida.
Alguns minutos se passaram e eu me distraia mexendo na alça da minha mochila. Mesmo não tendo lutado, eu estava cansada. Talvez pelo estresse ou pela fome. Um barulho se fez a minha frente e eu vi a porta da cozinha ser aberta, mesmo com a penumbra eu pude ver que Lucius carregava algo. Na verdade era um prato e um copo. No prato tinha um sanduíche, que parecia ser natural pelo tanto de alface e molho rosa que tinha, e no copo um soco meio esverdeado. Se ele me conhecesse tão bem como eu imaginava, eu tinha certeza que o suco era de abacaxi com hortelã.
Ele sentou na cadeira a minha frente e me ofereceu o suco e o sanduíche. Eu o olhei questionando como ele sabia que estava com fome, ele sorriu, mas um sorriso cansado e contido.
- Eu ouvi a Celina falando com você. – ele disse.
Se ele tinha ouvido isso provavelmente ele tinha ouvido o resto, mas eu estava agradecida demais para brigar com ele.
- Obrigada – eu sibilei para ele. Mesmo me humilhando diariamente, ele ainda sabia me fazer sentir culpada.
O tempo passou enquanto eu comia o sanduíche e tomava o suco. Nenhum de nós dois disse nada. Eu tentei não me sentir desconfortável com a situação, mas não estava funcionando. Então eu tentei comer o mais rapidamente possível e sair dali. Na terceira mordida Lucius disse algo.
- Ela é apenas uma amiga – ele simplesmente disse.
Eu não precisava perguntar pra saber de quem ele estava falando. Em compensação, eu lancei um olhar que dizia “Não vou cair nessa”. Eu mordi mais uma vez meu sanduíche, sem falar nada.
Ele sorriu um sorriso puro, verdadeiro, divertido com a minha reação. Eu simplesmente dei de ombros.
- Você não é a única que eu treinei individualmente, Claire.
- Não sou? – uma nota de magoa ressoou na minha voz.
- Não – ele balançou a cabeça levemente e se inclinou em minha direção, cruzando as mãos sobre a mesa. – Praticamente todos os principados ou dominações que tiveram um desenvolvimento melhor ou precisava melhorar eu treinei, ajudei de alguma forma.
- E eles também dormiram no seu dormitório? – as palavras simplesmente saíram da minha boca, marcando meus ciúmes.
Ele deu um meio sorriso e franziu a testa.
- Esquece... Só esquece. – eu disse envergonhada.
- Não, ninguém nunca dormiu no meu dormitório, além de você – ele me olhou intensamente. Eu senti um repentino frio se espalhar no meu corpo, me fazendo arrepiar. Droga! Isso não ta funcionando.
- Então porque ela agiu daquela forma comigo? – eu perguntei um pouco alterada.
- Ela é um pouco ciumenta e possessiva - Pouco?
- E ela tem ciúmes de mim... Por quê? – as palavras não foram ditas, mas ele tinha entendido. Como ela tem ciúmes de mim se você mal se importa comigo?
Lucius olhou fixamente a porta que dava para o corredor. Eu me perguntei se essa era mais uma forma dele fugir das minhas perguntas. Mas então a porta lateral se abriu e Moira apareceu. Ele tinha a ouvido chegar.
- Você não vem pra aula? – seu tom de voz foi abaixando pouco a pouco, quando percebeu com que eu estava.
Eu olhei para ela e fechei minha cara. Olhei para Lucius e me despedi com um aceno de cabeça. Mas uma vez eu ficaria sem minhas respostas. Mas antes que eu pudesse sair da mesa, Lucius se levantou da mesa e me olhou.
- Você sabe por quê. – ele baixou seu olhar se despedindo de mim e depois se virou para Moira.
- Até mais Moira – Moira não entendeu nada, mas se despediu também com um movimento de cabeça.
Ele foi até a porta e saiu. Moira olhou para mim, surpreendida.
- O que você fez com ele pra ele ficar tão educado? – ela perguntou para mim, olhando da porta para mim.
Mas eu não prestava atenção no que ela dizia. A única coisa que emanava na minha cabeça era que Lucius havia me dito. Você sabe por quê.
terça-feira, 4 de maio de 2010
Capítulo 9 - *Super Bitch:
*Super Bitch*
Meus olhos entrecerraram. Então eu encarei Luiza de baixo a cima. Se ela estava tentando me rebaixar aqui, ela não conseguiria.
- Desculpa. É lógico que você não sabe. O Lucius não conta as coisas dele para qualquer um. – ela inclinou a cabeça para esquerda fingindo estar realmente se sentindo culpada.
Eu respirei fundo, ainda a encarando, tentando me acalmar. Eu tirei a mochila das minhas costas e deixei cair ao meu lado. Coloquei minhas roupas sobre meu ombro e a olhei novamente, intensamente. Um sorriso calmo e irônico surgiu em meu rosto.
- Eu e o Lucius, infelizmente, não compartilhamos os segredos mais íntimos dele. Mas eu posso te contar o que eu e ele compartilhamos hoje de manhã na cozinha dele, se você quiser. – meu sorriso aumentou um pouco mais.
Ela percebeu que eu não estava blefando, mas apenas sorriu de volta, me dizendo silenciosamente que isso teria volta. Ela podia até acabar comigo se ela quisesse, mas o ponto tinha sido meu nessa discussão.
- É melhor começarmos nosso treino. – a voz de Lucius soou mais forte, me trazendo de volta a realidade.
Ele estava sério, como se não tivesse gostado do que eu tinha acabado de dizer. Mas eu não me senti culpada, nem um pouco. Ele tinha gostado tanto quanto eu o que tinha acontecido entre nós, agora ele que agüente as conseqüências. Além do mais Luiza tinha me provocado e não ia me calar pra ela, não mesmo.
Luiza que ainda assistia a situação, pareceu perceber que não tinha mais espaço para ela aqui. Ela se virou para Lucius e caminhou para ele com passos calmos.
- É melhor mesmo você adestrar seu novo cachorrinho. Pelo jeito ela já sabe latir, vamos ver se ela também consegue morder. – ela disse um pouco mais alto do que o normal para que eu também ouvisse.
Meu rosto se esquentou e eu senti minha cabeça doer. Raiva me invadiu imediatamente depois que ela disse essas palavras.
- A única cadela que eu vejo aqui é você! – eu disse entre dentes. Minha voz soou mais rouca e baixa do que eu queria devido minha raiva.
Luiza fingiu não me ouvir, se inclinou e beijou lentamente a bochecha de Lucius, que dessa vez pareceu um pouco incomodado com a situação. Ela se virou e começou a sair da quadra e inevitavelmente a porta da saída estava bem perto de mim. Ela se virou para mim, antes de sair do ginásio e se despediu.
- Até a nossa próxima aula, iniciante. – ela praticamente soletrou ‘iniciante’ para mim, tentando mostrar sua superioridade.
- Até mais – eu sorri forçadamente – Ah! E pode deixar que hoje a noite eu pergunto pro Lucius que segredos são esses, preferencialmente no quarto dele.
Ela arqueou uma das sobrancelhas, mas fingiu não estar preocupada e sorriu em resposta a minha provocação. Ela saiu do ginásio ainda em passos calmos e confiantes. Eu poderia odiá-la, mas eu sabia o quanto de poder ela tinha e irradiava. Isso só fez minha raiva aumentar. Ela saiu e a porta se fechou. Eu voltei meus olhos para Lucius. Ele parecia verdadeiramente com raiva, mas em uma escala de zero a dez, a raiva dele era oito e a minha onze. Eu revirei meus olhos e comecei a ir à direção ao banheiro para trocar minha roupa. Eu vi um borrão se formar a minha direita e em questão de segundos Lucius estava na minha frente. Ele não me encostou ou me segurou pelos braços, ele apenas me olhava fixamente, esperando explicações. Dessa vez seria eu que não as daria.
- O que você pensa que fez aqui? – ele disse depois de algum tempo em silêncio.
Uma risada curta e descrente saiu dos meus lábios. Meus olhos se desviaram dos deles.
- Eu não te devo explicações... – eu voltei a olhá-lo novamente – Mas nesse caso eu quero te explicar uma coisa. Eu não vou mais jogar seus joguinhos, Lucius. Pelo menos uma vez quem vai ditar as regras na minha vida só eu e não você.
Eu me desviei dele rapidamente sem dar tempo que ele reagisse a minha declaração. Ele não me impediu de fazê-lo. Eu fui em direção ao banheiro sem olhar para trás e mesmo assim eu sabia que seus olhos estavam cravados em mim.
Meus olhos entrecerraram. Então eu encarei Luiza de baixo a cima. Se ela estava tentando me rebaixar aqui, ela não conseguiria.
- Desculpa. É lógico que você não sabe. O Lucius não conta as coisas dele para qualquer um. – ela inclinou a cabeça para esquerda fingindo estar realmente se sentindo culpada.
Eu respirei fundo, ainda a encarando, tentando me acalmar. Eu tirei a mochila das minhas costas e deixei cair ao meu lado. Coloquei minhas roupas sobre meu ombro e a olhei novamente, intensamente. Um sorriso calmo e irônico surgiu em meu rosto.
- Eu e o Lucius, infelizmente, não compartilhamos os segredos mais íntimos dele. Mas eu posso te contar o que eu e ele compartilhamos hoje de manhã na cozinha dele, se você quiser. – meu sorriso aumentou um pouco mais.
Ela percebeu que eu não estava blefando, mas apenas sorriu de volta, me dizendo silenciosamente que isso teria volta. Ela podia até acabar comigo se ela quisesse, mas o ponto tinha sido meu nessa discussão.
- É melhor começarmos nosso treino. – a voz de Lucius soou mais forte, me trazendo de volta a realidade.
Ele estava sério, como se não tivesse gostado do que eu tinha acabado de dizer. Mas eu não me senti culpada, nem um pouco. Ele tinha gostado tanto quanto eu o que tinha acontecido entre nós, agora ele que agüente as conseqüências. Além do mais Luiza tinha me provocado e não ia me calar pra ela, não mesmo.
Luiza que ainda assistia a situação, pareceu perceber que não tinha mais espaço para ela aqui. Ela se virou para Lucius e caminhou para ele com passos calmos.
- É melhor mesmo você adestrar seu novo cachorrinho. Pelo jeito ela já sabe latir, vamos ver se ela também consegue morder. – ela disse um pouco mais alto do que o normal para que eu também ouvisse.
Meu rosto se esquentou e eu senti minha cabeça doer. Raiva me invadiu imediatamente depois que ela disse essas palavras.
- A única cadela que eu vejo aqui é você! – eu disse entre dentes. Minha voz soou mais rouca e baixa do que eu queria devido minha raiva.
Luiza fingiu não me ouvir, se inclinou e beijou lentamente a bochecha de Lucius, que dessa vez pareceu um pouco incomodado com a situação. Ela se virou e começou a sair da quadra e inevitavelmente a porta da saída estava bem perto de mim. Ela se virou para mim, antes de sair do ginásio e se despediu.
- Até a nossa próxima aula, iniciante. – ela praticamente soletrou ‘iniciante’ para mim, tentando mostrar sua superioridade.
- Até mais – eu sorri forçadamente – Ah! E pode deixar que hoje a noite eu pergunto pro Lucius que segredos são esses, preferencialmente no quarto dele.
Ela arqueou uma das sobrancelhas, mas fingiu não estar preocupada e sorriu em resposta a minha provocação. Ela saiu do ginásio ainda em passos calmos e confiantes. Eu poderia odiá-la, mas eu sabia o quanto de poder ela tinha e irradiava. Isso só fez minha raiva aumentar. Ela saiu e a porta se fechou. Eu voltei meus olhos para Lucius. Ele parecia verdadeiramente com raiva, mas em uma escala de zero a dez, a raiva dele era oito e a minha onze. Eu revirei meus olhos e comecei a ir à direção ao banheiro para trocar minha roupa. Eu vi um borrão se formar a minha direita e em questão de segundos Lucius estava na minha frente. Ele não me encostou ou me segurou pelos braços, ele apenas me olhava fixamente, esperando explicações. Dessa vez seria eu que não as daria.
- O que você pensa que fez aqui? – ele disse depois de algum tempo em silêncio.
Uma risada curta e descrente saiu dos meus lábios. Meus olhos se desviaram dos deles.
- Eu não te devo explicações... – eu voltei a olhá-lo novamente – Mas nesse caso eu quero te explicar uma coisa. Eu não vou mais jogar seus joguinhos, Lucius. Pelo menos uma vez quem vai ditar as regras na minha vida só eu e não você.
Eu me desviei dele rapidamente sem dar tempo que ele reagisse a minha declaração. Ele não me impediu de fazê-lo. Eu fui em direção ao banheiro sem olhar para trás e mesmo assim eu sabia que seus olhos estavam cravados em mim.
domingo, 2 de maio de 2010
Capítulo 8 - *Passado:
A.Meu.Deus!!! As cicatrizes.
Eu observei a figura que estava a minha frente. Suas mãos estavam apoiadas no chão devido à colisão, ele estava agachado e seu corpo estava inclinado para frente. Mas não foi isso que me assustou. Lucius estava sem sua camisa, então eu tinha uma boa visão de suas costas. E havia as cicatrizes. O ar nos meus pulmões foi suprimido por um momento. Um silêncio crescente foi se instalando na cozinha enquanto eu encarava suas costas. Minha mão correu o caminho de uma de suas cicatrizes, mas sem eu o tocar. E mesmo assim os pêlos dos meus braços se arrepiaram. Nesse momento eu sofri, mesmo que pouco, o que ele tinha sofrido quando as recebeu.
As cicatrizes variavam de tamanho e profundidade, mas havia duas que se destacavam. Elas cobriam toda a dimensão de suas costas em forma de um V. Elas pareciam estar em carne viva, se destacando da pele, um ferimento sem total cicatrização, mas eu sabia que não eram recentes.
Ele tinha recebido a punição. Esse tipo de cicatriz só era recebida por aqueles que tinham desobedecido ao conselho ou por aqueles que eram expulsos. Especificamente por aqueles que tiveram suas asas arrancadas. Um anjo caído.
Mas ele não havia sido expulso, ele tinha pedido deserção! Ou talvez não.
Idéias começaram a se formar em minha cabeça e tentei entender o porquê dele tê-las recebido. Eu não conhecia o passado de Lucius, de onde ele tinha vindo e porque foi designado há alguns anos atrás para me proteger. Havia os motivos óbvios: o meu dom, os ataques que eu sofri no orfanato e o fato da minha irmã ser levada de mim. Mas havia algo naquela situação que me dizia que havia algo a mais, na forma que ele agia antigamente e a maneira como ele me tratava agora.
Por todo tempo que eu convivi com o Lucius eu pensei que conhecia um pouco dele, mas talvez eu estivesse enganada, talvez fosse só uma ilusão assim como eu pensava no princípio. Apenas a imagem de um anjo que me encarava pela minha janela, e por mais que eu tentasse, nunca conseguia tocá-lo, não verdadeiramente.
Ele parecia tão perdido como eu. A porta do armário a sua frente ainda estava aberta e o liquidificador também. Ele restabeleceu seu equilíbrio e pegou o liquidificador, se levantou sem olhar em minha direção, colocou o liquidificador na pia e o ligou na tomada. Eu ainda estava a seu lado, em silêncio, absorvendo tudo o que eu tinha visto. Ele tentou por um tempo fingir que nada tinha acontecido, mas eu não facilitei as coisas. Ele colocou suas mãos na beirada da pia e apertou os punhos, sua cabeça abaixou por um instante e sua respiração ficou mais pesada.
Por mais que eu tentasse aquele sentimento de remorso ainda estava em mim, eu deveria ter fingindo não ver, fazer o teatrinho que ele tinha feito, mas eu não consegui. Ele me olhou de soslaio e deve ter visto minha expressão de dor. Eu pude ver, mesmo que por segundos, que em seus olhos refletiam a mesma dor que eu sentia.
Ele soltou a pia e andou vagarosamente em minha direção, ele parecia querer me consolar, mas não fez nada para demonstrar isso. Ele parou em minha frente e me encarou. Eu levantei meu rosto para ver nitidamente seus olhos. O silêncio pairou entre nós. Durante todo esse tempo eu tentei evitar o fato que ele estava sem camisa, mas isso foi até ele dar mais um passo em minha direção e eu perder meu autocontrole. Eu baixei meus olhos de seus olhos até sua boca, então de sua boca para seu pescoço, do pescoço a seu peito e do seu peito ate sua barriga. Perfeição era a única palavra que poderia descrevê-lo. Seu tronco era afilado, seu pescoço era grosso e seu peitoral todo definido, mas não de forma exagerada. Eu poderia contar os gominhos do seu abdômen. Um desejo incontrolável se formou em mim: eu queria beijar sua boca enquanto minhas mãos contornavam seu corpo, eu queria passar as pontas dos meus dedos sob suas cicatrizes e curá-las com meu toque, eu queria me consumir nesse fogo crescente e me entregar a esse desejo. Eu dei um passo a mais e ficamos a centímetros um do outro.
Minha respiração atingiu o mesmo ritmo que a do Lucius, descompassada e acelerada. Eu pude sentir a mesma fome que eu sentia enquanto seus olhos baixavam sobre meu corpo. Eu ainda estava enrolada apenas em uma toalha, sem nada por baixo. Normalmente isso me desencorajaria, mas nesse caso só me incentivou. Minhas mãos espalmaram sobre seu peito e eu vi seus olhos fecharem. Eu deslizei minhas mãos sobre sua barriga e o observei enquanto fazia o processo. Ele gemeu baixo enquanto eu me aproximei mais e encostei meu corpo junto ao seu. Suas mãos fecharam sob meus braços suavemente, me forçando mais a ele. Minhas mãos foram para sua nuca e eu me levantei nas pontas dos pés para alcançar sua boca. Rocei meus lábios aos dele e o seu desespero aumentou. Suas mãos foram dos meus braços a minha cintura. Eu senti o impacto quando ele me puxou até a pia e me levantou para que eu sentasse nela. O peso do desejo cresceu quando suas mãos foram da cintura ate a minha coxa, ele alisou levemente para que eu as abrisse e ele ganhasse espaço entre elas. Ele se alojou ali e segurou a base da minha nuca. Eu fechei os olhos esperando um beijo, mas ele não o fez. Eu pude ouvir sua risada baixa enquanto ele aproximou seu rosto do meu. Ele beijou gentilmente minha bochecha esquerda, o meu nariz, o canto da minha boca, mordiscou meu queixo e beijou a base do meu pescoço. Minha respiração parou enquanto suas mãos deslizavam da minha cintura até a base do meu seio, ainda sob a toalha, e minhas pernas tremeram quando ele beijou novamente o vão do meu pescoço onde meu sangue pulsava. Eu não poderia conhecê-lo realmente, mas estava disposta a começar isso.
Minhas mãos baixaram da sua nuca até suas costas, eu deslizei as pontas dos meus dedos sobre as pequenas cicatrizes no topo de suas costas. Deslizei minhas mãos do topo até em baixo e senti sua maior cicatriz ganhar vida sob minhas mãos. A gema do meu dedo indicador começou suavemente a deslizar sob a cicatriz maior. O corpo de Lucius se enrijeceu sob meu contato e eu me amaldiçoei por isso. Ele tirou sua mão esquerda da minha nuca e segurou meu pulso fortemente, mas sem machucar.
- NÃO! – ele vociferou para mim. Seu rosto estava longe do meu e a outra mão sob minha coxa.
Eu olhei para ele silenciosamente perguntando Por quê? Ele se afastou de mim e me observou. Nesse momento eu tive consciência que estava apenas com uma toalha em cima da pia junto com Lucius. Não que eu não tivesse gostado, mas não era a maneira certa de chegar até ele. Eu baixei da pia e ajeitei minha toalha a meu corpo. Eu o olhei novamente pedindo explicações, mas ele só me olhou de volta com raiva.
- Não é da sua conta – ele simplesmente me disse. Suas mãos se fecharam, então ele se virou e foi em direção à geladeira pegar sei lá o que. Ele novamente fingiu não ter acontecido nada, mas dessa vez eu não aquentei simplesmente ficar ali enquanto ele me ignorava. Eu o olhei pela última vez e fui para o meu quarto.
A porta do meu quarto ainda estava aberta desde que eu fui ao banheiro. Eu olhei detalhadamente toda sua extensão. Ele tinha arrumado tudo como eu gostava. Talvez eu não o conhecesse, mas ele me conhecia bem. Eu andei lentamente até minha cama tentando entender o que tinha acabado de acontecer. Nós sempre parecíamos estar a um passo de uma loucura, seja de raiva ou amor, mas nunca passávamos do limite. Porém não foi assim hoje. Eu o havia incitado e ele tinha aceitado isso de bom grado. Eu fechei a porta atrás de mim e sentei sobre minha cama desarrumada. Minhas mãos ainda tremiam e meu corpo ainda não tinha se acostumado com a ausência das mãos de Lucius. Me deitei na cama tentando acalmar meus nervos. Minha respiração foi se acalmando lentamente. Eu olhei de esguelha o relógio sobre a escrivaninha. Oito e quinze. Droga! Eu estava atrasada. Me levantei apressadamente e vesti minha roupa. Calça jeans azul e uma regata verde. Penteei meus cabelos que estavam molhados e os prendi em um rabo-de-cavalo. Ainda bem que era aula da Helena, ela dava aula de filosofia existencial: a origem dos anjos na terra e as conseqüências desse ato – a criação dos Nefilins. Nós ainda estávamos no início da matéria, então eu não teria perdido tanta coisa.
Calcei meu all star preto rapidamente e arrumei meus livros e cadernos na minha mochila preta e branca de vaquinhas. Passei meu lápis de olho e me olhei novamente no espelho. Eu provavelmente teria que passar de novo pelo Lucius na cozinha, o que seria estranho e constrangedor. Ignore-o – eu pensei. Eu não vou conseguir ignorá-lo. –Então corra!
Eu me desloquei da frente do meu armário e fui para porta. Segurei a maçaneta fria da porta e fechei meus olhos. É só andar um pouco mais rápido. Eu abri meus olhos e comecei a abrir a porta. Corra, corra, corra, cor... – Lucius!
Ele estava à frente da minha porta com ar sério e as mãos cruzadas sobre o peito. Ele ainda estava com suas calças, mas desta vez, infelizmente, com uma camiseta preta. Eu senti meu estômago remexer relembrando as recentes cenas na cozinha. Concentra-se nas palavras, Claire.
- Esqueci de te falar. Treino hoje depois das aulas matinais.
- Mas hoje à tarde eu tenho aula...
- O Irial já liberou você da aula dele – ele me interrompeu.
- Mas você...
- O Jace vai me substituir hoje – ele disse me interrompendo novamente.
Eu fiz uma careta. Eu tinha que ter pelo menos um mês pra tentar esquecer o que tinha acontecido na cozinha. E ele estava me dando apenas cinco horas pra acostumar com a idéia de treinarmos juntos. Depois eu o agarrava na quadra e iam me chamar de louca, ou coisa pior.
- Eu sou vou demorar um pouco pra pegar minha roupa de treino e pra almoçar – eu disse segurando a alça da minha mochila tentando desvanecer minha raiva.
- Eu já peguei sua roupa de treino, está no seu armário. E você tem meia hora pra almoçar. – ele disse e se virou andando de volta pra cozinha.
Meia hora de almoço?! Talvez quando eu vomitasse nele, ele mudasse de idéia. Mas eu não tinha tempo pra contestar isso, eu estava atrasada para aula. Eu voltei para meu quarto e peguei minha roupa de treino sem dar uma segunda olhada. Passei pelo corredor e dei minhas costas para cozinha, indo direto para porta, sem olhar o rosto do Lucius.
A raiva me atingiu quando ainda estava indo pra classe. Eu lembrei de como ele estava frio e ausente enquanto eu estava totalmente abalada com a situação. Pensando bem ele tinha agido estranho de manhã. Começando pelo fato que ele não me ouvir chegar ou não desviou do meu chute hoje de manhã e depois ele parecia estar perdido como se algo tivesse acontecido, além do fato de eu ter visto suas cicatrizes, e finalmente ele tinha perdido o controle como ele nunca tinha perdido antes. Ele agiu de uma forma estranha, mas eu tinha gostado. Eu ri baixo lembrando do que eu tinha falado ontem à noite. Eu teria que treinar melhor meu jeito de pedir de desculpa.
Eu abri a porta rapidamente tentando não fazer barulho.
- Desculpa ao atraso. – eu disse a Helena.
Mas ao invés de uma pessoa na frente da classe, tinha duas. Eu pensei que todos me olhariam nesse momento, mas eles estavam focados na figura que estava ao lado de Helena. Helena era baixinha, com olhos negros e cabelos loiros escuros. Não apresentava ter mais de 34 anos. Ela vestia um vestido longo bege e tinha seu cabelo preso. Ela não era um anjo como a maioria dos mestres e sim uma principado. Foi por sua vasta experiência que ela tinha sido convidada a dar aulas no Instituto.
- Pode se sentar, Claire – ela disse educadamente.
Eu vi a estranha ao seu lado me dar uma atenção maior quando meu nome foi dito. Ela parecia estar feliz com a notícia de saber quem eu era. Eu me sentei no fundo da sala, dando um ‘oi’ silencioso pra Moira e pra Celina que eu estavam mais a frente.
Eu voltei minha atenção pra aula. A mulher que estava ao lado de Helena tinha um rosto oval e feições fortes. Sua pele era morena, seus cabelos eram longos e negros e seus olhos eram grandes e negros. Ela usava um jeans preto bem justo, uma sandália fechada de salto alto e uma camisete branca. Suas mãos estavam cruzadas para trás e seus pés levementes separados. Só pela sua postura eu sabia que ela era um principado formado.
- Como eu dizia a matéria de filosofia existencial será dividida entre mim e a senhorita Minogue. Eu fiquei incumbida de dar aula sobre os Tempestades e suas diversificações na terra. E a senhorita Minogue ficou coma parte de Nefilins. Luiza... – Helena deu a palavra para morena a seu lado.
Luiza, como Helena tinha dito, começou a falar, mas eu não dei a mínima atenção. No momento que Helena tinha dito o nome Minogue, eu parei de ouvir. Assim como toda a turma, eu sabia muito bem o que aquele sobrenome significava. Ela não era um principado e sim uma executadora. Os executadores eram principados que tinham desistido do seu destino de proteger anjos e resolveram caçar o que nos perseguia. Eles caçavam demônios, anjos caídos, djins, espectros e vampiros. Executadores eram lendas entre os novos principados. Eles agiam sozinhos sem ajuda de ninguém e muito menos do Instituto. Normalmente o Instituto também não gostava de envolver seu nome com esses desertores, mas parecia que isso não os impediu de chamar um deles pra nos dar aula. Mas não era só isso. Eles tinham chamado Luiza Minogue. Eu passei a aula inteira pensando como seria ter a executadora mais foda dando aula pra gente.
- Ca-ra-lho! Luiza Minogue vai dar aula pra gente. Deu pra entender isso?! A Minogue nossa treinadora. – Moira nos disse, eu e Celina, com todo seu entusiasmo.
Eu a encarei de volta.
- Imagina acordar toda manhã e saber um pouco de como é matar um vampiro ou como acabar com um demônio. E não através de livros e sim de histórias que realmente aconteceram. – Celina disse ao meu lado.
- Alguém notou que ela tava olhando demais pra mim? – eu disse encucada. Ela tinha passado maior parte da aula me encarando como se fosse algo divertido a se fazer.
- Eu reparei nisso, foi até meio estranho – Celina me disse.
- Oi!? Ela é Luiza Minogue, ela pode fazer o que ela quiser, colega! – Moira me disse rindo.
Eu e Celina rimos.
- Falando em estranho, porque você se atrasou? – Moira me perguntou.
- Longa história – eu tentei disfarçar.
- Então quer dizer que tem uma história? – Moira retrucou.
Eu a cutuquei com meu cotovelo. Ela só riu em resposta.
- Aaaah. Mas é agora mesmo que eu quero saber como é passar a noite com o Lucius.
Eu ri sem graça lembrando do que tinha acontecido.
Nós entramos no refeitório e avistamos Sam e Jeremi que estavam no canto do salão em uma mesa nos esperando, já com suas bandejas. Nos entramos na fila de refeição.
- Aí como foi? – Celina perguntou curiosa.
- Bem eu dormi...
- Pula o papo furado e chega à parte interessante. Aconteceu alguma coisa? – Moira perguntou.
- Claro que não. – eu disse na defensiva.
- Você tem certeza disso? – Moira perguntou desconfiada.
Eu apenas a encarei de volta.
- Claire – Alguém falou hesitante atrás de mim. Eu olhei para trás e deu de cara com minha irmã.
- Bianca! – eu disse eufórica . Eu a abracei fortemente agradecida por ela me salvar das meninas. Eu queria contar a elas, mas ainda não era o momento certo.
- Eu posso conversar com você – ela disse um pouco séria. Eu a encarei preocupada e assenti. Enquanto eu ia para uma mesa próxima à fila, eu pude ver moira sibilando pra mim “não passa da próxima”. Eu simplesmente dei de ombros e sorri pra ela.
- E aí, já melhorou? – ela me disse com um sorriso sem graça. Ela estava preocupada e eu sabia disso.
- Com ajuda de Camille foi mais fácil. Você sabe... – eu me referi ao dom que Camille possuía.
- Ainda bem. – ela tirou suas mãos debaixo da mesa e segurou as minhas. Agora eu estava preocupada.
- Ta animada pro baile de iniciação? – ela ainda estava sorrindo. Eu estranhei a mudança de assunto, mas continuei.
- Claro! Eu, Celina, Moira e Single Ladies. – ela me olhou confusa. Eu dei de ombros – Esquece a parte das Single. Mas sim eu to bem animada. Por quê?
- Claire, eu sei que eu disse que iria estar na sua iniciação...
- A não! Você vai me deixar sozinha no palco? – eu perguntei indignada.
- Não é bem assim. – ela tentou suavizar as coisas – O instituto me convidou para apresentar a festa e eu aceitei.
- Então você vai estar lá, certo?
- Vou, mas não vou poder estar ao seu lado na hora da passagem.
Eu lhe lancei um olhar de descrença. Bianca era minha irmã gêmea, não idêntica, mas eu sentia uma forte conexão com ela. Mas desde que ela se foi do orfanato as coisas não foram às mesmas. Ela mal me visitava e agora estava falando que não poderia participar da parte mais importante da iniciação: minha apresentação ao conselho.
- Você não pode simplesmente me deixar sozinha na minha apresentação! – eu disse brava e magoada.
- Você sabe como o conselho é, Claire. – ela disse tentando me convencer da situação.
- É. Eu sei. – eu me levantei da mesa e peguei minha mochila que estava encostada na cadeira.
- Você mudou de dormitório. – ela disse mais séria e brava – Foi pro do Lucius.
Uou. Ela tinha mudado de assunto de novo e sem aviso algum.
- E...? – eu disse indiferente.
-Eu fui essa manhã no seu dormitório conversar com você sobre esse assunto, mas você estava tomando banho.
Eu esperei que ela chegasse a alguma conclusão.
- Ele parecia estranho, Claire – ela pareceu hesitante – Só... Só tome cuidado.
Eu a olhei desconcertada. Tomar cuidado com o Lucius?! Ela me deixou sozinha por anos e único que esteve lá pra me acalmar depois das minhas visões foi ele. Ele era praticamente meu protetor e ela estava me mandando ter cuidado. Eu a olhei com suspeita. Ela parecia saber alguma coisa do Lucius. Mas eu estava nervosa de mais pra discutir a questão “como você sabe disso?” Isso teria que ficar pra próxima. Se visse ela novamente, claro!
- Falando em Lucius... Eu tenho um treino com ele agora. – eu disse zangada.
-Mas você nem almoçou?! – Bianca me olhou brava.
- Perdi a fome.
E antes que eu falasse algo que ela não gostasse, eu saí do refeitório.
Eu atravessei o corredor que dava ao ginásio rapidamente. Eu já estava quinze minutos atrasada. De novo. Lucius iria me matar! Com toda aquela disciplina e rispidez, ele me faria dar cinqüenta voltas na quadra antes de começar o treino. Eu cheguei à porta do ginásio respirando fundo, abri minha mochila pegando minha roupa pra trocar. Eu iria ao banheiro trocar de roupa e não daria explicações e só! Se prepara!Eu abri a porta.
Uma risada forte e longa soou no meio da quadra. Eu reconheci essa risada. Era do Lucius. Era uma raridade quando ele ria, mas quando acontecia... Eu tentei me concentrar nos fatos e não no meu desespero de saber o porquê de ele rir tão abertamente. A porta atrás de mim se fechou e com isso um barulho se espalhou pela quadra. Lucius se virou para mim e eu pude ver quem estava atrás dele.
Ela ainda usava seus jeans apertados e feições fortes. Luiza Minogue.
Ela olhou diretamente pra mim, ainda se recuperando da risada que compartilhava com Lucius. Eu senti minhas mãos se fecharem em punhos sobre minha roupa. Ela passou uma de suas mãos no ombro de Lucius e diferente da reação que eu esperava, ele se sentiu cômodo com o gesto. Como ela se atreve... AH!
Eu a idolatrava até o momento de ver essa cena. Eles pareciam íntimos de alguma forma. Ele riu com ela e não dela, como ele fazia comigo.
- Então você é a menininha que inferniza a vida do Lucius? Claire? – ela perguntou divertida.
Suas mãos já estavam soltas, ente a seu corpo. Ela andou em minha direção, com alguns metros nos distanciando. Era melhor ela manter distância ou eu ia pular nela agora mesmo. Menininha?!
Eu não respondi, mas ela já sabia a resposta.
- É muita coincidência – ela olhou de mim para o Lucius, que não disse nada.
Antes de perguntar que coincidência era essa, ela continuou.
- Então é você que vai me substituir? – ela perguntou me olhando de cima a baixo. Essa executadorazinha de m...
- Substituir?! – eu perguntei tentando entender o significado das palavras.
- O Lucius não te contou?! Eu era a dupla dele nas aulas de treino. – ela disse com um sorriso irônico aparecendo em seu rosto.
E desde quando Lucius tinha uma dupla de treino? E com uma Minogue? Eu olhei para Lucius sem entender nada. Ele apenas arqueou uma das sobrancelhas mostrando que não iria me explicar nada.
Um sentimento de magoa me atingiu diante do simples fato que se concretizou aqui: eu nunca conheci realmente Lucius. E nem o seu passado.
Eu observei a figura que estava a minha frente. Suas mãos estavam apoiadas no chão devido à colisão, ele estava agachado e seu corpo estava inclinado para frente. Mas não foi isso que me assustou. Lucius estava sem sua camisa, então eu tinha uma boa visão de suas costas. E havia as cicatrizes. O ar nos meus pulmões foi suprimido por um momento. Um silêncio crescente foi se instalando na cozinha enquanto eu encarava suas costas. Minha mão correu o caminho de uma de suas cicatrizes, mas sem eu o tocar. E mesmo assim os pêlos dos meus braços se arrepiaram. Nesse momento eu sofri, mesmo que pouco, o que ele tinha sofrido quando as recebeu.
As cicatrizes variavam de tamanho e profundidade, mas havia duas que se destacavam. Elas cobriam toda a dimensão de suas costas em forma de um V. Elas pareciam estar em carne viva, se destacando da pele, um ferimento sem total cicatrização, mas eu sabia que não eram recentes.
Ele tinha recebido a punição. Esse tipo de cicatriz só era recebida por aqueles que tinham desobedecido ao conselho ou por aqueles que eram expulsos. Especificamente por aqueles que tiveram suas asas arrancadas. Um anjo caído.
Mas ele não havia sido expulso, ele tinha pedido deserção! Ou talvez não.
Idéias começaram a se formar em minha cabeça e tentei entender o porquê dele tê-las recebido. Eu não conhecia o passado de Lucius, de onde ele tinha vindo e porque foi designado há alguns anos atrás para me proteger. Havia os motivos óbvios: o meu dom, os ataques que eu sofri no orfanato e o fato da minha irmã ser levada de mim. Mas havia algo naquela situação que me dizia que havia algo a mais, na forma que ele agia antigamente e a maneira como ele me tratava agora.
Por todo tempo que eu convivi com o Lucius eu pensei que conhecia um pouco dele, mas talvez eu estivesse enganada, talvez fosse só uma ilusão assim como eu pensava no princípio. Apenas a imagem de um anjo que me encarava pela minha janela, e por mais que eu tentasse, nunca conseguia tocá-lo, não verdadeiramente.
Ele parecia tão perdido como eu. A porta do armário a sua frente ainda estava aberta e o liquidificador também. Ele restabeleceu seu equilíbrio e pegou o liquidificador, se levantou sem olhar em minha direção, colocou o liquidificador na pia e o ligou na tomada. Eu ainda estava a seu lado, em silêncio, absorvendo tudo o que eu tinha visto. Ele tentou por um tempo fingir que nada tinha acontecido, mas eu não facilitei as coisas. Ele colocou suas mãos na beirada da pia e apertou os punhos, sua cabeça abaixou por um instante e sua respiração ficou mais pesada.
Por mais que eu tentasse aquele sentimento de remorso ainda estava em mim, eu deveria ter fingindo não ver, fazer o teatrinho que ele tinha feito, mas eu não consegui. Ele me olhou de soslaio e deve ter visto minha expressão de dor. Eu pude ver, mesmo que por segundos, que em seus olhos refletiam a mesma dor que eu sentia.
Ele soltou a pia e andou vagarosamente em minha direção, ele parecia querer me consolar, mas não fez nada para demonstrar isso. Ele parou em minha frente e me encarou. Eu levantei meu rosto para ver nitidamente seus olhos. O silêncio pairou entre nós. Durante todo esse tempo eu tentei evitar o fato que ele estava sem camisa, mas isso foi até ele dar mais um passo em minha direção e eu perder meu autocontrole. Eu baixei meus olhos de seus olhos até sua boca, então de sua boca para seu pescoço, do pescoço a seu peito e do seu peito ate sua barriga. Perfeição era a única palavra que poderia descrevê-lo. Seu tronco era afilado, seu pescoço era grosso e seu peitoral todo definido, mas não de forma exagerada. Eu poderia contar os gominhos do seu abdômen. Um desejo incontrolável se formou em mim: eu queria beijar sua boca enquanto minhas mãos contornavam seu corpo, eu queria passar as pontas dos meus dedos sob suas cicatrizes e curá-las com meu toque, eu queria me consumir nesse fogo crescente e me entregar a esse desejo. Eu dei um passo a mais e ficamos a centímetros um do outro.
Minha respiração atingiu o mesmo ritmo que a do Lucius, descompassada e acelerada. Eu pude sentir a mesma fome que eu sentia enquanto seus olhos baixavam sobre meu corpo. Eu ainda estava enrolada apenas em uma toalha, sem nada por baixo. Normalmente isso me desencorajaria, mas nesse caso só me incentivou. Minhas mãos espalmaram sobre seu peito e eu vi seus olhos fecharem. Eu deslizei minhas mãos sobre sua barriga e o observei enquanto fazia o processo. Ele gemeu baixo enquanto eu me aproximei mais e encostei meu corpo junto ao seu. Suas mãos fecharam sob meus braços suavemente, me forçando mais a ele. Minhas mãos foram para sua nuca e eu me levantei nas pontas dos pés para alcançar sua boca. Rocei meus lábios aos dele e o seu desespero aumentou. Suas mãos foram dos meus braços a minha cintura. Eu senti o impacto quando ele me puxou até a pia e me levantou para que eu sentasse nela. O peso do desejo cresceu quando suas mãos foram da cintura ate a minha coxa, ele alisou levemente para que eu as abrisse e ele ganhasse espaço entre elas. Ele se alojou ali e segurou a base da minha nuca. Eu fechei os olhos esperando um beijo, mas ele não o fez. Eu pude ouvir sua risada baixa enquanto ele aproximou seu rosto do meu. Ele beijou gentilmente minha bochecha esquerda, o meu nariz, o canto da minha boca, mordiscou meu queixo e beijou a base do meu pescoço. Minha respiração parou enquanto suas mãos deslizavam da minha cintura até a base do meu seio, ainda sob a toalha, e minhas pernas tremeram quando ele beijou novamente o vão do meu pescoço onde meu sangue pulsava. Eu não poderia conhecê-lo realmente, mas estava disposta a começar isso.
Minhas mãos baixaram da sua nuca até suas costas, eu deslizei as pontas dos meus dedos sobre as pequenas cicatrizes no topo de suas costas. Deslizei minhas mãos do topo até em baixo e senti sua maior cicatriz ganhar vida sob minhas mãos. A gema do meu dedo indicador começou suavemente a deslizar sob a cicatriz maior. O corpo de Lucius se enrijeceu sob meu contato e eu me amaldiçoei por isso. Ele tirou sua mão esquerda da minha nuca e segurou meu pulso fortemente, mas sem machucar.
- NÃO! – ele vociferou para mim. Seu rosto estava longe do meu e a outra mão sob minha coxa.
Eu olhei para ele silenciosamente perguntando Por quê? Ele se afastou de mim e me observou. Nesse momento eu tive consciência que estava apenas com uma toalha em cima da pia junto com Lucius. Não que eu não tivesse gostado, mas não era a maneira certa de chegar até ele. Eu baixei da pia e ajeitei minha toalha a meu corpo. Eu o olhei novamente pedindo explicações, mas ele só me olhou de volta com raiva.
- Não é da sua conta – ele simplesmente me disse. Suas mãos se fecharam, então ele se virou e foi em direção à geladeira pegar sei lá o que. Ele novamente fingiu não ter acontecido nada, mas dessa vez eu não aquentei simplesmente ficar ali enquanto ele me ignorava. Eu o olhei pela última vez e fui para o meu quarto.
A porta do meu quarto ainda estava aberta desde que eu fui ao banheiro. Eu olhei detalhadamente toda sua extensão. Ele tinha arrumado tudo como eu gostava. Talvez eu não o conhecesse, mas ele me conhecia bem. Eu andei lentamente até minha cama tentando entender o que tinha acabado de acontecer. Nós sempre parecíamos estar a um passo de uma loucura, seja de raiva ou amor, mas nunca passávamos do limite. Porém não foi assim hoje. Eu o havia incitado e ele tinha aceitado isso de bom grado. Eu fechei a porta atrás de mim e sentei sobre minha cama desarrumada. Minhas mãos ainda tremiam e meu corpo ainda não tinha se acostumado com a ausência das mãos de Lucius. Me deitei na cama tentando acalmar meus nervos. Minha respiração foi se acalmando lentamente. Eu olhei de esguelha o relógio sobre a escrivaninha. Oito e quinze. Droga! Eu estava atrasada. Me levantei apressadamente e vesti minha roupa. Calça jeans azul e uma regata verde. Penteei meus cabelos que estavam molhados e os prendi em um rabo-de-cavalo. Ainda bem que era aula da Helena, ela dava aula de filosofia existencial: a origem dos anjos na terra e as conseqüências desse ato – a criação dos Nefilins. Nós ainda estávamos no início da matéria, então eu não teria perdido tanta coisa.
Calcei meu all star preto rapidamente e arrumei meus livros e cadernos na minha mochila preta e branca de vaquinhas. Passei meu lápis de olho e me olhei novamente no espelho. Eu provavelmente teria que passar de novo pelo Lucius na cozinha, o que seria estranho e constrangedor. Ignore-o – eu pensei. Eu não vou conseguir ignorá-lo. –Então corra!
Eu me desloquei da frente do meu armário e fui para porta. Segurei a maçaneta fria da porta e fechei meus olhos. É só andar um pouco mais rápido. Eu abri meus olhos e comecei a abrir a porta. Corra, corra, corra, cor... – Lucius!
Ele estava à frente da minha porta com ar sério e as mãos cruzadas sobre o peito. Ele ainda estava com suas calças, mas desta vez, infelizmente, com uma camiseta preta. Eu senti meu estômago remexer relembrando as recentes cenas na cozinha. Concentra-se nas palavras, Claire.
- Esqueci de te falar. Treino hoje depois das aulas matinais.
- Mas hoje à tarde eu tenho aula...
- O Irial já liberou você da aula dele – ele me interrompeu.
- Mas você...
- O Jace vai me substituir hoje – ele disse me interrompendo novamente.
Eu fiz uma careta. Eu tinha que ter pelo menos um mês pra tentar esquecer o que tinha acontecido na cozinha. E ele estava me dando apenas cinco horas pra acostumar com a idéia de treinarmos juntos. Depois eu o agarrava na quadra e iam me chamar de louca, ou coisa pior.
- Eu sou vou demorar um pouco pra pegar minha roupa de treino e pra almoçar – eu disse segurando a alça da minha mochila tentando desvanecer minha raiva.
- Eu já peguei sua roupa de treino, está no seu armário. E você tem meia hora pra almoçar. – ele disse e se virou andando de volta pra cozinha.
Meia hora de almoço?! Talvez quando eu vomitasse nele, ele mudasse de idéia. Mas eu não tinha tempo pra contestar isso, eu estava atrasada para aula. Eu voltei para meu quarto e peguei minha roupa de treino sem dar uma segunda olhada. Passei pelo corredor e dei minhas costas para cozinha, indo direto para porta, sem olhar o rosto do Lucius.
A raiva me atingiu quando ainda estava indo pra classe. Eu lembrei de como ele estava frio e ausente enquanto eu estava totalmente abalada com a situação. Pensando bem ele tinha agido estranho de manhã. Começando pelo fato que ele não me ouvir chegar ou não desviou do meu chute hoje de manhã e depois ele parecia estar perdido como se algo tivesse acontecido, além do fato de eu ter visto suas cicatrizes, e finalmente ele tinha perdido o controle como ele nunca tinha perdido antes. Ele agiu de uma forma estranha, mas eu tinha gostado. Eu ri baixo lembrando do que eu tinha falado ontem à noite. Eu teria que treinar melhor meu jeito de pedir de desculpa.
Eu abri a porta rapidamente tentando não fazer barulho.
- Desculpa ao atraso. – eu disse a Helena.
Mas ao invés de uma pessoa na frente da classe, tinha duas. Eu pensei que todos me olhariam nesse momento, mas eles estavam focados na figura que estava ao lado de Helena. Helena era baixinha, com olhos negros e cabelos loiros escuros. Não apresentava ter mais de 34 anos. Ela vestia um vestido longo bege e tinha seu cabelo preso. Ela não era um anjo como a maioria dos mestres e sim uma principado. Foi por sua vasta experiência que ela tinha sido convidada a dar aulas no Instituto.
- Pode se sentar, Claire – ela disse educadamente.
Eu vi a estranha ao seu lado me dar uma atenção maior quando meu nome foi dito. Ela parecia estar feliz com a notícia de saber quem eu era. Eu me sentei no fundo da sala, dando um ‘oi’ silencioso pra Moira e pra Celina que eu estavam mais a frente.
Eu voltei minha atenção pra aula. A mulher que estava ao lado de Helena tinha um rosto oval e feições fortes. Sua pele era morena, seus cabelos eram longos e negros e seus olhos eram grandes e negros. Ela usava um jeans preto bem justo, uma sandália fechada de salto alto e uma camisete branca. Suas mãos estavam cruzadas para trás e seus pés levementes separados. Só pela sua postura eu sabia que ela era um principado formado.
- Como eu dizia a matéria de filosofia existencial será dividida entre mim e a senhorita Minogue. Eu fiquei incumbida de dar aula sobre os Tempestades e suas diversificações na terra. E a senhorita Minogue ficou coma parte de Nefilins. Luiza... – Helena deu a palavra para morena a seu lado.
Luiza, como Helena tinha dito, começou a falar, mas eu não dei a mínima atenção. No momento que Helena tinha dito o nome Minogue, eu parei de ouvir. Assim como toda a turma, eu sabia muito bem o que aquele sobrenome significava. Ela não era um principado e sim uma executadora. Os executadores eram principados que tinham desistido do seu destino de proteger anjos e resolveram caçar o que nos perseguia. Eles caçavam demônios, anjos caídos, djins, espectros e vampiros. Executadores eram lendas entre os novos principados. Eles agiam sozinhos sem ajuda de ninguém e muito menos do Instituto. Normalmente o Instituto também não gostava de envolver seu nome com esses desertores, mas parecia que isso não os impediu de chamar um deles pra nos dar aula. Mas não era só isso. Eles tinham chamado Luiza Minogue. Eu passei a aula inteira pensando como seria ter a executadora mais foda dando aula pra gente.
- Ca-ra-lho! Luiza Minogue vai dar aula pra gente. Deu pra entender isso?! A Minogue nossa treinadora. – Moira nos disse, eu e Celina, com todo seu entusiasmo.
Eu a encarei de volta.
- Imagina acordar toda manhã e saber um pouco de como é matar um vampiro ou como acabar com um demônio. E não através de livros e sim de histórias que realmente aconteceram. – Celina disse ao meu lado.
- Alguém notou que ela tava olhando demais pra mim? – eu disse encucada. Ela tinha passado maior parte da aula me encarando como se fosse algo divertido a se fazer.
- Eu reparei nisso, foi até meio estranho – Celina me disse.
- Oi!? Ela é Luiza Minogue, ela pode fazer o que ela quiser, colega! – Moira me disse rindo.
Eu e Celina rimos.
- Falando em estranho, porque você se atrasou? – Moira me perguntou.
- Longa história – eu tentei disfarçar.
- Então quer dizer que tem uma história? – Moira retrucou.
Eu a cutuquei com meu cotovelo. Ela só riu em resposta.
- Aaaah. Mas é agora mesmo que eu quero saber como é passar a noite com o Lucius.
Eu ri sem graça lembrando do que tinha acontecido.
Nós entramos no refeitório e avistamos Sam e Jeremi que estavam no canto do salão em uma mesa nos esperando, já com suas bandejas. Nos entramos na fila de refeição.
- Aí como foi? – Celina perguntou curiosa.
- Bem eu dormi...
- Pula o papo furado e chega à parte interessante. Aconteceu alguma coisa? – Moira perguntou.
- Claro que não. – eu disse na defensiva.
- Você tem certeza disso? – Moira perguntou desconfiada.
Eu apenas a encarei de volta.
- Claire – Alguém falou hesitante atrás de mim. Eu olhei para trás e deu de cara com minha irmã.
- Bianca! – eu disse eufórica . Eu a abracei fortemente agradecida por ela me salvar das meninas. Eu queria contar a elas, mas ainda não era o momento certo.
- Eu posso conversar com você – ela disse um pouco séria. Eu a encarei preocupada e assenti. Enquanto eu ia para uma mesa próxima à fila, eu pude ver moira sibilando pra mim “não passa da próxima”. Eu simplesmente dei de ombros e sorri pra ela.
- E aí, já melhorou? – ela me disse com um sorriso sem graça. Ela estava preocupada e eu sabia disso.
- Com ajuda de Camille foi mais fácil. Você sabe... – eu me referi ao dom que Camille possuía.
- Ainda bem. – ela tirou suas mãos debaixo da mesa e segurou as minhas. Agora eu estava preocupada.
- Ta animada pro baile de iniciação? – ela ainda estava sorrindo. Eu estranhei a mudança de assunto, mas continuei.
- Claro! Eu, Celina, Moira e Single Ladies. – ela me olhou confusa. Eu dei de ombros – Esquece a parte das Single. Mas sim eu to bem animada. Por quê?
- Claire, eu sei que eu disse que iria estar na sua iniciação...
- A não! Você vai me deixar sozinha no palco? – eu perguntei indignada.
- Não é bem assim. – ela tentou suavizar as coisas – O instituto me convidou para apresentar a festa e eu aceitei.
- Então você vai estar lá, certo?
- Vou, mas não vou poder estar ao seu lado na hora da passagem.
Eu lhe lancei um olhar de descrença. Bianca era minha irmã gêmea, não idêntica, mas eu sentia uma forte conexão com ela. Mas desde que ela se foi do orfanato as coisas não foram às mesmas. Ela mal me visitava e agora estava falando que não poderia participar da parte mais importante da iniciação: minha apresentação ao conselho.
- Você não pode simplesmente me deixar sozinha na minha apresentação! – eu disse brava e magoada.
- Você sabe como o conselho é, Claire. – ela disse tentando me convencer da situação.
- É. Eu sei. – eu me levantei da mesa e peguei minha mochila que estava encostada na cadeira.
- Você mudou de dormitório. – ela disse mais séria e brava – Foi pro do Lucius.
Uou. Ela tinha mudado de assunto de novo e sem aviso algum.
- E...? – eu disse indiferente.
-Eu fui essa manhã no seu dormitório conversar com você sobre esse assunto, mas você estava tomando banho.
Eu esperei que ela chegasse a alguma conclusão.
- Ele parecia estranho, Claire – ela pareceu hesitante – Só... Só tome cuidado.
Eu a olhei desconcertada. Tomar cuidado com o Lucius?! Ela me deixou sozinha por anos e único que esteve lá pra me acalmar depois das minhas visões foi ele. Ele era praticamente meu protetor e ela estava me mandando ter cuidado. Eu a olhei com suspeita. Ela parecia saber alguma coisa do Lucius. Mas eu estava nervosa de mais pra discutir a questão “como você sabe disso?” Isso teria que ficar pra próxima. Se visse ela novamente, claro!
- Falando em Lucius... Eu tenho um treino com ele agora. – eu disse zangada.
-Mas você nem almoçou?! – Bianca me olhou brava.
- Perdi a fome.
E antes que eu falasse algo que ela não gostasse, eu saí do refeitório.
Eu atravessei o corredor que dava ao ginásio rapidamente. Eu já estava quinze minutos atrasada. De novo. Lucius iria me matar! Com toda aquela disciplina e rispidez, ele me faria dar cinqüenta voltas na quadra antes de começar o treino. Eu cheguei à porta do ginásio respirando fundo, abri minha mochila pegando minha roupa pra trocar. Eu iria ao banheiro trocar de roupa e não daria explicações e só! Se prepara!Eu abri a porta.
Uma risada forte e longa soou no meio da quadra. Eu reconheci essa risada. Era do Lucius. Era uma raridade quando ele ria, mas quando acontecia... Eu tentei me concentrar nos fatos e não no meu desespero de saber o porquê de ele rir tão abertamente. A porta atrás de mim se fechou e com isso um barulho se espalhou pela quadra. Lucius se virou para mim e eu pude ver quem estava atrás dele.
Ela ainda usava seus jeans apertados e feições fortes. Luiza Minogue.
Ela olhou diretamente pra mim, ainda se recuperando da risada que compartilhava com Lucius. Eu senti minhas mãos se fecharem em punhos sobre minha roupa. Ela passou uma de suas mãos no ombro de Lucius e diferente da reação que eu esperava, ele se sentiu cômodo com o gesto. Como ela se atreve... AH!
Eu a idolatrava até o momento de ver essa cena. Eles pareciam íntimos de alguma forma. Ele riu com ela e não dela, como ele fazia comigo.
- Então você é a menininha que inferniza a vida do Lucius? Claire? – ela perguntou divertida.
Suas mãos já estavam soltas, ente a seu corpo. Ela andou em minha direção, com alguns metros nos distanciando. Era melhor ela manter distância ou eu ia pular nela agora mesmo. Menininha?!
Eu não respondi, mas ela já sabia a resposta.
- É muita coincidência – ela olhou de mim para o Lucius, que não disse nada.
Antes de perguntar que coincidência era essa, ela continuou.
- Então é você que vai me substituir? – ela perguntou me olhando de cima a baixo. Essa executadorazinha de m...
- Substituir?! – eu perguntei tentando entender o significado das palavras.
- O Lucius não te contou?! Eu era a dupla dele nas aulas de treino. – ela disse com um sorriso irônico aparecendo em seu rosto.
E desde quando Lucius tinha uma dupla de treino? E com uma Minogue? Eu olhei para Lucius sem entender nada. Ele apenas arqueou uma das sobrancelhas mostrando que não iria me explicar nada.
Um sentimento de magoa me atingiu diante do simples fato que se concretizou aqui: eu nunca conheci realmente Lucius. E nem o seu passado.
domingo, 25 de abril de 2010
Capítulo 7 - *Surpresas:
- Ainda dói quando eu encosto aqui? – Camille me perguntou ainda olhando para perna que ela estava retirando os pontos.
- Não – eu disse pacientemente enquanto a olhava fazer o seu trabalho.
- Impressionantemente você se recuperou mais rápido do que o previsto. – ela limpou a ferida recém curada com álcool e anticéptico.
Eu assenti enquanto ela levantava a outra perna e repetia o processo. Eu poderia dizer que minha recuperação rápida foi por parte minha culpa, mas eu tinha certeza que uma parte foi devido o dom de cura de Camille. Ela fora um dos principados que treinaram no Instituto, mas diferentes deles, que preferiram ir colocar suas habilidades em prova, ela tinha preferido continuar no Instituto e se focar em desenvolver seu dom de cura. Não se sabe muito sobre o quanto que um dom possa se desenvolver, mas alguns casos já foram retratados durante a história como milagrosos.
Ela sorriu para mim e andou ate a cabeceira da cama.
- Como vai seu pulso? – ela falou enquanto o segurava e tirava a gaze.
- Ele esta ótimo. Até te mandou um oi! – eu disse rindo da expressão sem graça dela. Camille tinha o cabelo negro até o ombro, um pouco repicado nas pontas e com uma franja. Ela usava uma calça jeans branca, uma blusa azul-clara com gola V e um jaleco branco por cima. Ela era uma perfeita enfermeira.
Eu me forcei a parar de rir.
– Ta bom, Camille. Eu já te disse que melhorou.
Pra falar a verdade o meu pulso ainda doía um pouco, mas nada que eu não pudesse ignorar. Eu estava ansiosa demais pra continuar naquele quarto.
- Eu sei que já te perguntei – ela disse fazendo uma careta – mas não tem nada de mal perguntar de novo!
Eu rolei os olhos.
- Ta bom Camille. – eu disse rindo enquanto ela ainda mexia no meu pulso.
Ela soltou o meu pulso momentaneamente para pegar o álcool e voltou a segurá-lo. Passou o álcool e o soltou.
- Pronto. Agora posso trazer seu café da manhã? – ela disse com uma das mãos na cintura.
-Isso depende. – eu cruzei meus braços com mesmo ar contestador que o dela – tem bolo com recheio de brigadeiro?
Ela deu um breve riso.
- Tem.
- Então traga-me o bolo, mulher. – eu disse me forçando a ficar séria.
Dessa vez foi ela que revirou os olhos.
- Sinceramente... Espero que você nunca mais sofra qualquer tipo de lesão, menina mimada – ela saiu rindo do quarto. Eu também ri considerando o que ela falou. Eu também esperava que isso nunca mais acontecesse, mas algo me dizia que isso não ia ser a última vez.
Houve alguns tropeços e risos do lado de fora do meu quarto.
-Faz assim, eu e a Celina entramos primeiro e depois vocês entram. – uma voz bem parecida com a da Moira soou fraca através da pequena janela que dava para o corredor.
- Por quê? –soou uma voz estridente e chateada. Definitivamente era o Jeremi.
-Porque, oi, nós somos as melhores amigas dela e tem uma semana que a gente não vê ela.
- Não a vê – uma voz calma disse. Celina. Eu pude imaginar nitidamente a cara de descrença da Moira nesse exato momento. – O que? Foi você que falou errado, sua analfabeta.
- Ta Celina. Tem uma semana que nós não a vemos, querido Jeremi. – mesmo com a janela entre nós eu pude sentir a nota de sarcasmo na voz da Moira – e tem coisas que vocês não podem ouvir.
- Tipo o quê? – Jeremi disse todo irritado.
- Tipo: o que aconteceu depois do boca-a-boca com o Lucius! – Moira tinha um ponto aí. Eu me contorci na cama pensando no tipo de perguntas que ela ia fazer. E mais, como ela sabia do Lucius?
- Ta, eu já entendi. – Jeremi disse mais convencido dessa vez.
Houve algum tempo de silêncio até a Moira falar.
- E vocês ainda continuam aqui por que...
- Bem você quer que a gente espere a onde, Moira – a voz era mais forte e determinada.
- Em qualquer lugar longe dessa janela, Sam – Moira disse friamente – e não precisa fazer essa cara não. Pode deixar que nós não vamos falar nada pra despurificar sua delicada Celina. Agora vão.
- Eu acho que a Celina não é tão pura... – a voz de Jeremi soou divertida – Aí! Sam, eu to falando alguma mentira?!
Nesse momento ouve vários sons, mas o mais evidente foi um soco.
- Ta bom Sam. No vou falar mais nada. – Jeremi disse magoado. Enquanto isso a Moira e a Celina riam descontroladamente. E eu também ri. Um dia o Jeremi ia falar uma coisa dessas pra alguém que não tinha tanta paciência assim e aí...
Alguns passos foram dados, e eu percebi que os meninos tinham ido. Eu pude ouvir um breve “até que enfim” da Moira e então passos foram dados até a porta.
Toc.
- Pode... – A porta foi escancarada rapidamente e eu pude ver minhas duas melhores amigas entrar no quarto da enfermaria carregando minha bandeja de café da manhã. Elas sorriram para mim.
- SURPRESA! – eu ri brevemente. É, grande surpresa.
- Gente, sério, eu nunca esperei por isso – eu disse colocando minhas mãos juntas sob meu tórax. Celina não pareceu entender meu deboche, já Moira...
- Pára de ser chata, pelo menos nós trouxemos seu café da manhã, isso sem contar o esforço que a gente fez pra convencer a Camille pra deixar a gente vir aqui. –Moira me entregou a bandeja e se sentou ao meu lado. Ela parecia mais arrumada do que o normal. Ela usava um jeans preto básico, uma camiseta longa justa branca com uma escrita dourada ‘We are golden’ e um scarpin vermelho. Seu cabelo preto estava solto em contato com seu rosto moreno que não tinha nenhuma maquiagem. Arrumada demais pro meu gosto.
- Não vai comer o seu bolo? – Moira disse percebendo que eu estava olhando demais pra ela. Eu olhei meu bolo, quer dizer, eu olhei pra metade do meu bolo.
- Você comeu meu bolo? – eu disse acusadoramente pra Moira. Porque, sinceramente, eu sabia que só podia ser ela a fazer isso. Ou o Jeremi, mas como ele foi expulso.
- Não me olha assim. Eu tava com fome. – ela disse com ar de inocência. Meu bolo de brigadeiro. Eu chorei silenciosamente enquanto olhava para o bolo.
- Não culpa ela, Claire. Você sabe como ela fica ansiosa quando ela tem encontros – Celina sorriu ligeiramente para Moira – com o Irial.
Eu encarei Moira embasbacada. Eu passei UMA semana fora e ela já teve um encontro com Irial? Isso explica a roupa. Eu abri um pouco mais minha boca. Eu me ergui na minha cama e me sentei, olhando bem dentro dos os olhos da Moira.
- Você teve um E-N-C-O-N-T-R-O com o Irial? – eu disse incrédula.
- Não foi bem um encontro. – Moira disse, pela primeira vez na sua vida, sem graça.
- Pode ate não ser um encontro, mas quando a Moira ficou sabendo anteontem que o Irial queria falar com ela hoje de manha, ela teve um treco. – Celina cruzou os braços sob seu vestido branco com rosas vermelhas e sorriu pra mim. E eu percebi que ela estava tão divertida com essa situação como eu.
- Eu preciso de detalhes amiga. – eu disse olhando da Celina para a Moira, esperando que uma das duas me falassem alguma coisa.
- Ele não falou só comigo, infelizmente – Moira acrescentou, emburrada, olhando pra Celina – e nem sobre mim.
Eu a olhei confusa. Celina riu da expressão da Moira.
- Pra falar a verdade no outro dia o Irial falou que queria falar comigo e com a Moira - Celina descruzou os braços e encostou as duas mãos na grade no final da minha cama e me encarou – sobre você.
- Sobre mim?! – eu disse surpresa.
- É. Sobre você! – agora a Moira parecia mais feliz. Trocar o foco dela pra mim teve esse efeito – Claire eu não sei se fico mais chocada com o fato que um espectro conseguiu entrar no Instituto só pra matar você ou com o fato do Lucius fazer uma respiração boca-a-boca em você!
- Ou com o fato que você vai se mudar pro dormitório do Lucius – Celina completou.
- Ou isso! – Moira gesticulou para mim.
Eu olhei para as duas que pareciam esperar alguma explicação. Como se eu soubesse! Mas o pior não era isso. Cara, se elas sabiam disso, todo o Instituto sabia e se todo Instituto sabia, eu tava fodida. Droga!
- Eu não pedi por isso, ta bom! – eu disse na defensiva.
- Não pediu, mas ta adorando – Moira disse sorrindo e se recostando na cadeira.
- Não to não – eu disse afundando mais minhas costas na cabeceira da cama. – Dessa vez é diferente.
- Diferente? – Celina arqueou uma sobrancelha.
- Ela ta se referindo quando ela morava no orfanato, Celina – Moira olhava para Celina, divertida. – Era só ela chegar com aquele papinho ‘I see dead people’ e o Lucius, romanticamente, consolava ela.
- Aaaah. Diferente – disse como se não acreditasse em mim.
- Não é bem assim, ne Moira! – eu disse zangada. Papinho ‘I see dead people’, o cú dela.
- Ta, tanto faz. Agora raciocina comigo. Imagina acordar todos os dias sabendo que o deus grego, Lucius, ta bem no quarto ao lado.
- E não poder fazer nada. – eu acrescentei.
- Você sempre olhando pelo lado negativo, Claire.
Celina riu da nossa discussão, como sempre. E como sempre ignorou.
- Voltando o foco para o que interessa... – Celina tirou seus braços da grade e cruzou os braços novamente – O fato é que o Irial nós chamou pra avisar que soube através da Camille que você já tinha se recuperado e que devido os recentes ataques você ia mudar do nosso dormitório pro do Lucius, amanhã!
- Amanhã?! – eu disse novamente incrédula. Eu esperava pelo menos uma semana de preparação psicológica antes de ir pro outro dormitório e não amanhã. – Eu podia ter me afogado na piscina.
- Não fala assim, amiga – Moira disse fingindo estar ofendida – Esse é um jeito muito não-diva de morrer. Além do mais quem vai dançar ‘Single Ladies’ com a gente na festa de iniciação?
Eu revirei os olhos. Ela estava escutando Beyoncé de mais.
- Eu já disse que não vou dançar!
- Como se você tivesse escolha – Celina me disse debochadamente.
- Você tem certeza que não quer ajuda? – Jeremi deu ênfase no ‘certeza’ como se isso fosse mudar alguma coisa.
- Tenho Jeremi – eu disse com descrença – Você sabe como o Lucius é. Ele disse que não queria ninguém no quarto.
- É. Além de você, é claro – Jeremi disse sarcasticamente. Eu o encarei com uma expressão brava, como se dissesse ‘já-passou-da-hora-de-você-ir’, mas ele não entendeu a indireta.
Eu passei quase a tarde inteira carregando caixas, com a ajuda da Moira, Celina, Jeremi e o Sam, até o quarto quase-inexistente do Lucius. Mais o final da tarde descarregando tudo e arrumando o que dava pra arrumar. Agora só faltava a parte mais difícil: montar a cama e o quarda-roupa. E quando eu disse que essa parte o Lucius iria fazer todo mundo entendeu, pra falar a verdade, alguns até vibraram com a notícia. Mas não o Jeremi.
- Deixa a caixa aqui e vai embora Jeremi – eu disse brava.
-Ta bom... Ta bom. – Ele se abaixou do lado da porta e deixou a caixa com as partes da minha cama.
- Tchau, sua ingrata – ele disse todo ofendido. Eu rolei os olhos com essa declaração.
- Boa noite Jeremi – eu beijei seu rosto e fechei a porta do quarto. Eu pude ouvir os resmungos e passos fortes que o Jeremi dava. Ele me perdoaria amanhã, eu tinha certeza.
Encostei minha testa na porta e respirei. Eu to no dormitório do Lucius – eu pensei rapidamente. Dormitório não era bem a palavra certa pra definir onde o Lucius dormia. Durante toda minha estadia no Instituto eu nunca pensei onde o Lucius dormia, isso até a semana passada. Depois que os meninos entraram na enfermaria e me fizeram à visita, Sura veio oficializar minha mudança do outro dia. Ela já tinha explicado para os meninos que o Lucius dormia na parte inferior do Instituto, dentro da quadra das piscinas olímpicas. Especificamente no corredor lateral da quadra. Eu já tinha visto uma porta bem no fim do corredor, mas nunca imaginei que alguém vivesse ali. Mas a maior surpresa não foi essa.
Eu posso lembrar do rosto da Moira e da Celina claramente. Assim como eu elas ficaram admiradas com o lugar. A primeira parte tinha uma pequena sala com um sofá preta de couro sintético e uma televisão. Mais a frente uma banqueta de granito que separava a sala da mini-cozinha que ficava ali. Na cozinha tinha quase tudo: geladeira, cafeteira, microondas, uma pia e um fogão. O que me fez pensar se Lucius cozinhava, mas isso não importava naquele momento.
Ao lado tinha um pequeno corredor que dava pra três quartos: o primeiro era o banheiro, um era o quarto do Lucius e outro era um quarto vago, todo sujo e desarrumado. Bem esse era o meu quarto.
Eu suspirei novamente pensando em toda a bagunça que eu teria que arrumar até que o quarto ficasse do jeito que eu queria. Eu desencostei minha testa da porta dando graças a Deus do Jeremi ter ido, já me bastava ter que suportar o Lucius durante a arrumação do meu quarto.
E quando eu ia me virar...
- Expulsando as crianças do playground? – Lucius disse atrás de mim.
Eu pulei com o susto e tentei me afastar, mas ele me sustentou no lugar. Sua boca estava a centímetros do meu ouvido e sua mão estava em minha cintura, segurando levemente. Minha pele queimou sob sua mão e minha respiração acelerou. Eu tinha meus olhos fechados quando coloquei minha mão sobre a dele tentando o afastar. Algo se quebrou dentro de mim quando nossas mãos se encostaram e então ele se afastou. Eu me virei pra ele.
- Essa é a caixa? – ele perguntou rapidamente.
- An? – eu disse sem entender o que ele tinha dito.
- A caixa com a sua cama? – ele disse com um sorriso aparecendo em seu rosto.
Eu tinha entendido só a parte ‘sua cama’, mas mesmo assim eu assenti. Ele veio em minha direção me olhando duramente e ficou próximo, próximo de mais. Ele se abaixou e pegou a caixa. Então ele se afastou e foi em direção ao meu quarto com a minha cama. Deus, eu não ia aquentar muito disso!
Eu o segui insegura até o meu quarto e encostei o meu ombro no batente da porta com os braços cruzados e o observei. Ele usava uma daquelas calças de algodão branca solta e uma blusa preta que teimava a se ajustar a seu corpo. Eu me forcei a olhar em seu rosto. Ele tinha a mesma feição de antes, mas seu cabelo tinha crescido alguns centímetros. Ele olhou pra mim bem nesse momento.
- Vai me ajudar ou só vai ficar olhando? – disse com o ar de sério. Independentemente disso eu me senti corar. Droga! Eu odeio corar.
Ele baixou os olhos ao chão e riu disfarçadamente. Se ele estava tentando melhorar a situação, não estava funcionando. Ele voltou a olhar pra mim.
- Você quer que eu comece com a cama ou com o quarda-roupa?
Eu tentei me desvencilhar da idéia da cama, sem considerar o fato que eu tinha que dormir daqui a pouco.
- Com o quarda-roupa – eu disse mais como uma pergunta do que um a afirmativa. Ele assentiu em afirmativa.
- Qual das caixas? – ele perguntou ainda agachado.
- Aquelas ali. – eu apontei ao fundo do quarto onde ficaria meu quarda-roupa.
Ele se levantou e foi em direção à caixa. Eu sai da porta e o segui até ficar atrás dele. Ele se agachou e abriu uma das caixas. Seu corpo se enrijeceu e eu pude sentir que ele fechava seus punhos em volta de algo. Eu tentei ver o que era, mas suas costas eram grandes de mais para eu ver alguma. Eu encostei uma das minhas mãos espontaneamente em suas costas tentando me aproximar e ver o que era. Mas antes que eu pudesse ver ele se levantou e se virou tão rapidamente que eu nem pude ver. Ele segurou o pulso da mão que tinha o encostado e, infelizmente, era o mesmo que estava machucado. Na outra mão tinha o objeto que causava tanta raiva: a garrafa de água do Lucius. Merda!
- Foi você! – ele disse apertando o maxilar – Você pegou minha garrafa?
Depois que ele meio que gritou isso e apertou meu pulso de novo, não teve como eu mentir aqui.
- É só uma garrafa! – eu gritei de volta – Fazia parte de uma brincadeira...
-Você não tem noção do que faz, menina! – Ele se aproximou forçando meu pulso. Eu gemi sob seu aperto tentando não demonstrar medo e nem dor.
- Da próxima vez que você mexer nas minhas coisas... – ele soltou meu pulso em um empurrão e a garrafa em outro. E olhou fixamente para mim. – Não haverá próxima vez.
Ele disse isso mais pra si mesmo do que para mim. Eu tentei me desculpar, mas ele já tinha ido. Eu pude ouvir o som da porta de seu quarto ser fechada e então um surdo som de algo ser quebrado. Eu peço desculpa pra ele amanhã. Eu encarei o quarto. Ele estava tão sujo e desarrumado como antes. Eu vi a garrafa girar e se encostar no meu colchão que ainda estava no meio do quarto. Eu me deitei nele e olhei o teto. Eu não tinha montado nem minha cama e nem meu quarda-roupa, não tinha tomado banho e nem escovado os dentes. Eu considerei seriamente ir ao banheiro, mas passar na frente do quarto do Lucius não era uma opção. Não tinha outra hora pro Lucius brigar comigo, sei lá, depois de arrumar meu quarto, por exemplo.
Eu acordei vagarosamente, me espreguiçando e sentindo um gosto amargo na boca. Eu precisava tomar um banho urgentemente. Eu me sentei no colchão e passei as mãos no meu cabelo.
- A meu Deus – eu encarei o quarto que estava totalmente arrumado. Tudo. Quarda-roupa. Roupa dentro do quarda-roupa. Cama. Colchão em cima da cama. Eu em cima do colchão que estava... Enfim, tudo arrumado. Eu teria, além de pedir desculpa, que agradecer eternamente o Lucius pelo o que ele fez aqui.
Eu andei ate uma cadeira, que estava em uma escrivaninha perto da cama, e peguei minha toalha que estava lá. Eu já tinha deixado minha escova no banheiro, então...
Eu fui ao banheiro com minha toalha e observei que não tinha ninguém no dormitório. Entrei, escovei meus dentes e fui tomar banho.
De banho tomado eu me enxuguei e me enrolei na minha toalha. Eu preciso de um café – eu pensei sonolentamente. Eu andei até a cozinha mais dormindo que acordada e...
- Aí! – eu reclamei. Eu olhei o que eu tinha chutado acidentalmente e então... A.Meu.Deus!!!
- Não – eu disse pacientemente enquanto a olhava fazer o seu trabalho.
- Impressionantemente você se recuperou mais rápido do que o previsto. – ela limpou a ferida recém curada com álcool e anticéptico.
Eu assenti enquanto ela levantava a outra perna e repetia o processo. Eu poderia dizer que minha recuperação rápida foi por parte minha culpa, mas eu tinha certeza que uma parte foi devido o dom de cura de Camille. Ela fora um dos principados que treinaram no Instituto, mas diferentes deles, que preferiram ir colocar suas habilidades em prova, ela tinha preferido continuar no Instituto e se focar em desenvolver seu dom de cura. Não se sabe muito sobre o quanto que um dom possa se desenvolver, mas alguns casos já foram retratados durante a história como milagrosos.
Ela sorriu para mim e andou ate a cabeceira da cama.
- Como vai seu pulso? – ela falou enquanto o segurava e tirava a gaze.
- Ele esta ótimo. Até te mandou um oi! – eu disse rindo da expressão sem graça dela. Camille tinha o cabelo negro até o ombro, um pouco repicado nas pontas e com uma franja. Ela usava uma calça jeans branca, uma blusa azul-clara com gola V e um jaleco branco por cima. Ela era uma perfeita enfermeira.
Eu me forcei a parar de rir.
– Ta bom, Camille. Eu já te disse que melhorou.
Pra falar a verdade o meu pulso ainda doía um pouco, mas nada que eu não pudesse ignorar. Eu estava ansiosa demais pra continuar naquele quarto.
- Eu sei que já te perguntei – ela disse fazendo uma careta – mas não tem nada de mal perguntar de novo!
Eu rolei os olhos.
- Ta bom Camille. – eu disse rindo enquanto ela ainda mexia no meu pulso.
Ela soltou o meu pulso momentaneamente para pegar o álcool e voltou a segurá-lo. Passou o álcool e o soltou.
- Pronto. Agora posso trazer seu café da manhã? – ela disse com uma das mãos na cintura.
-Isso depende. – eu cruzei meus braços com mesmo ar contestador que o dela – tem bolo com recheio de brigadeiro?
Ela deu um breve riso.
- Tem.
- Então traga-me o bolo, mulher. – eu disse me forçando a ficar séria.
Dessa vez foi ela que revirou os olhos.
- Sinceramente... Espero que você nunca mais sofra qualquer tipo de lesão, menina mimada – ela saiu rindo do quarto. Eu também ri considerando o que ela falou. Eu também esperava que isso nunca mais acontecesse, mas algo me dizia que isso não ia ser a última vez.
Houve alguns tropeços e risos do lado de fora do meu quarto.
-Faz assim, eu e a Celina entramos primeiro e depois vocês entram. – uma voz bem parecida com a da Moira soou fraca através da pequena janela que dava para o corredor.
- Por quê? –soou uma voz estridente e chateada. Definitivamente era o Jeremi.
-Porque, oi, nós somos as melhores amigas dela e tem uma semana que a gente não vê ela.
- Não a vê – uma voz calma disse. Celina. Eu pude imaginar nitidamente a cara de descrença da Moira nesse exato momento. – O que? Foi você que falou errado, sua analfabeta.
- Ta Celina. Tem uma semana que nós não a vemos, querido Jeremi. – mesmo com a janela entre nós eu pude sentir a nota de sarcasmo na voz da Moira – e tem coisas que vocês não podem ouvir.
- Tipo o quê? – Jeremi disse todo irritado.
- Tipo: o que aconteceu depois do boca-a-boca com o Lucius! – Moira tinha um ponto aí. Eu me contorci na cama pensando no tipo de perguntas que ela ia fazer. E mais, como ela sabia do Lucius?
- Ta, eu já entendi. – Jeremi disse mais convencido dessa vez.
Houve algum tempo de silêncio até a Moira falar.
- E vocês ainda continuam aqui por que...
- Bem você quer que a gente espere a onde, Moira – a voz era mais forte e determinada.
- Em qualquer lugar longe dessa janela, Sam – Moira disse friamente – e não precisa fazer essa cara não. Pode deixar que nós não vamos falar nada pra despurificar sua delicada Celina. Agora vão.
- Eu acho que a Celina não é tão pura... – a voz de Jeremi soou divertida – Aí! Sam, eu to falando alguma mentira?!
Nesse momento ouve vários sons, mas o mais evidente foi um soco.
- Ta bom Sam. No vou falar mais nada. – Jeremi disse magoado. Enquanto isso a Moira e a Celina riam descontroladamente. E eu também ri. Um dia o Jeremi ia falar uma coisa dessas pra alguém que não tinha tanta paciência assim e aí...
Alguns passos foram dados, e eu percebi que os meninos tinham ido. Eu pude ouvir um breve “até que enfim” da Moira e então passos foram dados até a porta.
Toc.
- Pode... – A porta foi escancarada rapidamente e eu pude ver minhas duas melhores amigas entrar no quarto da enfermaria carregando minha bandeja de café da manhã. Elas sorriram para mim.
- SURPRESA! – eu ri brevemente. É, grande surpresa.
- Gente, sério, eu nunca esperei por isso – eu disse colocando minhas mãos juntas sob meu tórax. Celina não pareceu entender meu deboche, já Moira...
- Pára de ser chata, pelo menos nós trouxemos seu café da manhã, isso sem contar o esforço que a gente fez pra convencer a Camille pra deixar a gente vir aqui. –Moira me entregou a bandeja e se sentou ao meu lado. Ela parecia mais arrumada do que o normal. Ela usava um jeans preto básico, uma camiseta longa justa branca com uma escrita dourada ‘We are golden’ e um scarpin vermelho. Seu cabelo preto estava solto em contato com seu rosto moreno que não tinha nenhuma maquiagem. Arrumada demais pro meu gosto.
- Não vai comer o seu bolo? – Moira disse percebendo que eu estava olhando demais pra ela. Eu olhei meu bolo, quer dizer, eu olhei pra metade do meu bolo.
- Você comeu meu bolo? – eu disse acusadoramente pra Moira. Porque, sinceramente, eu sabia que só podia ser ela a fazer isso. Ou o Jeremi, mas como ele foi expulso.
- Não me olha assim. Eu tava com fome. – ela disse com ar de inocência. Meu bolo de brigadeiro. Eu chorei silenciosamente enquanto olhava para o bolo.
- Não culpa ela, Claire. Você sabe como ela fica ansiosa quando ela tem encontros – Celina sorriu ligeiramente para Moira – com o Irial.
Eu encarei Moira embasbacada. Eu passei UMA semana fora e ela já teve um encontro com Irial? Isso explica a roupa. Eu abri um pouco mais minha boca. Eu me ergui na minha cama e me sentei, olhando bem dentro dos os olhos da Moira.
- Você teve um E-N-C-O-N-T-R-O com o Irial? – eu disse incrédula.
- Não foi bem um encontro. – Moira disse, pela primeira vez na sua vida, sem graça.
- Pode ate não ser um encontro, mas quando a Moira ficou sabendo anteontem que o Irial queria falar com ela hoje de manha, ela teve um treco. – Celina cruzou os braços sob seu vestido branco com rosas vermelhas e sorriu pra mim. E eu percebi que ela estava tão divertida com essa situação como eu.
- Eu preciso de detalhes amiga. – eu disse olhando da Celina para a Moira, esperando que uma das duas me falassem alguma coisa.
- Ele não falou só comigo, infelizmente – Moira acrescentou, emburrada, olhando pra Celina – e nem sobre mim.
Eu a olhei confusa. Celina riu da expressão da Moira.
- Pra falar a verdade no outro dia o Irial falou que queria falar comigo e com a Moira - Celina descruzou os braços e encostou as duas mãos na grade no final da minha cama e me encarou – sobre você.
- Sobre mim?! – eu disse surpresa.
- É. Sobre você! – agora a Moira parecia mais feliz. Trocar o foco dela pra mim teve esse efeito – Claire eu não sei se fico mais chocada com o fato que um espectro conseguiu entrar no Instituto só pra matar você ou com o fato do Lucius fazer uma respiração boca-a-boca em você!
- Ou com o fato que você vai se mudar pro dormitório do Lucius – Celina completou.
- Ou isso! – Moira gesticulou para mim.
Eu olhei para as duas que pareciam esperar alguma explicação. Como se eu soubesse! Mas o pior não era isso. Cara, se elas sabiam disso, todo o Instituto sabia e se todo Instituto sabia, eu tava fodida. Droga!
- Eu não pedi por isso, ta bom! – eu disse na defensiva.
- Não pediu, mas ta adorando – Moira disse sorrindo e se recostando na cadeira.
- Não to não – eu disse afundando mais minhas costas na cabeceira da cama. – Dessa vez é diferente.
- Diferente? – Celina arqueou uma sobrancelha.
- Ela ta se referindo quando ela morava no orfanato, Celina – Moira olhava para Celina, divertida. – Era só ela chegar com aquele papinho ‘I see dead people’ e o Lucius, romanticamente, consolava ela.
- Aaaah. Diferente – disse como se não acreditasse em mim.
- Não é bem assim, ne Moira! – eu disse zangada. Papinho ‘I see dead people’, o cú dela.
- Ta, tanto faz. Agora raciocina comigo. Imagina acordar todos os dias sabendo que o deus grego, Lucius, ta bem no quarto ao lado.
- E não poder fazer nada. – eu acrescentei.
- Você sempre olhando pelo lado negativo, Claire.
Celina riu da nossa discussão, como sempre. E como sempre ignorou.
- Voltando o foco para o que interessa... – Celina tirou seus braços da grade e cruzou os braços novamente – O fato é que o Irial nós chamou pra avisar que soube através da Camille que você já tinha se recuperado e que devido os recentes ataques você ia mudar do nosso dormitório pro do Lucius, amanhã!
- Amanhã?! – eu disse novamente incrédula. Eu esperava pelo menos uma semana de preparação psicológica antes de ir pro outro dormitório e não amanhã. – Eu podia ter me afogado na piscina.
- Não fala assim, amiga – Moira disse fingindo estar ofendida – Esse é um jeito muito não-diva de morrer. Além do mais quem vai dançar ‘Single Ladies’ com a gente na festa de iniciação?
Eu revirei os olhos. Ela estava escutando Beyoncé de mais.
- Eu já disse que não vou dançar!
- Como se você tivesse escolha – Celina me disse debochadamente.
- Você tem certeza que não quer ajuda? – Jeremi deu ênfase no ‘certeza’ como se isso fosse mudar alguma coisa.
- Tenho Jeremi – eu disse com descrença – Você sabe como o Lucius é. Ele disse que não queria ninguém no quarto.
- É. Além de você, é claro – Jeremi disse sarcasticamente. Eu o encarei com uma expressão brava, como se dissesse ‘já-passou-da-hora-de-você-ir’, mas ele não entendeu a indireta.
Eu passei quase a tarde inteira carregando caixas, com a ajuda da Moira, Celina, Jeremi e o Sam, até o quarto quase-inexistente do Lucius. Mais o final da tarde descarregando tudo e arrumando o que dava pra arrumar. Agora só faltava a parte mais difícil: montar a cama e o quarda-roupa. E quando eu disse que essa parte o Lucius iria fazer todo mundo entendeu, pra falar a verdade, alguns até vibraram com a notícia. Mas não o Jeremi.
- Deixa a caixa aqui e vai embora Jeremi – eu disse brava.
-Ta bom... Ta bom. – Ele se abaixou do lado da porta e deixou a caixa com as partes da minha cama.
- Tchau, sua ingrata – ele disse todo ofendido. Eu rolei os olhos com essa declaração.
- Boa noite Jeremi – eu beijei seu rosto e fechei a porta do quarto. Eu pude ouvir os resmungos e passos fortes que o Jeremi dava. Ele me perdoaria amanhã, eu tinha certeza.
Encostei minha testa na porta e respirei. Eu to no dormitório do Lucius – eu pensei rapidamente. Dormitório não era bem a palavra certa pra definir onde o Lucius dormia. Durante toda minha estadia no Instituto eu nunca pensei onde o Lucius dormia, isso até a semana passada. Depois que os meninos entraram na enfermaria e me fizeram à visita, Sura veio oficializar minha mudança do outro dia. Ela já tinha explicado para os meninos que o Lucius dormia na parte inferior do Instituto, dentro da quadra das piscinas olímpicas. Especificamente no corredor lateral da quadra. Eu já tinha visto uma porta bem no fim do corredor, mas nunca imaginei que alguém vivesse ali. Mas a maior surpresa não foi essa.
Eu posso lembrar do rosto da Moira e da Celina claramente. Assim como eu elas ficaram admiradas com o lugar. A primeira parte tinha uma pequena sala com um sofá preta de couro sintético e uma televisão. Mais a frente uma banqueta de granito que separava a sala da mini-cozinha que ficava ali. Na cozinha tinha quase tudo: geladeira, cafeteira, microondas, uma pia e um fogão. O que me fez pensar se Lucius cozinhava, mas isso não importava naquele momento.
Ao lado tinha um pequeno corredor que dava pra três quartos: o primeiro era o banheiro, um era o quarto do Lucius e outro era um quarto vago, todo sujo e desarrumado. Bem esse era o meu quarto.
Eu suspirei novamente pensando em toda a bagunça que eu teria que arrumar até que o quarto ficasse do jeito que eu queria. Eu desencostei minha testa da porta dando graças a Deus do Jeremi ter ido, já me bastava ter que suportar o Lucius durante a arrumação do meu quarto.
E quando eu ia me virar...
- Expulsando as crianças do playground? – Lucius disse atrás de mim.
Eu pulei com o susto e tentei me afastar, mas ele me sustentou no lugar. Sua boca estava a centímetros do meu ouvido e sua mão estava em minha cintura, segurando levemente. Minha pele queimou sob sua mão e minha respiração acelerou. Eu tinha meus olhos fechados quando coloquei minha mão sobre a dele tentando o afastar. Algo se quebrou dentro de mim quando nossas mãos se encostaram e então ele se afastou. Eu me virei pra ele.
- Essa é a caixa? – ele perguntou rapidamente.
- An? – eu disse sem entender o que ele tinha dito.
- A caixa com a sua cama? – ele disse com um sorriso aparecendo em seu rosto.
Eu tinha entendido só a parte ‘sua cama’, mas mesmo assim eu assenti. Ele veio em minha direção me olhando duramente e ficou próximo, próximo de mais. Ele se abaixou e pegou a caixa. Então ele se afastou e foi em direção ao meu quarto com a minha cama. Deus, eu não ia aquentar muito disso!
Eu o segui insegura até o meu quarto e encostei o meu ombro no batente da porta com os braços cruzados e o observei. Ele usava uma daquelas calças de algodão branca solta e uma blusa preta que teimava a se ajustar a seu corpo. Eu me forcei a olhar em seu rosto. Ele tinha a mesma feição de antes, mas seu cabelo tinha crescido alguns centímetros. Ele olhou pra mim bem nesse momento.
- Vai me ajudar ou só vai ficar olhando? – disse com o ar de sério. Independentemente disso eu me senti corar. Droga! Eu odeio corar.
Ele baixou os olhos ao chão e riu disfarçadamente. Se ele estava tentando melhorar a situação, não estava funcionando. Ele voltou a olhar pra mim.
- Você quer que eu comece com a cama ou com o quarda-roupa?
Eu tentei me desvencilhar da idéia da cama, sem considerar o fato que eu tinha que dormir daqui a pouco.
- Com o quarda-roupa – eu disse mais como uma pergunta do que um a afirmativa. Ele assentiu em afirmativa.
- Qual das caixas? – ele perguntou ainda agachado.
- Aquelas ali. – eu apontei ao fundo do quarto onde ficaria meu quarda-roupa.
Ele se levantou e foi em direção à caixa. Eu sai da porta e o segui até ficar atrás dele. Ele se agachou e abriu uma das caixas. Seu corpo se enrijeceu e eu pude sentir que ele fechava seus punhos em volta de algo. Eu tentei ver o que era, mas suas costas eram grandes de mais para eu ver alguma. Eu encostei uma das minhas mãos espontaneamente em suas costas tentando me aproximar e ver o que era. Mas antes que eu pudesse ver ele se levantou e se virou tão rapidamente que eu nem pude ver. Ele segurou o pulso da mão que tinha o encostado e, infelizmente, era o mesmo que estava machucado. Na outra mão tinha o objeto que causava tanta raiva: a garrafa de água do Lucius. Merda!
- Foi você! – ele disse apertando o maxilar – Você pegou minha garrafa?
Depois que ele meio que gritou isso e apertou meu pulso de novo, não teve como eu mentir aqui.
- É só uma garrafa! – eu gritei de volta – Fazia parte de uma brincadeira...
-Você não tem noção do que faz, menina! – Ele se aproximou forçando meu pulso. Eu gemi sob seu aperto tentando não demonstrar medo e nem dor.
- Da próxima vez que você mexer nas minhas coisas... – ele soltou meu pulso em um empurrão e a garrafa em outro. E olhou fixamente para mim. – Não haverá próxima vez.
Ele disse isso mais pra si mesmo do que para mim. Eu tentei me desculpar, mas ele já tinha ido. Eu pude ouvir o som da porta de seu quarto ser fechada e então um surdo som de algo ser quebrado. Eu peço desculpa pra ele amanhã. Eu encarei o quarto. Ele estava tão sujo e desarrumado como antes. Eu vi a garrafa girar e se encostar no meu colchão que ainda estava no meio do quarto. Eu me deitei nele e olhei o teto. Eu não tinha montado nem minha cama e nem meu quarda-roupa, não tinha tomado banho e nem escovado os dentes. Eu considerei seriamente ir ao banheiro, mas passar na frente do quarto do Lucius não era uma opção. Não tinha outra hora pro Lucius brigar comigo, sei lá, depois de arrumar meu quarto, por exemplo.
Eu acordei vagarosamente, me espreguiçando e sentindo um gosto amargo na boca. Eu precisava tomar um banho urgentemente. Eu me sentei no colchão e passei as mãos no meu cabelo.
- A meu Deus – eu encarei o quarto que estava totalmente arrumado. Tudo. Quarda-roupa. Roupa dentro do quarda-roupa. Cama. Colchão em cima da cama. Eu em cima do colchão que estava... Enfim, tudo arrumado. Eu teria, além de pedir desculpa, que agradecer eternamente o Lucius pelo o que ele fez aqui.
Eu andei ate uma cadeira, que estava em uma escrivaninha perto da cama, e peguei minha toalha que estava lá. Eu já tinha deixado minha escova no banheiro, então...
Eu fui ao banheiro com minha toalha e observei que não tinha ninguém no dormitório. Entrei, escovei meus dentes e fui tomar banho.
De banho tomado eu me enxuguei e me enrolei na minha toalha. Eu preciso de um café – eu pensei sonolentamente. Eu andei até a cozinha mais dormindo que acordada e...
- Aí! – eu reclamei. Eu olhei o que eu tinha chutado acidentalmente e então... A.Meu.Deus!!!
quarta-feira, 21 de abril de 2010
Capítulo 6 - *Sangue:
- Você quase a matou! – a voz era grossa e estrondosa.
- Não foi minha culpa. – as palavras escorriam magoa e ódio.
- Não é isso que Gabriel ira pensar... – a voz variou mostrando seu total entendimento sobre o assunto.
- Ele que se foda! – a voz fina e feminina estava cheia de raiva – eu não mudarei minha decisão por causa dele. Ela ira morrer, independente que ele queira ou não.
******
- Aaaaah! – Eu senti meu coração acelerar e minhas mãos suarem. Eu me levantei pelo sobressalto e pelo medo. Me debate sobre a cama e tentei sair dali, mas mãos me seguraram e me impediram. Eu tentei me desvencilhar de suas mãos desesperadamente e me lançar fora da cama.
- Me solta! – meu grito ecoou pelo quarto – Me solta... – minha voz mudou e pude ver as lágrimas voltarem. – Não! Por Favor, não!
- Claire! – a voz soou forte e controlada – Olha pra mim – Mãos circundaram meu rosto e eu senti tudo dentro de mim se acalmar. Eu encarei seus olhos e o reconheci.
- Lucius – eu soletrei cada letra tentando me convencer de que ele realmente estava ali. Minhas expectativas estavam certas, logo eu o abracei e o apertei intensamente. Eu senti suas mãos se espalharem sobre minhas costas e me abraçar com a mesma intensidade que eu o abraçava. Ele respirou entre meus cabelos, mas não disse nada.
Eu senti um leve formigamento em meu braço esquerdo. Lentamente eu abri meus olhos tentando ajustá-los a fraca luz do quarto. A enfermaria. Eu poderia reconhecer aquele lugar em qualquer situação, afinal eu passei quase dois anos vivendo aqui. Suas paredes brancas e tons pastel eram inconfundíveis. Esse quarto era apenas uma parte da grande enfermaria. A parte inferior do Instituto era dividida em três partes: o ginásio, o pátio – que se interligava ao jardim externo – e a enfermaria. Ali tinha toda a parafernália que um hospital precisa, mas de um jeito mais compacto. Eu me lembro perfeitamente de todos os tubos e fios que se ligavam em mim quando eu acordei do coma, nesse exato lugar. Aquilo foi à coisa mais assustadora que eu já tinha visto e não pelo fato de me ver internada, sim pelo simples fato de eu me sentir tão perdida como agora.
Mas agora, para piorar, eu tinha sonhado com o Lucius, com uma época que tudo parecia se encaixar por mais que tudo estivesse errado. Era quando eu ainda vivia no orfanato e tudo em que eu poderia me segurar era na surreal idéia que um anjo cuidava de mim. Mas isso fazia parte do passado.
Dedos rolaram sobre meu antebraço. Eu encarei a figura que os faziam.
- Bianca!? O que você ta fazendo aqui? - minha voz soou acusadora.
- Bom dia pra você também! – Ela me disse calmamente.
Eu vi um lento sorriso surgir em seu rosto enquanto ela passava sua mão em meu rosto. Seus cabelos loiros brilhavam mesmo com a pouca luz do quarto, seus olhos tinham uma beleza diferente, eles eram de um azul-marinho e circundados por uma grossa linha negra. Por mais tempo que eu não a visse, eu podia reconhecer cada pequeno detalhe dela. Principalmente suas asas. Eu pude vê-las nitidamente do mesmo jeito que eu podia ver qualquer uma. Elas eram extremamente brancas, as penas se desvencilhavam pouco a pouco. Eu poderia tocá-las se elas fossem tão reais como eu as via, mas elas não eram. Esse era um dos males de ser um anjo na terra, elas estavam ali, mas não poderiam ser usadas. Uma fraca luz roxa se destacava em sua pele branca. Eu ri das lembranças que aquela fraca luz arroxeada me trazia.
Eu sempre pude vê-la, desde quando ainda vivíamos em São Joaquim em Santa Catarina. Foi ainda no orfanato que eu vi suas asas desabrocharem, elas eram tão pequenas quanto ela. Eu havia dito para madre superiora que minha irmã tinha se tornado um anjo, mas ela apenas me disse que todas nós éramos pequenos anjos. Ela não acreditou em mim da mesma forma que ela não acreditou quando eu disse que via monstros.
Eu vivi com Bianca por sete anos até ela ser ‘adotada’ e traga para o Instituto. Eu não poderia entender o porquê de sermos separadas na época, mas hoje eu entendia perfeitamente. Ela era um anjo e ainda por cima minha irmã.
- Eu pensei que você estaria ocupada com seu treinamento! – eu disse um pouco magoada.
- Eu tive que fazer uma exceção quando soube que minha irmã gêmea tinha quase morrido. – ela disse rindo. Eu apenas a encarei emburrada.
- Se isso é uma maneira de falar que você esta preocupada, você ta cinco meses atrasada.
Ela revirou os olhos e cruzou os braços.
- Claire, se é pra você fazer drama eu vou embora.
- Ta, desculpa. Eu fico um pouco mal humorada depois que alguém tenta me matar – eu disse sarcasticamente. Bianca balançou a cabeça e deu um riso abafado.
- Eu senti saudades de você – ela disse finalmente depois alguns minutos.
- Eu também – eu disse em resposta.
Toc Toc – A porta soou a nossa frente e foi aberta cuidadosamente. No pequeno vão que se formou entre a porta e a parede eu pude ver o rosto da Sura. Eu sorri involuntariamente.
- Eu posso entrar? – eu assenti em resposta.
Então ela abriu a porta rapidamente e entrou. Seus cabelos ruivos estavam volumosos e encaracolados. Seus olhos eram de um verde bem claro e ainda havia suas sardas. Ela representava ter no máximo uns 22 anos, mas eu sabia que ela tinha vivido muito mais que isso. Ela usava um vestido mula-manca comprido azul com detalhes verdes e uma sandália rasteira. E como sempre sem nenhum brinco ou maquiagem.
Ela sorriu para mim e então olhou para minha irmã.
- Bom dia Bianca – ela disse brevemente.
- Bom dia Sura – disse secamente.
- Eu espero não estar atrapalhando, mas eu gostaria de falar com a Claire a sós.
- Claro que não, fique a vontade. – Bianca se levantou de sua cadeira e então... Ela olhou para a pessoa que acabara de entrar no quarto e eu pude ver seu semblante se enrijecer. Houve uma pequena troca de olhares entre Bianca e Lucius.
- Bianca – ele disse ríspido.
- Lucius – ela disse no mesmo tom.
Eu olhei para as duas figuras que se confrontavam e pude notar que havia algo ali. Mas o quê?
Antes que pudesse perceber algo a mais ou falar qualquer coisa a respeito, Bianca se virou para mim.
- Minha hora de partir – ela me disse rindo se desvencilhando de toda aquela situação estranha – Semana que vem eu volto, Claire.
- Semana que vem?
- Eu sou uma pessoa ocupada, o que mais eu posso te dizer – ela disse enquanto me abraçava calorosamente. Alguns segundos depois ela beijou minha bochecha e desvencilhou do meu abraço.
- Então até semana que vem – eu disse com pouco animo.
- Até. – ela me disse isso e saiu do quarto se despedindo rapidamente de Sura e Lucius. Nesse exato momento eu pude ver a diferenciação de cores entre as asas da Bianca e da Sura. Bianca tinha suas asas brancas enquanto Sura tinha as suas negras. As asas eram tão diferentes que o contraste entra elas se tornou algo mais bonito. Anjos de nascimento e da morte. Cores que se diferenciavam e se completavam.
Bianca saiu do quarto, logo eu encarei as duas pessoas a minha frente. Sura ainda estava sorrindo enquanto caminhou em minha direção e sentou onde Bianca acabara de sentar. Já Lucius estava como sempre esteve. Misterioso, arrogante e definitivamente gostoso. Ele saiu do meio da sala e se recostou no batente da porta com os braços cruzados. Ele usava uma calça jeans azul um pouco surrada, uma camiseta cinza e um tênis. Eu voltei meus olhos para Sura.
- Posso ver que você já melhorou – ela me sorriu com segundas intenções. Se tinha uma pessoa que me conhecia tão bem era a Sura. E bem, não era tão difícil perceber porque eu olhava Lucius tão fixamente, mas eu não me culpava nem um pouco por isso.
-É. Acho que sim – disse um pouco sem graça. Lucius bufou ainda no batente da porta. Eu o encarei irritada. Cadê o cara que me salvou e disse que ia cuidar de mim? Idiota!
Sura olhou de mim para Lucius e riu.
- Eu acho que a notícia que eu vou dar vai ser bem interessante. – ela disse ainda sorrindo. Eu a encarei confusa.
- Eu acho que você se lembra que Lucius te salvou na piscina.
Eu assenti para ela. Logo ela continuou.
- Bem, eu também sei que você foi atacada por um espectro dentro do Instituto, Claire.
- Aham – eu confirmei.
- Se há algo indiscutível aqui é que você só sobreviveu devido a Lucius e a tatuagem – ela disse vagarosamente como se me preparasse para algo.
Eu não podia discordar dela. Pela décima vez Lucius tinha me salvado e isso me fazia me sentir pior, como se eu sempre estivesse em dívida com ele, como se sempre houvesse algo que nos interligasse. Já a tatuagem era outra história. Eu a havia recebido poucos dias depois de eu sofrer o acidente e entrar em coma. Ela foi à única coisa que manteve ligada nesse plano. Ela era linda com contornos grossos e espiralados. Um trisquel. Os principados só a recebiam no dia da sua formação, quando o seu treinamento tinha definitivamente terminado e fosse resignado a proteger seu anjo ou anjos. O trisquel é um símbolo com três braços girando em sentido contrário que simboliza a continuidade da vida e do crescimento espiritual, o fluir constante do físico, o mental e o espiritual. Era essa pequena tatuagem no pulso que faz os principados sobreviver pelo mesmo tempo que um anjo na terra, eternamente. Isso se não ocorresse algo, é claro. No meu caso era um pouco diferente. Ela não foi inteiramente impressa no meu pulso, o que significava que eu ainda não tinha vida eterna, mas também significava que eu era mais resistente que o resto.
Eu vi a Sura ficar mais séria e sua respiração ficar mais lenta. Agora eu tinha certeza que não era algo bom.
- Eu não posso mais negar que a situação piorou de alguns anos para cá e que por isso você foi traga para o Instituto, para sua segurança e pelo seu dom – ela disse segurando uma de minhas mãos – E eu não vou ser hipócrita com você, Claire. O seu dom é muito importante para o Instituto para ser perdido tão facilmente.
Ela apertou mais minha mão. E aí vinha a bomba!
- E é por isso que você vai ser protegida, o máximo de tempo possível, pelo Lucius e treinada por ele. E mais, você vai se mudar do seu dormitório para o dormitório do Lucius. – ela terminou me olhando fixamente, esperando minha reação.
Como assim eu vou me mudar pro dormitório do Lucius?! Eu encarei Lucius que ainda estava no batente da porta. Ele estava tão calmo e indiferente como antes. Pelo o jeito ele já sabia da notícia e estava adorando.
- Eu acho que essa não é uma boa decisão, Sura. – eu disse indignada.
- Isso não é um pedido, Claire. Isso é uma ordem minha e do conselho. – ela deu ênfase no conselho.
Colocando desse jeito não tinha muita coisa que eu pudesse fazer. Eu pensei como seria ótimo acordar com todo aquele bom humor do Lucius, a sua arrogância iria triplicar e eu poderia dizer que ele arranjaria formas diferentes e divertidas pra infernizar minha vida. Que maravilha!
Eu afundei minha cabeça mais um pouco no travesseiro e assenti.
- Eu acho que essa decisão é a mais sensata a se tomar mesmo, Sura – eu disse ironicamente. Ela riu, mas não comentou.
- As providências serão tomadas quando você sair da enfermaria e voltar a sua rotina – Sura riu divertida.
Eu olhei as fachas de gaze que estavam enrolados em volta do meu pulso e das minhas panturrilhas. Pela minha experiência eu sairia daqui no final da semana. Ótimo dia pra fazer uma mudança – eu pensei sarcasticamente.
- Acho melhor te deixar sozinha para você descansar e digerir as novas notícias – Sura me disse soltando minha mão e se levantando da cadeira. Eu sorri para ela com um sorriso forçado.
Fácil dizer! Eu não conseguiria descansar depois disso, não mesmo.
Sura beijou minha testa e se despediu. Eu vi seu calmo caminhar ate a porta e seu olhar para o Lucius, se despedindo silenciosamente. Ele olhou para Sura ate ela sair do quarto e sumir pelo corredor. Ele voltou seu olhar para mim e me encarou. Nesse instante meu coração acelerou e eu sabia muito bem que ele tinha percebido. Ele sorriu brevemente. Seus olhos desencontraram com os meus e logo ele começou a olhar todo o meu corpo que ainda estava sob o lençol, analisando. Eu senti algo dentro do meu corpo se esquentar. Ele sorriu abertamente e me encarou novamente. Eu ouvi um sussurro de um sorriso sair dos seus lábios.
- Eu não vejo à hora de ser seu colega de quarto, Claire.
E antes que eu pudesse dizer algo, ele saiu do quarto.
- Não foi minha culpa. – as palavras escorriam magoa e ódio.
- Não é isso que Gabriel ira pensar... – a voz variou mostrando seu total entendimento sobre o assunto.
- Ele que se foda! – a voz fina e feminina estava cheia de raiva – eu não mudarei minha decisão por causa dele. Ela ira morrer, independente que ele queira ou não.
******
- Aaaaah! – Eu senti meu coração acelerar e minhas mãos suarem. Eu me levantei pelo sobressalto e pelo medo. Me debate sobre a cama e tentei sair dali, mas mãos me seguraram e me impediram. Eu tentei me desvencilhar de suas mãos desesperadamente e me lançar fora da cama.
- Me solta! – meu grito ecoou pelo quarto – Me solta... – minha voz mudou e pude ver as lágrimas voltarem. – Não! Por Favor, não!
- Claire! – a voz soou forte e controlada – Olha pra mim – Mãos circundaram meu rosto e eu senti tudo dentro de mim se acalmar. Eu encarei seus olhos e o reconheci.
- Lucius – eu soletrei cada letra tentando me convencer de que ele realmente estava ali. Minhas expectativas estavam certas, logo eu o abracei e o apertei intensamente. Eu senti suas mãos se espalharem sobre minhas costas e me abraçar com a mesma intensidade que eu o abraçava. Ele respirou entre meus cabelos, mas não disse nada.
Eu senti um leve formigamento em meu braço esquerdo. Lentamente eu abri meus olhos tentando ajustá-los a fraca luz do quarto. A enfermaria. Eu poderia reconhecer aquele lugar em qualquer situação, afinal eu passei quase dois anos vivendo aqui. Suas paredes brancas e tons pastel eram inconfundíveis. Esse quarto era apenas uma parte da grande enfermaria. A parte inferior do Instituto era dividida em três partes: o ginásio, o pátio – que se interligava ao jardim externo – e a enfermaria. Ali tinha toda a parafernália que um hospital precisa, mas de um jeito mais compacto. Eu me lembro perfeitamente de todos os tubos e fios que se ligavam em mim quando eu acordei do coma, nesse exato lugar. Aquilo foi à coisa mais assustadora que eu já tinha visto e não pelo fato de me ver internada, sim pelo simples fato de eu me sentir tão perdida como agora.
Mas agora, para piorar, eu tinha sonhado com o Lucius, com uma época que tudo parecia se encaixar por mais que tudo estivesse errado. Era quando eu ainda vivia no orfanato e tudo em que eu poderia me segurar era na surreal idéia que um anjo cuidava de mim. Mas isso fazia parte do passado.
Dedos rolaram sobre meu antebraço. Eu encarei a figura que os faziam.
- Bianca!? O que você ta fazendo aqui? - minha voz soou acusadora.
- Bom dia pra você também! – Ela me disse calmamente.
Eu vi um lento sorriso surgir em seu rosto enquanto ela passava sua mão em meu rosto. Seus cabelos loiros brilhavam mesmo com a pouca luz do quarto, seus olhos tinham uma beleza diferente, eles eram de um azul-marinho e circundados por uma grossa linha negra. Por mais tempo que eu não a visse, eu podia reconhecer cada pequeno detalhe dela. Principalmente suas asas. Eu pude vê-las nitidamente do mesmo jeito que eu podia ver qualquer uma. Elas eram extremamente brancas, as penas se desvencilhavam pouco a pouco. Eu poderia tocá-las se elas fossem tão reais como eu as via, mas elas não eram. Esse era um dos males de ser um anjo na terra, elas estavam ali, mas não poderiam ser usadas. Uma fraca luz roxa se destacava em sua pele branca. Eu ri das lembranças que aquela fraca luz arroxeada me trazia.
Eu sempre pude vê-la, desde quando ainda vivíamos em São Joaquim em Santa Catarina. Foi ainda no orfanato que eu vi suas asas desabrocharem, elas eram tão pequenas quanto ela. Eu havia dito para madre superiora que minha irmã tinha se tornado um anjo, mas ela apenas me disse que todas nós éramos pequenos anjos. Ela não acreditou em mim da mesma forma que ela não acreditou quando eu disse que via monstros.
Eu vivi com Bianca por sete anos até ela ser ‘adotada’ e traga para o Instituto. Eu não poderia entender o porquê de sermos separadas na época, mas hoje eu entendia perfeitamente. Ela era um anjo e ainda por cima minha irmã.
- Eu pensei que você estaria ocupada com seu treinamento! – eu disse um pouco magoada.
- Eu tive que fazer uma exceção quando soube que minha irmã gêmea tinha quase morrido. – ela disse rindo. Eu apenas a encarei emburrada.
- Se isso é uma maneira de falar que você esta preocupada, você ta cinco meses atrasada.
Ela revirou os olhos e cruzou os braços.
- Claire, se é pra você fazer drama eu vou embora.
- Ta, desculpa. Eu fico um pouco mal humorada depois que alguém tenta me matar – eu disse sarcasticamente. Bianca balançou a cabeça e deu um riso abafado.
- Eu senti saudades de você – ela disse finalmente depois alguns minutos.
- Eu também – eu disse em resposta.
Toc Toc – A porta soou a nossa frente e foi aberta cuidadosamente. No pequeno vão que se formou entre a porta e a parede eu pude ver o rosto da Sura. Eu sorri involuntariamente.
- Eu posso entrar? – eu assenti em resposta.
Então ela abriu a porta rapidamente e entrou. Seus cabelos ruivos estavam volumosos e encaracolados. Seus olhos eram de um verde bem claro e ainda havia suas sardas. Ela representava ter no máximo uns 22 anos, mas eu sabia que ela tinha vivido muito mais que isso. Ela usava um vestido mula-manca comprido azul com detalhes verdes e uma sandália rasteira. E como sempre sem nenhum brinco ou maquiagem.
Ela sorriu para mim e então olhou para minha irmã.
- Bom dia Bianca – ela disse brevemente.
- Bom dia Sura – disse secamente.
- Eu espero não estar atrapalhando, mas eu gostaria de falar com a Claire a sós.
- Claro que não, fique a vontade. – Bianca se levantou de sua cadeira e então... Ela olhou para a pessoa que acabara de entrar no quarto e eu pude ver seu semblante se enrijecer. Houve uma pequena troca de olhares entre Bianca e Lucius.
- Bianca – ele disse ríspido.
- Lucius – ela disse no mesmo tom.
Eu olhei para as duas figuras que se confrontavam e pude notar que havia algo ali. Mas o quê?
Antes que pudesse perceber algo a mais ou falar qualquer coisa a respeito, Bianca se virou para mim.
- Minha hora de partir – ela me disse rindo se desvencilhando de toda aquela situação estranha – Semana que vem eu volto, Claire.
- Semana que vem?
- Eu sou uma pessoa ocupada, o que mais eu posso te dizer – ela disse enquanto me abraçava calorosamente. Alguns segundos depois ela beijou minha bochecha e desvencilhou do meu abraço.
- Então até semana que vem – eu disse com pouco animo.
- Até. – ela me disse isso e saiu do quarto se despedindo rapidamente de Sura e Lucius. Nesse exato momento eu pude ver a diferenciação de cores entre as asas da Bianca e da Sura. Bianca tinha suas asas brancas enquanto Sura tinha as suas negras. As asas eram tão diferentes que o contraste entra elas se tornou algo mais bonito. Anjos de nascimento e da morte. Cores que se diferenciavam e se completavam.
Bianca saiu do quarto, logo eu encarei as duas pessoas a minha frente. Sura ainda estava sorrindo enquanto caminhou em minha direção e sentou onde Bianca acabara de sentar. Já Lucius estava como sempre esteve. Misterioso, arrogante e definitivamente gostoso. Ele saiu do meio da sala e se recostou no batente da porta com os braços cruzados. Ele usava uma calça jeans azul um pouco surrada, uma camiseta cinza e um tênis. Eu voltei meus olhos para Sura.
- Posso ver que você já melhorou – ela me sorriu com segundas intenções. Se tinha uma pessoa que me conhecia tão bem era a Sura. E bem, não era tão difícil perceber porque eu olhava Lucius tão fixamente, mas eu não me culpava nem um pouco por isso.
-É. Acho que sim – disse um pouco sem graça. Lucius bufou ainda no batente da porta. Eu o encarei irritada. Cadê o cara que me salvou e disse que ia cuidar de mim? Idiota!
Sura olhou de mim para Lucius e riu.
- Eu acho que a notícia que eu vou dar vai ser bem interessante. – ela disse ainda sorrindo. Eu a encarei confusa.
- Eu acho que você se lembra que Lucius te salvou na piscina.
Eu assenti para ela. Logo ela continuou.
- Bem, eu também sei que você foi atacada por um espectro dentro do Instituto, Claire.
- Aham – eu confirmei.
- Se há algo indiscutível aqui é que você só sobreviveu devido a Lucius e a tatuagem – ela disse vagarosamente como se me preparasse para algo.
Eu não podia discordar dela. Pela décima vez Lucius tinha me salvado e isso me fazia me sentir pior, como se eu sempre estivesse em dívida com ele, como se sempre houvesse algo que nos interligasse. Já a tatuagem era outra história. Eu a havia recebido poucos dias depois de eu sofrer o acidente e entrar em coma. Ela foi à única coisa que manteve ligada nesse plano. Ela era linda com contornos grossos e espiralados. Um trisquel. Os principados só a recebiam no dia da sua formação, quando o seu treinamento tinha definitivamente terminado e fosse resignado a proteger seu anjo ou anjos. O trisquel é um símbolo com três braços girando em sentido contrário que simboliza a continuidade da vida e do crescimento espiritual, o fluir constante do físico, o mental e o espiritual. Era essa pequena tatuagem no pulso que faz os principados sobreviver pelo mesmo tempo que um anjo na terra, eternamente. Isso se não ocorresse algo, é claro. No meu caso era um pouco diferente. Ela não foi inteiramente impressa no meu pulso, o que significava que eu ainda não tinha vida eterna, mas também significava que eu era mais resistente que o resto.
Eu vi a Sura ficar mais séria e sua respiração ficar mais lenta. Agora eu tinha certeza que não era algo bom.
- Eu não posso mais negar que a situação piorou de alguns anos para cá e que por isso você foi traga para o Instituto, para sua segurança e pelo seu dom – ela disse segurando uma de minhas mãos – E eu não vou ser hipócrita com você, Claire. O seu dom é muito importante para o Instituto para ser perdido tão facilmente.
Ela apertou mais minha mão. E aí vinha a bomba!
- E é por isso que você vai ser protegida, o máximo de tempo possível, pelo Lucius e treinada por ele. E mais, você vai se mudar do seu dormitório para o dormitório do Lucius. – ela terminou me olhando fixamente, esperando minha reação.
Como assim eu vou me mudar pro dormitório do Lucius?! Eu encarei Lucius que ainda estava no batente da porta. Ele estava tão calmo e indiferente como antes. Pelo o jeito ele já sabia da notícia e estava adorando.
- Eu acho que essa não é uma boa decisão, Sura. – eu disse indignada.
- Isso não é um pedido, Claire. Isso é uma ordem minha e do conselho. – ela deu ênfase no conselho.
Colocando desse jeito não tinha muita coisa que eu pudesse fazer. Eu pensei como seria ótimo acordar com todo aquele bom humor do Lucius, a sua arrogância iria triplicar e eu poderia dizer que ele arranjaria formas diferentes e divertidas pra infernizar minha vida. Que maravilha!
Eu afundei minha cabeça mais um pouco no travesseiro e assenti.
- Eu acho que essa decisão é a mais sensata a se tomar mesmo, Sura – eu disse ironicamente. Ela riu, mas não comentou.
- As providências serão tomadas quando você sair da enfermaria e voltar a sua rotina – Sura riu divertida.
Eu olhei as fachas de gaze que estavam enrolados em volta do meu pulso e das minhas panturrilhas. Pela minha experiência eu sairia daqui no final da semana. Ótimo dia pra fazer uma mudança – eu pensei sarcasticamente.
- Acho melhor te deixar sozinha para você descansar e digerir as novas notícias – Sura me disse soltando minha mão e se levantando da cadeira. Eu sorri para ela com um sorriso forçado.
Fácil dizer! Eu não conseguiria descansar depois disso, não mesmo.
Sura beijou minha testa e se despediu. Eu vi seu calmo caminhar ate a porta e seu olhar para o Lucius, se despedindo silenciosamente. Ele olhou para Sura ate ela sair do quarto e sumir pelo corredor. Ele voltou seu olhar para mim e me encarou. Nesse instante meu coração acelerou e eu sabia muito bem que ele tinha percebido. Ele sorriu brevemente. Seus olhos desencontraram com os meus e logo ele começou a olhar todo o meu corpo que ainda estava sob o lençol, analisando. Eu senti algo dentro do meu corpo se esquentar. Ele sorriu abertamente e me encarou novamente. Eu ouvi um sussurro de um sorriso sair dos seus lábios.
- Eu não vejo à hora de ser seu colega de quarto, Claire.
E antes que eu pudesse dizer algo, ele saiu do quarto.
domingo, 18 de abril de 2010
Capítulo 5 - *Medos:
Eu olhei o relógio pela décima quinta vez. Seis horas. Bom, passar quatro horas em cima da minha cama não estava me fazendo muito bem. Eu me revirei em meu colchão e encarei a parede branca do dormitório. Eu revivi as imagens que ocorreram na quadra. Ele havia apertado meu braço como se eu tivesse realmente feito algo errado, olhou nos meus olhos e tentou me ferir intencionalmente, me humilhar. Você não! – ele tinha me dito em alto e bom som, para que todos ouvissem, todos me olhassem, então me julgou na frente de todos.
Eu fechei os olhos pesadamente e respirei profundamente. Ele realmente pensava que mandava em mim. Eu passei sete anos da minha vida dependendo dele, mas isso não significava que ele era dono dela. Durante minha vida no orfanato eu aprendi a conviver com tudo o que eu via e fingir que não estava ali, por mais difícil que aquilo fosse. Principalmente depois que minha irmã foi ‘adotada’, eu fiquei mais sozinha do que o normal. O peso das coisas ao meu redor tombaram sobre mim duplamente. Então ele apareceu. Eu posso relembrar essa lembrança perfeitamente: o parque coberto de neve, o banco de madeira branco, a inanimada gangorra vermelha e ele. Ele foi uma das visões mais bonitas que eu tive desde que eu pude ver além das outras pessoas, se não foi a única. As asas negras em destaque com a neve branca, suas unhas afiadas e, principalmente, seus olhos azuis. Foi a partir desse momento que ele entrou na minha vida e eu, incondicionalmente, deixei isso acontecer.
Olhei o relógio novamente. Seis horas e dez minutos. Eu calculei quantos minutos até eu trocar de roupa e chegar ao ginásio. Talvez mais dez minutos, no máximo quinze. Hora de colocar plano irritar-Lucius em ação.
Eu me levantei da cama rapidamente e me direcionei até o quarda-roupa que eu dividia com a Celina e com a Moira. Fiz uma anotação mental de fazer uma arrumação, mas isso, provavelmente, eu só faria semana que vem. Abri a porta lateral do quarda-roupa e abri a gaveta de calcinhas e sutiã, que nesse caso era só minha. E lá estava à parte essencial do plano, meu maiô. Cara, eu podia esquecer diariamente de pegar minha roupa de uniforme, mas nunca esqueceria de um maiô ou biquíni.
Desde que eu cheguei aqui e estive consciente de onde eu estava, a piscina era parte mais preciosa para mim, tanto fisicamente e mentalmente. Era o único lugar que eu podia colocar meus pensamentos em ordem. Agora fazia parte do um plano maléfico. Eu ri baixinho diante da minha infantilidade, mas, bem, se ele me tratava como uma criança, era uma criança que ele teria.
Eu tirei meu ‘lindo’ short preto e minha bata. Depois de tirar minha calcinha e meu sutiã eu vesti meu maiô preto. Ele era tomara-que-caia e sua parte inferior lembrava um shortizinho. Coloquei um vestido preto com detalhes florais brancos na barra e uma sandália rasteirinha. Penteei meus cabelos e o prendi em um rabo-de-cavalo. Me olhei no espelho. Eu acho que já é suficiente.
O relógio apitou atrás de mim. Seis e meia. Eu me olhei de novo no espelho. Bem, já estava na hora. Eu peguei minha bolsa que estava pendurada na cabeceira da minha cama e sai do quarto. Pude sentir o vento frio que bateu nas minhas pernas quando atravessei o jardim externo e entrei pela porta lateral do refeitório. Verifiquei se alguém havia saído da aula e já estivesse no salão, mesmo sabendo que a aula só terminaria às sete da noite e que Lucius nunca deixaria alguém sair antes disso. Avaliei o salão novamente só para ter certeza, a mesa de refeição ainda estava vazia, tendo se em vista que o jantar só seria servido as oito, as mesas de granito estavam mais negras já que as luzes ainda estavam apagadas e a porta que dava pro corredor do ginásio estava fechada.
Contei os ladrilhos marrom-acobreados ate chegar à porta, abri-a e a fechei rapidamente sem fazer barulho, continuei contando ate chegar à porta dupla. A encarei duramente. Não podia ficar pior do que... Bem, podia, mas foda-se!
Escancarei a porta lentamente e encarei a os alunos do treino. Alguns ainda estavam centrados em suas lutas e não perceberam que eu tinha aberto a porta, mas a maioria percebeu. Eu pude perceber que as duplas de treino pararam e me olharam abertamente. Alguns minutos depois todos já me olhavam. Alguns sussurros e risos á parte, eu vi como Celina e Moira me olhavam confusas, elas treinavam juntas então eu pude perceber o quanto cansadas e suadas elas estavam. Sam me olhava sério avaliando a situação. Jeremi se afastou de Juliana, que provavelmente era sua parceira nessa aula, e começou a andar em minha direção. Eu ergui minha mão esquerda e fiz sinal para que ele parasse. Ele obedeceu. Uma sombra escura se movimentou entre os alunos e então lá estava Lucius. Ele tinha passadas lentas e pesadas. Um canto de sua boca ergueu, mostrando um meio sorriso.
- Claire – ele disse enquanto caminhava em minha direção – Veio nos mostrar novamente como não se vestir para uma aula?
Uma das suas sobrancelhas se ergueu e seu sorriso aumentou. Eu tentei responder sua pergunta, mas ele me interrompeu.
- Infelizmente a aula já esta terminando, Claire. – Ele parou em minha frente e ficou sério. Eu senti toda a imensidão do seu corpo quando ele se aproximou, seu olhar duro e uma de suas mãos fechadas em punho. – Mas eu acho que você pode mostrar seu novo modelito lá no refeitório depois da aula.
Eu repensei em tudo em que eu estava fazendo e cheguei à conclusão que isso sim valeria a pena.
- Eu não sei o que você esta fazendo parado na minha frente, mas. . . – eu olhei em seus olhos e dei um passo à frente – eu estou indo pra piscina.
E como se ele não estivesse ali eu passei ao seu lado e... Ele segurou meu braço novamente, me relembrando a cena que vivenciamos mais cedo. Ele me puxou em sua direção e ficamos lado a lado. Eu o encarei e vi sua respiração ficar mais pesada.
- Eu acho que isso não é uma opção – Ele disse baixo para que só eu ouvisse.
- Infelizmente pra sua informação algum professor idiota me dispensou mais cedo da aula. E o que eu faço do meu tempo livre não é da sua conta. – eu puxei meu braço das suas mãos mais forte do que a última vez, mas não surtiu o efeito que eu queria.
- Eu discordo de você – ele apertou mais as mãos envolta do meu braço.
- Já eu acho que uma pessoa discordaria de você. A Sura não gostaria nem um pouco de saber que os treinadores estão interferindo no livre arbítrio dos alunos – eu puxei meu braço e lentamente me desfiz do seu aperto. Eu sabia que dessa vez, eu só consegui sair do perto dele por que ele deixou, mas eu havia tocado em um ponto delicado aqui, Sura. Ela havia sido resignada pra essa área, pra tomar conta do Instituto, por ordem do conselho. E, indiretamente, mexer com a Sura era mexer com o conselho.
Eu avancei diretamente em direção a parede de vidro que dava acesso às piscinas. Enquanto eu caminhava ate lá todos me olhavam, eu simplesmente aproveitei e andei lentamente até o vão que dava na piscina menor. Antes de eu chegar definitivamente à parede eu ouvi um assovio longo e uma salva de palmas. Eu sabia bem quem tinha sido o louco que fez isso. Moira.
Lá estava a imensa piscina. Eu a olhei e percebi, como toda às vezes eu percebia, que ela estava num azul anil-claro e que as divisórias que dividiam as raias não estavam lá. Felizmente eu também percebi que o aquecedor ainda estava ligado. Caminhei ate a borda e tirei minhas sandálias. Depois coloquei minha bolsa ao lado e tirei meu vestido. O frio me fez arrepiar, logo cruzei meus braços e tentei me esquentar. Olhei para trás, em direção ao vidro embaçado, e pude perceber que a aula havia acabado e que os alunos já estavam saindo da quadra. Celina e Moira possivelmente perceberam que nesse momento eu não estava muito a fim de conversar e não foram me ver. Fechei meus olhos e respirei fundo o ar frio que envolvia o local. Abri os olhos novamente e ajustei a escuridão que me cercava, tirando a luz que vinha da quadra ao lado. Sentei na beira da piscina e molhei meus pés na água morna. Como eu adorava este lugar. No próximo segundo eu me joguei na piscina e mergulhei, deixando tudo e todos para trás.
******
Eu absorvi a escuridão ao meu redor. A luz do ginásio ainda estava ligada, mas já havia escurecido muito pra eu ver alguma coisa além da água da piscina e a parede que separava o ginásio das piscinas. Eu mergulhei novamente e me recostei no fundo da piscina, contei os segundos segurando minha respiração e tentei me desligar de tudo que me cercava. Moira, Celina, Sam, Jeremi, Sura. . . Bianca e Lucius. Eu senti algo dentro de mim estremecer. Os pêlos da minha nuca se arrepiaram. E então uma agonia crescente se abrigou em mim. Eu senti essa sensação gélida continuar crescendo e me consumindo. Mau pressentimento. Eu abri os olhos ainda dentro da água. Um clarão me cegou e eu senti uma dor queimar meu pulso esquerdo. Eu submergi em busca de ar ainda sem poder enxergar nada. Uma pontada de medo começou a aparecer enquanto eu esperava desesperadamente que minha visão voltasse. Eu já tinha vivenciado isso e sabia que não era algo bom.
O desespero aumentou. Eu encarei a imagem que se formava a minha frente. Um espectro. Minha respiração ficou pesada e lenta. Eu pude sentir o medo afundar em mim e trazer varias sensações agonizantes. Eu busquei ar para meus pulmões, mas simplesmente nada vinha.
Eu observei novamente a criatura que estava a minha frente. Eu não precisava das aulas de filosofia pra saber como era um espectro. Ele estava vindo em minha direção com sua pele extremamente empalidecida e quebradiça, suas feições magras e mórbidas. Eu poderia contar as veias azuladas que surgiam em sua pele. Em suas mãos tinham unhas imensas e negras. Sangue, havia sangue nelas. Traços negros saiam de suas unhas e se uniam ate a parte inferior do seu pescoço, dali elas se perdiam e formavam mais veias azuis e pretas, que iam do seu pescoço ate sua cabeça calva. Seus olhos eram totalmente negros, sem pupila, íris, cílios ou pálpebras. Não havia nariz, apenas dois furos mal formados. E bem abaixo havia sua boca costurada com fios negros e pútridos. O voto de silêncio.
Espectros eram criaturas demoníacas que ficavam na terra como punição. Normalmente ninguém pode vê-los ou tocá-los. Em troca eles não poderiam nos machucar. Em alguns casos, dependendo da força demoníaca que os cercam, eles poderiam possuir um corpo humano, isso era o máximo que eles conseguiam. Mas isso era diferente com um Blind. Nós podíamos os ver, então, como penalidade, eles poderiam nós tocar, conseqüentemente, nos ferir.
A criatura deformada vinha em minha direção rapidamente, se arrastando sobre chão e se contorcendo em seu próprio eixo. Suas unhas negras agarravam o chão fortemente enquanto sua cabeça pendia em seu pescoço. Ele encarou meus olhos. Eu me senti tonta e débil. Não era hora para isso. Eu me debati na água tentando nadar ate a borda da piscina, mas sua dimensão era muito grande e ele era mais rápido que eu. Eu cheguei à beirada da piscina e tentei reunir forças em meus braços enquanto eu a subia. Mas não foi suficiente.
Uma dor inimaginável se alojou em minhas panturrilhas. Eu soltei um grito rouco e abafado. Algo me puxou para baixo e em questões de segundos eu estava em baixo da água novamente. Eu encarei o que estava me segurando. A criatura havia cravado suas unhas em minhas panturrilhas e estava me segurando ali. Eu vi seus olhos negros me observando e engolindo. Ele estava imóvel e me puxando mais e mais para o fundo da piscina. Ele enfiou mais suas unhas em mim. Eu soltei um grito agonizante e senti a água entrar em meus pulmões. Meu pulso queimou fortemente desta vez. A tatuagem.
Eu abri meus olhos e pude ver sangue se dissolver na água. Nesse instante eu soube que aquele era o meu sangue e que se eu não fizesse nada eu morreria.
Eu me debati sob seu aperto, mas nada aconteceu. Eu tentei subir a superfície, porém minhas forças estavam esvaindo. Eu engoli mais água durante esse processo. Meu corpo estava se cansando diante a dor e meu desespero. Eu senti algo ganhar espaço dentro de mim: desesperança. Eu fechei meus olhos e me deixei ir. Meus pensamentos estavam em um turbilhão até agora, mas então eu só consegui pensar em uma pessoa neste momento. Lucius.
Eu escutei um barulho fraco vindo de fora da piscina. Eu tentei abrir meus olhos e ver o que era, mas eu estava tão cansada. Outro barulho e então . . .
Eu senti minha pele sendo rasgada, mas não consegui reagir. Aquela sensação gélida foi diminuindo e pude sentir meus membros se entorpecerem. Algo puxou minha mão e eu me senti sendo levada por algo. Água bateu em meus calcanhares enquanto eu era retirada da piscina. O frio ar me acobertou e eu senti o chão enquanto eu era deitada nele. Algo apertou meu peito fortemente e então ar encheu meus pulmões. O procedimento foi repetido três vezes e água subiu em minha garganta. Eu tossia enquanto eu cuspia a água que estava nos meus pulmões no chão. Mas eu ainda não tinha forças para me sustentar naquela posição, logo eu me deitei novamente no chão frio.
Depois de voltar, à única coisa em que eu conseguia pensar era a dor que a minha panturrilha me causava e como meu pulso estava dolorido. Mãos envolveram meu corpo e eu me contorci diante a dor que golpeava meus sentidos. Meu pescoço e pernas foram sustentados, conseqüentemente eu envolvi meus braços em volta do pescoço dessa pessoa e a apertei em reprovação. Cada movimento que ele fazia enquanto me carregava fazia minha dor aumentar e afundar ainda mais minhas unhas em seu pescoço. Ele beijou minha testa rapidamente, mas suave.
- Shhh, Claire. Eu vou cuidar de você. – ele disso carinhosamente. Eu reconheci quem era antes mesmo de ele me falar isso. Ele havia me feito essa promessa várias vezes antes, e era sempre assim que eu me iludia. Ele era quem consumia meus pensamentos, até na hora em que eu estava a um passo de morrer.
Eu fechei os olhos pesadamente e respirei profundamente. Ele realmente pensava que mandava em mim. Eu passei sete anos da minha vida dependendo dele, mas isso não significava que ele era dono dela. Durante minha vida no orfanato eu aprendi a conviver com tudo o que eu via e fingir que não estava ali, por mais difícil que aquilo fosse. Principalmente depois que minha irmã foi ‘adotada’, eu fiquei mais sozinha do que o normal. O peso das coisas ao meu redor tombaram sobre mim duplamente. Então ele apareceu. Eu posso relembrar essa lembrança perfeitamente: o parque coberto de neve, o banco de madeira branco, a inanimada gangorra vermelha e ele. Ele foi uma das visões mais bonitas que eu tive desde que eu pude ver além das outras pessoas, se não foi a única. As asas negras em destaque com a neve branca, suas unhas afiadas e, principalmente, seus olhos azuis. Foi a partir desse momento que ele entrou na minha vida e eu, incondicionalmente, deixei isso acontecer.
Olhei o relógio novamente. Seis horas e dez minutos. Eu calculei quantos minutos até eu trocar de roupa e chegar ao ginásio. Talvez mais dez minutos, no máximo quinze. Hora de colocar plano irritar-Lucius em ação.
Eu me levantei da cama rapidamente e me direcionei até o quarda-roupa que eu dividia com a Celina e com a Moira. Fiz uma anotação mental de fazer uma arrumação, mas isso, provavelmente, eu só faria semana que vem. Abri a porta lateral do quarda-roupa e abri a gaveta de calcinhas e sutiã, que nesse caso era só minha. E lá estava à parte essencial do plano, meu maiô. Cara, eu podia esquecer diariamente de pegar minha roupa de uniforme, mas nunca esqueceria de um maiô ou biquíni.
Desde que eu cheguei aqui e estive consciente de onde eu estava, a piscina era parte mais preciosa para mim, tanto fisicamente e mentalmente. Era o único lugar que eu podia colocar meus pensamentos em ordem. Agora fazia parte do um plano maléfico. Eu ri baixinho diante da minha infantilidade, mas, bem, se ele me tratava como uma criança, era uma criança que ele teria.
Eu tirei meu ‘lindo’ short preto e minha bata. Depois de tirar minha calcinha e meu sutiã eu vesti meu maiô preto. Ele era tomara-que-caia e sua parte inferior lembrava um shortizinho. Coloquei um vestido preto com detalhes florais brancos na barra e uma sandália rasteirinha. Penteei meus cabelos e o prendi em um rabo-de-cavalo. Me olhei no espelho. Eu acho que já é suficiente.
O relógio apitou atrás de mim. Seis e meia. Eu me olhei de novo no espelho. Bem, já estava na hora. Eu peguei minha bolsa que estava pendurada na cabeceira da minha cama e sai do quarto. Pude sentir o vento frio que bateu nas minhas pernas quando atravessei o jardim externo e entrei pela porta lateral do refeitório. Verifiquei se alguém havia saído da aula e já estivesse no salão, mesmo sabendo que a aula só terminaria às sete da noite e que Lucius nunca deixaria alguém sair antes disso. Avaliei o salão novamente só para ter certeza, a mesa de refeição ainda estava vazia, tendo se em vista que o jantar só seria servido as oito, as mesas de granito estavam mais negras já que as luzes ainda estavam apagadas e a porta que dava pro corredor do ginásio estava fechada.
Contei os ladrilhos marrom-acobreados ate chegar à porta, abri-a e a fechei rapidamente sem fazer barulho, continuei contando ate chegar à porta dupla. A encarei duramente. Não podia ficar pior do que... Bem, podia, mas foda-se!
Escancarei a porta lentamente e encarei a os alunos do treino. Alguns ainda estavam centrados em suas lutas e não perceberam que eu tinha aberto a porta, mas a maioria percebeu. Eu pude perceber que as duplas de treino pararam e me olharam abertamente. Alguns minutos depois todos já me olhavam. Alguns sussurros e risos á parte, eu vi como Celina e Moira me olhavam confusas, elas treinavam juntas então eu pude perceber o quanto cansadas e suadas elas estavam. Sam me olhava sério avaliando a situação. Jeremi se afastou de Juliana, que provavelmente era sua parceira nessa aula, e começou a andar em minha direção. Eu ergui minha mão esquerda e fiz sinal para que ele parasse. Ele obedeceu. Uma sombra escura se movimentou entre os alunos e então lá estava Lucius. Ele tinha passadas lentas e pesadas. Um canto de sua boca ergueu, mostrando um meio sorriso.
- Claire – ele disse enquanto caminhava em minha direção – Veio nos mostrar novamente como não se vestir para uma aula?
Uma das suas sobrancelhas se ergueu e seu sorriso aumentou. Eu tentei responder sua pergunta, mas ele me interrompeu.
- Infelizmente a aula já esta terminando, Claire. – Ele parou em minha frente e ficou sério. Eu senti toda a imensidão do seu corpo quando ele se aproximou, seu olhar duro e uma de suas mãos fechadas em punho. – Mas eu acho que você pode mostrar seu novo modelito lá no refeitório depois da aula.
Eu repensei em tudo em que eu estava fazendo e cheguei à conclusão que isso sim valeria a pena.
- Eu não sei o que você esta fazendo parado na minha frente, mas. . . – eu olhei em seus olhos e dei um passo à frente – eu estou indo pra piscina.
E como se ele não estivesse ali eu passei ao seu lado e... Ele segurou meu braço novamente, me relembrando a cena que vivenciamos mais cedo. Ele me puxou em sua direção e ficamos lado a lado. Eu o encarei e vi sua respiração ficar mais pesada.
- Eu acho que isso não é uma opção – Ele disse baixo para que só eu ouvisse.
- Infelizmente pra sua informação algum professor idiota me dispensou mais cedo da aula. E o que eu faço do meu tempo livre não é da sua conta. – eu puxei meu braço das suas mãos mais forte do que a última vez, mas não surtiu o efeito que eu queria.
- Eu discordo de você – ele apertou mais as mãos envolta do meu braço.
- Já eu acho que uma pessoa discordaria de você. A Sura não gostaria nem um pouco de saber que os treinadores estão interferindo no livre arbítrio dos alunos – eu puxei meu braço e lentamente me desfiz do seu aperto. Eu sabia que dessa vez, eu só consegui sair do perto dele por que ele deixou, mas eu havia tocado em um ponto delicado aqui, Sura. Ela havia sido resignada pra essa área, pra tomar conta do Instituto, por ordem do conselho. E, indiretamente, mexer com a Sura era mexer com o conselho.
Eu avancei diretamente em direção a parede de vidro que dava acesso às piscinas. Enquanto eu caminhava ate lá todos me olhavam, eu simplesmente aproveitei e andei lentamente até o vão que dava na piscina menor. Antes de eu chegar definitivamente à parede eu ouvi um assovio longo e uma salva de palmas. Eu sabia bem quem tinha sido o louco que fez isso. Moira.
Lá estava a imensa piscina. Eu a olhei e percebi, como toda às vezes eu percebia, que ela estava num azul anil-claro e que as divisórias que dividiam as raias não estavam lá. Felizmente eu também percebi que o aquecedor ainda estava ligado. Caminhei ate a borda e tirei minhas sandálias. Depois coloquei minha bolsa ao lado e tirei meu vestido. O frio me fez arrepiar, logo cruzei meus braços e tentei me esquentar. Olhei para trás, em direção ao vidro embaçado, e pude perceber que a aula havia acabado e que os alunos já estavam saindo da quadra. Celina e Moira possivelmente perceberam que nesse momento eu não estava muito a fim de conversar e não foram me ver. Fechei meus olhos e respirei fundo o ar frio que envolvia o local. Abri os olhos novamente e ajustei a escuridão que me cercava, tirando a luz que vinha da quadra ao lado. Sentei na beira da piscina e molhei meus pés na água morna. Como eu adorava este lugar. No próximo segundo eu me joguei na piscina e mergulhei, deixando tudo e todos para trás.
******
Eu absorvi a escuridão ao meu redor. A luz do ginásio ainda estava ligada, mas já havia escurecido muito pra eu ver alguma coisa além da água da piscina e a parede que separava o ginásio das piscinas. Eu mergulhei novamente e me recostei no fundo da piscina, contei os segundos segurando minha respiração e tentei me desligar de tudo que me cercava. Moira, Celina, Sam, Jeremi, Sura. . . Bianca e Lucius. Eu senti algo dentro de mim estremecer. Os pêlos da minha nuca se arrepiaram. E então uma agonia crescente se abrigou em mim. Eu senti essa sensação gélida continuar crescendo e me consumindo. Mau pressentimento. Eu abri os olhos ainda dentro da água. Um clarão me cegou e eu senti uma dor queimar meu pulso esquerdo. Eu submergi em busca de ar ainda sem poder enxergar nada. Uma pontada de medo começou a aparecer enquanto eu esperava desesperadamente que minha visão voltasse. Eu já tinha vivenciado isso e sabia que não era algo bom.
O desespero aumentou. Eu encarei a imagem que se formava a minha frente. Um espectro. Minha respiração ficou pesada e lenta. Eu pude sentir o medo afundar em mim e trazer varias sensações agonizantes. Eu busquei ar para meus pulmões, mas simplesmente nada vinha.
Eu observei novamente a criatura que estava a minha frente. Eu não precisava das aulas de filosofia pra saber como era um espectro. Ele estava vindo em minha direção com sua pele extremamente empalidecida e quebradiça, suas feições magras e mórbidas. Eu poderia contar as veias azuladas que surgiam em sua pele. Em suas mãos tinham unhas imensas e negras. Sangue, havia sangue nelas. Traços negros saiam de suas unhas e se uniam ate a parte inferior do seu pescoço, dali elas se perdiam e formavam mais veias azuis e pretas, que iam do seu pescoço ate sua cabeça calva. Seus olhos eram totalmente negros, sem pupila, íris, cílios ou pálpebras. Não havia nariz, apenas dois furos mal formados. E bem abaixo havia sua boca costurada com fios negros e pútridos. O voto de silêncio.
Espectros eram criaturas demoníacas que ficavam na terra como punição. Normalmente ninguém pode vê-los ou tocá-los. Em troca eles não poderiam nos machucar. Em alguns casos, dependendo da força demoníaca que os cercam, eles poderiam possuir um corpo humano, isso era o máximo que eles conseguiam. Mas isso era diferente com um Blind. Nós podíamos os ver, então, como penalidade, eles poderiam nós tocar, conseqüentemente, nos ferir.
A criatura deformada vinha em minha direção rapidamente, se arrastando sobre chão e se contorcendo em seu próprio eixo. Suas unhas negras agarravam o chão fortemente enquanto sua cabeça pendia em seu pescoço. Ele encarou meus olhos. Eu me senti tonta e débil. Não era hora para isso. Eu me debati na água tentando nadar ate a borda da piscina, mas sua dimensão era muito grande e ele era mais rápido que eu. Eu cheguei à beirada da piscina e tentei reunir forças em meus braços enquanto eu a subia. Mas não foi suficiente.
Uma dor inimaginável se alojou em minhas panturrilhas. Eu soltei um grito rouco e abafado. Algo me puxou para baixo e em questões de segundos eu estava em baixo da água novamente. Eu encarei o que estava me segurando. A criatura havia cravado suas unhas em minhas panturrilhas e estava me segurando ali. Eu vi seus olhos negros me observando e engolindo. Ele estava imóvel e me puxando mais e mais para o fundo da piscina. Ele enfiou mais suas unhas em mim. Eu soltei um grito agonizante e senti a água entrar em meus pulmões. Meu pulso queimou fortemente desta vez. A tatuagem.
Eu abri meus olhos e pude ver sangue se dissolver na água. Nesse instante eu soube que aquele era o meu sangue e que se eu não fizesse nada eu morreria.
Eu me debati sob seu aperto, mas nada aconteceu. Eu tentei subir a superfície, porém minhas forças estavam esvaindo. Eu engoli mais água durante esse processo. Meu corpo estava se cansando diante a dor e meu desespero. Eu senti algo ganhar espaço dentro de mim: desesperança. Eu fechei meus olhos e me deixei ir. Meus pensamentos estavam em um turbilhão até agora, mas então eu só consegui pensar em uma pessoa neste momento. Lucius.
Eu escutei um barulho fraco vindo de fora da piscina. Eu tentei abrir meus olhos e ver o que era, mas eu estava tão cansada. Outro barulho e então . . .
Eu senti minha pele sendo rasgada, mas não consegui reagir. Aquela sensação gélida foi diminuindo e pude sentir meus membros se entorpecerem. Algo puxou minha mão e eu me senti sendo levada por algo. Água bateu em meus calcanhares enquanto eu era retirada da piscina. O frio ar me acobertou e eu senti o chão enquanto eu era deitada nele. Algo apertou meu peito fortemente e então ar encheu meus pulmões. O procedimento foi repetido três vezes e água subiu em minha garganta. Eu tossia enquanto eu cuspia a água que estava nos meus pulmões no chão. Mas eu ainda não tinha forças para me sustentar naquela posição, logo eu me deitei novamente no chão frio.
Depois de voltar, à única coisa em que eu conseguia pensar era a dor que a minha panturrilha me causava e como meu pulso estava dolorido. Mãos envolveram meu corpo e eu me contorci diante a dor que golpeava meus sentidos. Meu pescoço e pernas foram sustentados, conseqüentemente eu envolvi meus braços em volta do pescoço dessa pessoa e a apertei em reprovação. Cada movimento que ele fazia enquanto me carregava fazia minha dor aumentar e afundar ainda mais minhas unhas em seu pescoço. Ele beijou minha testa rapidamente, mas suave.
- Shhh, Claire. Eu vou cuidar de você. – ele disso carinhosamente. Eu reconheci quem era antes mesmo de ele me falar isso. Ele havia me feito essa promessa várias vezes antes, e era sempre assim que eu me iludia. Ele era quem consumia meus pensamentos, até na hora em que eu estava a um passo de morrer.
Assinar:
Postagens (Atom)